O rápido crescimento da geração de eletricidade eólica e solar, somado a desequilíbrios do setor elétrico, arrefeceu o desenvolvimento de novas frentes de fontes renováveis de energia, mas nada que pare a roda de oportunidades da transição energética, avalia Rogério Zampronha, CEO da Prumo Logística, dona do Porto do Açu, no Norte Fluminense.
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Se projetos de usinas eólicas offshore (em alto-mar) podem ficar para depois, ele diz, em entrevista ao GLOBO, que fábricas de hidrogênio, metanol e amônia verdes estão saindo do papel. Outro caminho é a geração de eletricidade a gás natural (o presidente Lula inaugurou a termelétrica GNA II no Açu na semana passada) para abastecer data centers, mais recente aposta da empresa.
A transição energética e o combate às mudanças climáticas estão ameaçadas pela posição dos EUA sob Donald Trump?
O aquecimento global existe e continua nos afetando diariamente. Faça ou não parte das políticas públicas de uma nação importante no mundo, continua existindo e, consequentemente, todas as ações que vislumbram a redução de pegada de carbono das atividades mais relevantes continuam sendo fundamentais. Não há decreto ou desejo de um presidente que mude o aquecimento global.
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A GNA II acaba de começar a operar. Quais os próximos passos?
O gás natural é um combustível da transição energética. Embora seja fóssil, tem baixa emissão quando comparado com outros. Temos uma estratégia de gás natural dentro da Prumo, e a GNA faz parte dela. As usinas GNA I e II somam 3 GW. É o maior complexo de geração térmica a gás natural do Brasil. E tem um caminho aberto para se expandir. Temos um plano de expansão importante, que pode chegar ao que já está licenciado, que são 6,4 GW.
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Quando será tomada a decisão de construir as usinas III, IV e V?
Assim que for confirmado o novo leilão de capacidade. Não temos a data ainda. Seguramente, a GNA vai participar do próximo leilão.
E os demais projetos de energia de fonte renovável?
O protagonismo das renováveis como um todo caiu muito no Brasil. Hoje, vemos poucos projetos novos, solares e eólicos, inclusive offshore, que continuo vendo como uma grande solução para o Brasil.
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O que explica essa queda no protagonismo?
Há o problema de demanda e o da expansão de geração distribuída (GD, de placas fotovoltaicas instaladas por consumidores) muito acelerada. É uma aberração a GD, que tem um custo de energia gerada três vezes maior do que uma usina centralizada em qualquer lugar do Brasil, crescer a base de subsídios cruzados que encarecem a conta de energia. Não faz o menor sentido ter tanta GD assim.
Um segundo ponto é o custo de capital. Por todas as razões que a gente já conhece, os juros estão onde estão, o que faz energia nova muito cara hoje. E o consumo não está acompanhando o excesso de energia que tem no sistema.
Aí você pode perguntar: “por que precisa de térmica então?” É que entre 17h e 18h sai do sistema toda a solar do Brasil. Então, naquele momento, precisamos de uma fonte confiável de energia. O Brasil é o país da energia de menor custo do mundo, mas de maior preço. Aí entra aquela discussão sobre suporte social vis-à-vis quem paga a conta. Para que 60 milhões de casas possam não ter mais a necessidade de pagar o seu custo de uso de energia elétrica, esse custo vai para algum lugar.
Ficamos para trás na transição energética?
Arrefeceram os projetos de geração de energia renovável, mas se fortaleceram os de novos combustíveis, de uma forma que eu não imaginava. Licenciamos uma área de 1 milhão de metros quadrados (na área industrial do Açu) para o hub de hidrogênio (verde). Achávamos que demoraria uns três anos para ocupar esse 1 milhão de metros quadrados, mas em menos de um ano está tudo ocupado. Aí iniciamos, recentemente, o licenciamento da segunda área, agora de 2,5 milhões de metros quadrados.
Isso vai fazer o Brasil ter o maior cluster da América Latina de transição energética. Temos lá quatro ou cinco empresas, cada uma com sua área, com sua ambição de crescimento, que vão produzir metanol, SAF (combustível sustentável de aviação), amônia. A nossa expectativa é que no fim de 2027 ou início de 2028 já estejam produzindo.
Nesse tema de transição energética, o perfil do investidor mudou muito. As grandes produtoras de petróleo começaram esse movimento, aí elas se retiraram, exceto uma ou outra. Esse espaço foi ocupado por empresas especializadas em um ou dois produtos específicos, superenxutas, focadas. E financiadas por algum ou alguns fundos de investimento de grande porte. Essas empresas conseguem extrair uma rentabilidade do projeto que uma grande empresa, com uma grande estrutura, não consegue.
E a aposta nos data centers?
Já temos uma reserva de área, não estou autorizado a comentar ainda porque não é um contrato firme. Mas é uma reserva para 400 mil metros quadrados para um cluster de três data centers. Temos a sorte de ter um dos nós principais de backbone do Brasil chegando em Atafona (praia na mesma região). E, simultaneamente, há um crescimento da demanda de energia desses grandes data centers.
E como está o funcionamento do porto?
Já são 10 mil pessoas trabalhando no porto, há dez anos, não tinha ninguém. O que paga a conta hoje em dia é o nosso negócio tradicional. Somos um porto privado, temos uma operação muito ágil, sem burocracia, coordenando e organizando a fila de navios com sistemas muito inteligentes. Temos o menor tempo de espera do Brasil.
No ano passado, cresceu o volume do agronegócio em 25% em relação a 2023. Já exportamos café, soja e milho, e importamos fertilizantes. Este ano, vamos fazer 600 mil ou 800 mil toneladas de grãos. Construímos dois armazéns e um parceiro nosso construiu mais um ou dois. A capacidade é seis vezes maior do que há três anos. Temos planos de construção de um terminal dedicado de grãos, o T-Grão. Acreditamos que conseguimos capturar até 3 milhões de toneladas por ano de grãos com esse novo terminal.
Mesmo sem ferrovia. Óbvio que não estamos no mainstream, como Paranaguá, Santos ou o arco norte. Buscamos especialidades ou regiões onde o custo rodoviário é mais competitivo do que o ferroviário. Quem está muito longe da ferrovia tem um custo muito grande para levar por rodovia até a ferrovia. Nessa franja, já estamos sendo muito competitivos.
E se a ferrovia for construída?
Segundo o ministro (dos Transportes,) Renan Filho, estão fazendo road show e apresentando a Estrada de Ferro 118, que liga Vitória ao Rio de Janeiro, e consequentemente nos conectaria a toda a rede ferroviária que traz grãos do Centro-Oeste. Esse seria o ramal que seria o primeiro a ser licitado (no novo plano de concessões de ferrovias), talvez na virada do ano.
Com a ferrovia, de uma forma mais conservadora, acreditamos que chegaríamos muito rapidamente a 8 milhões de toneladas de grãos (por ano). E poderia chegar a 15 milhões, mas tudo isso são conjecturas.
Como está a infraestrutura de acesso por estradas?
Conseguimos grandes avanços. Tem muita coisa sendo feita. Agora, o Brasil tem problemas, tem gargalos no país inteiro. Então, o que temos lá é tão bom quanto o resto do país, até melhor do que alguns lugares.