“Hoje eu vivo em Haifa, a 3ª maior cidade de Israel, mas eu cresci em um povoado pequeno, com menos de mil habitantes: Ben Ami, perto da fronteira com o Líbano. Quando eu tinha 7 ete anos, estourou a segunda guerra do Líbano. Lembro que foi durante as férias escolares, e por 34 ou 35 dias minha família inteira dormiu em um abrigo subterrâneo. Diferente de Tel Aviv, onde você tem um minuto para encontrar abrigo depois que o alarme toca, em Ben Ami, o alarme e o míssil chegam ao mesmo tempo.
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A maioria das crianças em Israel vê as Forças Armadas como algo absolutamente normal. É parte da natureza e do cotidiano deste país. E eu, como meus irmãos mais velhos e meu pai já tinham servido, achava algo totalmente natural e necessário. Quando fiz 14 ou 15 anos e comecei a estudar sobre as ocupações na Judeia e Samaria [Cisjordânia], percebi que tinha alguns desacordos com as políticas de governo, mas nunca deixei de pensar que o Exército era necessário e que tinha o dever de servir. Acabei me alistando na infantaria aos 19 anos, e fiquei 4 anos no serviço ativo, tendo passado pela fronteira de Gaza e diferentes partes da Cisjordânia.
Era por volta das 7h [do dia 7 de outubro de 2023] quando meu irmão que mora em Bersheva [sul de Israel] mandou uma mensagem no grupo do WhatsApp da família dizendo que estava bem. Eu não entendi o porquê. Quando liguei a TV e comecei as notícias, entendi. Horas depois, me apresentei em uma instalação de crise.
Eu servi por cinco meses em uma unidade dentro de Israel, e em conversas com os colegas de batalhão, desde as primeiras semanas, me posicionei a favor de qualquer acordo que libertasse os reféns e acabasse com a guerra. Mas só quando voltei para casa em março [de 2024] comecei a me informar melhor sobre o conflito, as operações e a falta de progresso nas negociações. Foi a primeira vez que eu pensei em me opor.
Alguns soldados estavam organizando uma primeira carta contra a guerra, e um deles entrou em contato comigo para saber se eu queria assinar. Eu pensei bastante, mas já tinha que retornar ao serviço dali a poucos dias. Eu não aderi ao movimento naquele momento e me apresentei para uma segunda rotação, entre maio e julho. Em setembro, voltei pela terceira vez, desta vez para entrar efetivamente no Líbano e destruir equipamento militar do Hezbollah.
Eu atendi à convocação mesmo julgando que nosso governo estava tomando decisões equivocadas, porque me sentia responsável pelos soldados sob o meu comando. Não podia mandá-los se arriscar sem estar com eles. Outro fator é que era algo muito distante me recusar a servir. Mostrar minha objeção parecia possível por qualquer outro meio, mas não me recusando.
O momento que mudou minha cabeça foi há quase três meses. Tínhamos um acordo com o Hamas, os reféns estavam voltando. Quando a segunda etapa se cumprisse, todos os reféns voltariam para casa e a guerra acabaria. Mas após a primeira etapa, Benjamin Netanyahu escolheu abandonar o acordo e seguir com a guerra.
Essa foi uma decisão contra o que a maioria dos israelenses desejam e contra qualquer outro interesse de Israel. Eu não consegui ver nenhuma razão para continuar a guerra que não fosse a sobrevivência política do governo ou talvez algum sonho de conquista da Faixa de Gaza.
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Entrei em contato com meu comandante para avisar que havia assinado uma carta chamada “Soldados pelos Reféns”, de oposição à guerra e que foi considerada a iniciativa com a linguagem mais agressiva até o momento. Em uma linha, dissemos que para parte de nós a linha-vermelha já tinha sido cruzada, e que para outra parte esse ponto estava chegando. Eu soube que muitos dos oficiais não gostaram dessa carta, e que soldados foram dispensados por assinar, por isso eu resolvi avisar.
Dias depois, recebemos uma nova convocação de emergência. Ele me disse que eu deveria servir, mas eu respondi que precisava pensar. Quando disse que não iria, ele informou que me ligaria de novo para informar a data do meu julgamento.
Há duas semanas, fui condenado a 20 dias em prisão militar por não ter atendido à convocação. O julgamento durou apenas alguns minutos. Meu comandante disse que cometi uma violação séria da lei, e que o problema não foi apenas não ter aparecido, mas ter assinado a carta, o que seria um chamado a outras pessoas também desobedecerem.
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Eu apresentei uma apelação, e a primeira sentença foi cancelada por irregularidades processuais. Agora, estou enfrentando um novo julgamento — e a audiência final é neste domingo.
Eu não espero sair dessa livre. Acho que vão me punir. A pena máxima prevista para o meu caso é de 30 dias, mas acho que não pegarei o máximo. O Exército está em uma posição complicada neste momento: querem mostrar a todos que essa não é uma decisão que você pode tomar [se recusar a servir] e sair sem punição, mas por outro lado, quando as pessoas em Israel ouviram falar que um oficial da Infantaria que lutou no Líbano e serviu por 270 dias nesta guerra seria mandado para a prisão por discordar do conflito, elas ficaram contra essa decisão.
Recebi apoio até de pessoas que não pensam como eu, mas não acharam moral me mandar para a prisão. Se eles [o Exército] não tivessem tentado me punir primeiro, ninguém teria ficado sabendo que eu me recusei. Houve outras recusas em servir durante a guerra, mas me tornei o mais conhecido pela punição.
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Eu não uso o termo “crime de guerra” [para me referir ao que acontece em Gaza] porque não sou advogado para definir ou reconhecer essa situação. O que eu posso dizer é que, pelo que eu sei a partir do noticiário e de amigos que retornam de Gaza, falta comida, água e suprimentos médicos por lá. A população está sendo deslocada para certas áreas. Há civis morrendo em suas casas e saindo em busca de comida. Essas são algumas das principais razões de por que eu não posso mais cooperar com essa guerra. Tudo isso é imoral e não serve ao interesse da segurança nacional de Israel.
Espero que o governo assine um acordo que traga os reféns de volta e retire o Exército de Gaza. Isso é importante até mesmo para a segurança dos soldados. Quando eu estive no Líbano, seis da minha companhia morreram em combate. Não estou contando com exatidão, mas ao menos 50 pessoas que eu conhecia morreram na guerra. Eu não vejo justificativa para continuar arriscando nossas vidas, a vida dos meus amigos, por uma guerra que não leva a lugar nenhum.
Minha esperança é ver, talvez em um futuro distante, um governo palestino em Gaza que não busque o terrorismo, e um governo em Israel que busque a paz e esteja disposto a viver lado a lado com os palestinos.
*Ron Feiner tem 26 anos e é capitão de infantaria na reserva do Exército israelense. Ele será julgado no domingo por um Tribunal Militar por se recusar a atender à última convocação.

