A ideia era agradecer pelo sucesso. A gratidão fez o premiado músico Jonathan Ferr, cria do Morro da Congonha, voltar à Madureira, bairro onde nasceu e cresceu para presentear a população com uma apresentação surpresa, depois de ter tocado em vários países e em eventos importantes como o Rock in Rio. O show improvisado foi na tarde desta sexta-feira na movimentada Rua Ministro Edgard Romero, em frente ao Shopping dos Peixinhos, um dos mais populares da Zona Norte.
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O piano em plena rua chamou a atenção de quem passava pelo lugar ou estava fazendo compras no movimentado comércio local e parou para ouvir e cantar junto. O músico com um longo casaco laranja, em plena tarde ensolarada, e com dedos nervosos sobre as teclas convocou o público a acompanhá-lo em músicas mais conhecidas como “Meu Lugar”, de Arlindo Cruz e Mauro Diniz, que já se tornou uma espécie de hino informal do bairro, e “O sino da igrejinha”, conhecido ponto de umbanda, que se popularizou após ter sido gravado por Martinho da Vila, na década de 1970, no disco “Canta, Canta Minha Gente”.
O artista, que está lançando um novo álbum com sugestivo titulo “LAR”, celebra com esse seu trabalho mais recente, pela gravadora Slap, a força de permanecer conectado ao que “nos acolhe, nos fortalece e nos mantém inteiros”. Daí a decisão dessa ação, descrita por ele como “momento histórico”. com uma apresentação aberta ao público nas ruas de Madureira.
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—Estar em Madureira para mim foi extremamente importante. Foi um ato simbólico, primeiro, de levar o piano para Zona Norte do Rio de Janeiro. O subúrbio do Rio de Janeiro é um lugar que emerge muita cultura, muita arte. Grandes artistas saíram de Madureira e eu tenho o privilégio de ser um desses artistas oriundos de Madureira, um lugar que me forjou, que forjou a minha arte, que forjou meu olhar social, minha espiritualidade e a busca pelos meus sonhos. Então eu sentia muito que eu precisava devolver para Madureira tudo que Madureira tinha me concedido, me dado — disse Jonathan Ferr.
Os vídeos da apresentação surpresa postados na rede social do artista gerou várias manifestações de aprovação. “Lindo demais. Madureira Merece muito isso”, escreveu um internauta. “Que incrível”, postou outra. “Que arraso!”, manifestou mais uma. Quem perdeu lamentou. “Você é demais em todos os aspectos, queria ter presenciado, deve ter sido um momento incrível!” , reagiu uma fã.
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Pesou ainda na decisão dele de levar o piano para o bairro, os relatos de amigos do subúrbio sobre a dificuldade de frequentar seus shows, em espaços da Zona Sul, por conta da distância e por não terem dinheiro para comprar ingressos. Ele disse também que em conversas com agentes culturais em Madureira, ficou sabendo que a ação que pretendia realizar era inédita na região.
— Levar levar um piano para Madureira tem um simbolismo, uma força poética, social, artística, cultural muito, muito, muito grande — afirma, acrescentando que o brilho nos olhos das crianças que depararam com o seu piano na rua representa a certeza de que estava plantando nelas a “sementinha” da arte.
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Ele disse ainda que o objetivo era também cumprir uma promessa antiga:
— Eu me comprometi em levar Madureira para qualquer lugar que eu fosse e sempre que eu vou para qualquer lugar do mundo tocando eu me lembro de onde eu vim. Madureira tá sempre comigo, então essa devolutiva de voltar para onde eu me forjei nesse sentido, na busca do sonho com muitas dificuldades que quem só quem mora do Zona Norte e do subúrbo sabe e mesmo exposto a tantas coisas, esse sonho não se perdeu. Então eu sinto que voltar aqui foi como voltar para casa, para o meu lar.
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Aos 9 anos, Jonathan Ferr ganhou do pai um teclado para iniciantes, daqueles sem muitos recursos. O menino, então morador do Morro da Congonha, favela localizada na Zona Norte do Rio, havia se encantando por esse tipo de instrumento ao ver o pianista Pedrinho Mattar, morto em 2007, na TV. “Ainda não era um piano, mas foi o começo dessa história”, contou o carioca a O GLOBO, em 2021: “Depois desse presente, minha vida ganhou um novo sentido. A música virou uma obsessão. Deixei de jogar futebol e soltar pipa para me dedicar aos ritmos. Sabe aquela sensação de estar apaixonado? Era exatamente assim que eu me sentia.”
Após aulas comunitárias intensivas em Madureira, Jonathan dominou o piano e começou a ganhar uns “trocados” por causa de seus dotes musicais. “Vinte anos atrás, R$ 50 era grana demais. Conseguia ajudar em casa, fazer uma compra no mercado. Percebi ali que poderia ganhar dinheiro sem precisar deixar minha vocação de lado”, contou o rapaz, que tocou em igreja evangélica e no Palco Favela do Rock in Rio, em 2019. De lá para cá não parou mais. Lançou vários álbuns, fez muitos shows, rodou o mundo, ganhou diversos prêmios e voltou ao Rock in Rio.

