
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, evitou sinalizar nesta quinta-feira por mais reajustes no preço do óleo diesel nas refinarias, após o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, anunciar que o governo federal manterá a subvenção econômica ao combustível em R$ 2,12 por litro por mais 30 dias. Se as cotações do petróleo caírem, a estatal fica “confortável” em relação aos preços. Por isso, a companhia não tomará decisões logo, disse a executiva.
Previsão: BC reduz projeção do PIB de 2026 para 1,8% e prevê desaceleração em 2027
Congelamento: Governo reduz trava no Orçamento de 2026 para R$ 16,1 bilhões
A subvenção — um desconto bancado pelo Tesouro para que produtores e importadores vendam o diesel mais barato — é um dos subsídios aos preços dos combustíveis que o governo federal vem adotando desde março, para mitigar os efeitos econômicos da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.
Em mais de uma ocasião desde então, a Petrobras aproveitou a adoção de subvenções econômicas para fazer reajustes. Semana passada, ao aderir a um novo desconto de R$ 1 por litro anunciado pelo governo federal, a estatal aplicou um aumento no mesmo montante em seus preços nas refinarias.
Prorrogação da subvenção
Essa nova subvenção se somou a outra, de R$ 1,12 por litro, que perderia vigência no sábado. Por isso, Moretti anunciou em Brasília que haverá uma prorrogação, e o valor total será mantido em R$ 2,12 por litro.
Com petróleo na Foz do Amazonas: moradores de Oiapoque vivem misto de otimismo e preocupação
A Petrobras tem aproveitado as subvenções para fazer reajustes porque é importante haver algum equilíbrio entre os preços domésticos e externos do diesel.
Quando os valores domésticos ficam muito abaixo dos do exterior, a importação se torna uma operação deficitária. Os importadores privados veem menos ganhos em trazer diesel de fora. A Petrobras, se o fizer, perde dinheiro.
Equilíbrio vai e vem
Algo próximo do equilíbrio é importante tanto para garantir o abastecimento quanto para moderar as perdas da estatal.
Com subsídios a combustíveis: governo prevê gastos de 19,55% do PIB em 2026, o maior nível desde a pandemia
Nesta quinta-feira, Magda evitou dizer se a subvenção somada de R$ 2,12 por litro é suficiente para equilibrar os preços internos com os internacionais.
— Há uma semana ou dez dias, com os R$ 2,12 (por litro de subvenção), estávamos confortáveis. Não estamos mais confortáveis com o Brent a US$ 108, mas o Brent já está caindo, está abaixo de US$ 100. Então, não vamos fazer essa conta todos os dias. Olhamos isso de 15 em 15 dias — afirmou Magda a jornalistas, ao deixar a ROG.e (antiga Rio Oil & Gas), o maior evento da indústria petrolífera do país, no Rio.
A executiva chamou a atenção para a volatilidade nas cotações do petróleo:
‘Inaceitável’: Modelo de IA da OpenAI ‘pula a cerca’ e invade site do governo australiano
— A cada declaração americana, o preço sobe ou desce. E não dá para, na nossa política de preços, enxergar tendência e reagir todos os dias.
Crítica ao PPI, das gestões anteriores
A executiva aproveitou para criticar a política de preços de paridade internacional (PPI), mantida pela Petrobras, com algumas variações de frequência, durante as gestões da petroleira nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, de 2016 a 2022:
— Se formos reagir todos os dias, vamos acabar perdendo o market share, como já perdemos no passado.
Prioridade: Lula discute medidas sobre bets com ministros e avalia cenários para restringir apostas on-line
Ao alinhar os preços de combustíveis com os praticados no exterior, a Petrobras atraiu a participação de importadores privados no mercado. A participação de importadores foi maior no diesel, já que a capacidade instalada de produção nacional é menor.
O resultado, segundo Magda, foi que a Petrobras “vendeu menos e perdeu market share”:
— Não vamos fazer isso agora.
Segundo a executiva, é preciso ver em qual patamar as cotações do barril de petróleo “vão parar”.
— Neste momento, vamos esperar para ver onde é que esse Brent vai parar, porque ele deu um spike e já voltou. Não tem limite. Temos que olhar para isso todos os dias, e essa conta é bastante complicada.
Magda minimiza possibilidade de restrições dos EUA
Os efeitos dos preços de combustíveis da Petrobras no mercado de diesel se tornaram ainda mais importantes diante da possibilidade de o governo Donald Trump restringir as exportações americanas do combustível.
Durante sua participação numa mesa-redonda na ROG.e nesta quinta-feira, Magda citou também restrições às exportações por parte da Rússia e da China. E reafirmou que a petroleira perseguirá a autossuficiência na produção do combustível, ampliando a produção nacional para dar conta de toda a demanda do mercado doméstico. A executiva já havia dado declarações nesse sentido nos últimos dias.
O Brasil importa em torno de 30% de todo o diesel que consome. Segundo Magda, a Petrobras produz o suficiente para cerca de 70% do consumo. O restante é importado, tanto pela estatal quanto por importadores privados, incluindo as distribuidoras de combustíveis.
Embora a ampliação da capacidade de refino seja uma solução de longo prazo, no curto prazo, a presidente da Petrobras minimizou as preocupações com o abastecimento de diesel.
Petrobras já garantiu outubro
Magda reafirmou a informação, passada na quarta-feira pela diretora-executiva de Logística, Comercialização e Mercados da companhia, Angélica Laureano, também na ROG.e, de que as importações de diesel da Petrobras para outubro já estão totalmente contratadas. E disse que não crê que o governo Trump irá de fato restringir as exportações.
— A Casa Branca hoje já desmentiu isso (a possibilidade de alguma medida para restringir exportações de diesel) — afirmou na saída da ROG.e. — A única coisa que sabemos é que, em tempos conturbados, tudo o que fizermos em prol da segurança energética do país é válido. Quando falávamos de diesel, de gasolina ou de parque de refino no Brasil, antes da guerra, era de um jeito. (Agora), a guerra exacerbou a preocupação com o abastecimento do país e, portanto, exacerbou o nosso ímpeto para entregar 100% (da demanda doméstica).
Segundo Magda, caso haja mesmo restrições às exportações dos EUA, a Petrobras poderia importar mais de refinadores da Índia. Segundo dados da Abicom, a associação que representa os importadores de combustíveis, em torno de 80% de todo o diesel importado pelo Brasil vêm dos EUA. Outros 15% têm vindo da Índia. Magda evitou precisar o valor, mas estimou que em torno de metade do diesel importado pela petroleira tem vindo dos EUA.