Durante muito tempo, a vida adulta pareceu vir acompanhada de um roteiro: estudar, escolher uma profissão, entrar no mercado de trabalho, crescer na carreira, formar uma família e, décadas depois, se aposentar. Esse desenho não desapareceu, mas deixou de ser o único possível. E nem todo mundo precisa seguir o mesmo caminho.
Mudar de profissão aos 40 ou 50 anos, voltar a estudar, transformar uma experiência em negócio ou simplesmente reorganizar prioridades já faz parte de uma vida adulta mais aberta a novas possibilidades.
Uma pesquisa da Maturi em parceria com a NOZ Inteligência, realizada em 2024 com mais de duas mil pessoas entre 43 e 82 anos, mostrou que 68% buscavam ou já viviam uma transição de carreira.
Para Germana Benirschke, consultora de carreira, essa mudança tem relação com uma transformação no mercado de trabalho. Se antes as empresas desenhavam trajetórias e indicavam os próximos passos, hoje o profissional é chamado a assumir a própria formação e decidir para onde quer ir.
— A mudança deixou muitos profissionais sem norte e confusos sobre o que fazer. Ao mesmo tempo, abriu espaço para refletir, questionar e encontrar respostas — diz.
A psicóloga Claudia Botelho observa outra transformação. Para gerações anteriores, a entrada na vida adulta era marcada por acontecimentos concretos, como casamento, saída da casa dos pais e primeiro emprego.
Essas fronteiras ficaram mais difusas. A faculdade já não encerra a formação. Muitas vezes, é seguida por pós-graduação, intercâmbio, especialização e novos cursos. A vida profissional também ganhou mais possibilidades de mudança, pausa e reinvenção.
— O diploma deixou de ser a linha de chegada e virou quase um ponto de partida. Não existe mais uma carreira em linha reta. Não é uma escolha que se faz aos 18 anos e pronto. São decisões que a pessoa vai precisar tomar ao longo da vida toda — afirma.
O novo cenário também pode trazer ansiedade. Entre os mais jovens, é comum a sensação de que nunca fizeram o suficiente. Sempre falta uma formação, um idioma, uma experiência. Ao mesmo tempo, continuam se comparando a uma geração que viveu outra realidade.
— O jovem olha para os pais e pensa: na minha idade, eles já tinham emprego, já tinham saído de casa, já tinham se casado. Só que hoje ninguém mais está estabelecido aos 25, aos 30 anos. Ele está cobrando de si uma resposta que servia para uma pergunta que não existe mais — destaca Claudia.
A bagagem vai junto
Do outro lado estão aqueles que chegam aos 40 ou 50 anos questionando escolhas feitas décadas antes. Para eles, o receio é deixar para trás o que construíram e começar tudo de novo. Recomeçar, porém, raramente significa apagar o passado.
— Começar aos 40 ou aos 50, na verdade, é continuar — resume a psicóloga.
Conhecimentos específicos podem mudar, mas habilidades acumuladas permanecem. Saber negociar, resolver problemas, trabalhar sob pressão, lidar com pessoas e reconhecer os próprios limites continua sendo valioso, mesmo quando os planos mudam.
Claudia viveu esse processo quando decidiu se formar em psicologia aos 50 anos, depois de três décadas na educação.
— Meus 30 anos de educação não ficaram para trás. Toda a vivência de sala de aula, com adolescente, com família, me deu um lugar de experiência que não é de quem está começando na psicologia — diz.
Germana encontra movimentos semelhantes entre os profissionais que acompanha. Nem sempre há uma ruptura. Há quem mude de área dentro da própria empresa, transforme conhecimento acumulado em mentoria, passe de uma função operacional para outra mais estratégica ou comece um negócio a partir de um interesse antigo.
Ter liberdade para fazer esses movimentos também depende do que foi construído ao longo do caminho.
— Rede de relacionamentos, formação contínua e reserva financeira ampliam a margem de escolha — diz a consultora.
Para Claudia, quando a possibilidade de mudar passa a fazer parte da vida adulta, muda também a pergunta sobre o futuro. “O que vou ser quando crescer?” dá lugar a “o que eu quero ser depois de ter sido aquilo que quis ser?”.
Essa pergunta pode voltar aos 40, aos 60 ou mesmo depois da aposentadoria. Afinal, os planos podem ganhar novos sentidos conforme a vida acontece.
— Dá para viver várias vidas dentro de uma só — afirma Claudia.
Mais do que chegar a algum lugar específico, a vida também pode ser sobre descobrir novos caminhos pelo percurso. Ninguém está atrasado para a própria vida.
O kit para mudar de rota
Alguns elementos podem trazer mais segurança e liberdade para fazer escolhas e experimentar novos caminhos ao longo da vida.
Formação contínua: mantenha-se atualizado e desenvolva novas habilidades.
Rede de relacionamentos: cultive contatos que possam abrir portas e gerar oportunidades.
Reserva financeira: tenha uma margem para atravessar períodos de transição com mais tranquilidade.
Experiência acumulada: reconheça conhecimentos e habilidades que continuam valiosos em novos contextos.
Autoconhecimento: entenda seus interesses, limites e prioridades para tomar decisões mais alinhadas ao momento de vida.
Começar aos 40 ou aos 50, na verdade, é continuar.
Claudia Botelho, psicóloga
Arquivo pessoal
Rede de relacionamentos, formação contínua e reserva financeira ampliam a margem de escolha.
Germana Benirschke, consultora de carreira
Arquivo pessoal

