Lances de mão continuam entre os mais difíceis de compreender no futebol porque a regra não considera irregular todo contato da bola com o braço. A posição do membro, o movimento do jogador, a intenção e a consequência da jogada precisam ser analisados antes de o árbitro decidir. Foi essa combinação de critérios que permitiu a marcação do pênalti para a Espanha contra a França, na semifinal da Copa, mesmo depois de a bola atingir o braço de Lamine Yamal.
O pênalti que abriu o placar para a Espanha contra a França teve dois acontecimentos em sequência e, por isso, provocou dúvida. Primeiro, durante a disputa da bola dentro da área francesa, ela tocou no braço de Lamine Yamal. No mesmo instante, o atacante espanhol foi derrubado por Lucas Digne. O árbitro Iván Barton considerou o contato do defensor uma falta e marcou a penalidade, convertida por Mikel Oyarzabal. A possível mão de Yamal foi examinada, mas não anulou o lance.
A primeira explicação está numa frase importante da regra: nem todo contato da bola com a mão ou o braço representa uma infração. Para marcar a falta, a arbitragem precisa identificar que o jogador movimentou deliberadamente o braço em direção à bola ou que o manteve numa posição capaz de aumentar seu corpo de maneira antinatural. No lance, o braço de Yamal estava recolhido e próximo ao tronco, sem criar uma barreira adicional nem ocupar um espaço maior. A bola bateu nele; não houve um movimento do espanhol para interceptá-la.
Mikel Oyarzabal comemora gol da Espanha contra a França após pênalti sofrido por Yamal
FRANCK FIFE / AFP
O fato de Yamal ser o atacante também não torna o toque automaticamente irregular. A regra já determinou que praticamente qualquer mão acidental no início de uma jogada ofensiva deveria ser punida, mas esse critério foi restringido. Hoje, o toque acidental só é uma infração automática quando o próprio jogador faz o gol diretamente com a mão ou com o braço, mesmo sem intenção, ou marca imediatamente depois de a bola tocar nessa parte do corpo.
Nada disso aconteceu. Yamal não marcou um gol com o braço nem dominou a bola irregularmente para finalizar em seguida. Depois do contato acidental, ele continuou participando da jogada e sofreu uma infração cometida por Digne. Ganhar um pênalti após a bola tocar involuntariamente num braço mantido em posição natural não está entre as situações que a regra manda punir automaticamente. Portanto, não havia uma falta de mão anterior que obrigasse o árbitro a interromper a jogada.
São, na prática, duas decisões independentes. A primeira foi considerar legal o contato da bola com o braço de Yamal, porque não houve gesto deliberado nem ampliação antinatural do corpo. A segunda foi entender que Digne cometeu uma falta dentro da área com a bola ainda em jogo. Como o primeiro contato não configurou infração, nada impedia a marcação do pênalti ocorrido logo depois. Por isso, apesar de a imagem da bola no braço causar estranheza, a decisão de manter a penalidade para a Espanha está de acordo com a Lei 12.
Com o gol de pênalti, a Espanha abriu o placar na semifinal, disputada em Dallas, em cobrança convertida por Oyarzabal.

