Como todo brasileiro, André Lamoglia, de 28 anos, tinha algum conhecimento, na infância, sobre a dinâmica do jogo do bicho, modalidade ilegal de loteria que se popularizou no começo do século XX. Controlada por famílias com forte influência no estado do Rio de Janeiro, a prática — e seus peculiares personagens — tomou as redes sociais após a exibição do documentário “Vale o escrito: A guerra do jogo do bicho” (2023), da Globoplay. Dois anos depois, o assunto voltou a esquentar com a série “Os donos do jogo”, da Netflix. Na atração, Lamoglia estreia seu primeiro protagonista, Profeta, filho mais novo de uma família de contraventores, que sonha em expandir os negócios e se transformar em um dos líderes da cúpula na capital fluminense.
“Embora conhecesse, nunca tinha tido contato com esse universo, nunca joguei no bicho (risos). Meu estudo começou após mergulhar nesse trabalho. Tive aulas de tiro, e com a equipe, fomos ao Batalhão de Ações com Cães da Polícia Militar do Rio”, conta o ator. Apesar de Profeta nada ter a ver com policiais, ele ressalta a velocidade de raciocínio e a energia diferente desses profissionais. “Eles correm riscos frequentes, precisam resolver crimes. Dei de cara com esse perigo na construção do Profeta.” Para o diretor Heitor Dhalia, a determinação e o carisma de Lamoglia foram a combinação decisiva para a escolha do protagonista. “Isso estava claro já no primeiro teste. Ficamos fascinados com o carisma do André. Ele é extremamente dedicado e parceiro, e espero que essa colaboração se repita outras vezes. Foi uma onda perfeita.”
Ao contrário do aspirante a líder dos bicheiros, Lamoglia se define como um cara tranquilo e até um pouco tímido. Filho de um casal de classe média de Laranjeiras, bairro da Zona Sul do Rio, inspirou-se na carreira do irmão, o também ator Victor Lamoglia, de 32, para dar os primeiros passos na atuação. Antes disso, porém, precisou fazer uma escolha. “Quando tinha uns 6 ou 7 anos, comecei a jogar tênis. Meu sonho de criança era seguir a carreira. Praticava todos os dias, participei de campeonatos, e até hoje jogo. Mas os caminhos foram mudando”, relembra.
Novos ventos levaram o adolescente de 14 anos a acompanhar e montar cenários, sendo uma espécie de “faz tudo” do irmão nas coxias. Seguiu para o Tablado, famosa escola de teatro da capital fluminense, e então veio o primeiro espetáculo profissional, “Cinderela” (2015), em versão escrita por José Wilker. Não demorou para ser convidado para o primeiro papel na TV, na série “Juacas” (2017), do Disney+. Mas nem tudo eram “flores”. “A cada dez oportunidades que um ator vai ter, onze ele receberá ‘não’. E isso aconteceu muito comigo.” Fã de “Malhação”, foi reprovado em inúmeros testes do folhetim adolescente. “Sempre levei como um aprendizado, que talvez não fosse o momento. Isso me entristecia, mas nunca me permiti ficar para baixo, e amadureci”, garante.
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Por um golpe do destino, os tantos “nãos” levados no Brasil transformaram-se em “sim” no exterior, com um toque latino. Ainda que não tenha sido planejado, foi na Espanha que Lamoglia ganhou fama. Após aprender espanhol “a jato” para uma participação na série argentina “Bia” (2020), foi escolhido entre atores do mundo todo durante os testes para dar vida ao bissexual Iván, estudante do colégio Las Encinas, na quinta temporada da série “Elite” (2022). À época, as cenas de sexo com o ator Manu Ríos deram o que falar na internet.
“Fomos bem respaldados, tínhamos um coordenador de intimidade. Recebi muitas mensagens de pessoas que se sentiram representadas. É bom saber que fiz algo que ajudou a rebater o preconceito”, afirma. Com sua parceira em “Os donos do jogo”, a atriz Mel Maia, também tirou de letra os momentos “calientes”. “Foi a primeira vez que contracenamos, e a troca foi fundamental para construirmos as cenas e para a sintonia de Mirna e Profeta. O tema da contravenção é complexo, e nos ajudamos demais.”
Tamanha visibilidade com “Elite” trouxe frutos também na moda. Vivendo em Madri há quatro anos, Lamoglia se transformou no queridinho de marcas como Bvlgari, Dior, Prada e Dolce & Gabbana e foi alçado ao posto de símbolo sexual. “Não é algo que eu busco, mas se está vindo naturalmente, aceito. O que procuro é sempre evoluir como pessoa, fazendo histórias interessantes.” Com a fama, não escapou de rumores sobre sua vida amorosa. Apontado como o affair da atriz e influenciadora Jade Picon, com quem já foi visto em momentos de intimidade, desconversa sobre o status do relacionamento. “Prefiro não falar sobre isso, porque mantenho a minha vida pessoal mais restrita. Mas, no futuro, penso em construir uma família. Sou muito unido à minha e gosto de casa cheia”, finaliza Lamoglia.

