Em frente ao movimentado Terminal de Cruzeiros Nassau Bahamas, onde se pode ver até quatro ou cinco navios de passageiros atracados ao mesmo tempo, há um pedaço de paraíso tropical com quilômetros de praias de areia branca e água azul-turquesa. Antes pontilhada de mansões, a extensão de cerca de sete hectares no extremo oeste da Paradise Island, nas Bahamas, foi adquirida por um incorporador improvável: a linha de cruzeiros Royal Caribbean.
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Depois do sucesso da CocoCay, sua ilha particular nas Bahamas, a empresa está expandindo as ofertas em terra com um clube de praia programado para abrir em dezembro. O projeto de US$ 165 milhões terá três piscinas, o maior bar aquático do mundo e áreas de praia temáticas.
— Estamos criando o melhor dia de praia, com uma vibração autêntica, com as cores e os sabores de um clube de praia isolado nas Bahamas. Teremos arte da região, música e culinária de inspiração local equilibrada com confortos norte-americanos — comentou Jay Schneider, diretor de inovação de produtos da Royal Caribbean, durante uma visita ao canteiro de obras.
Muitas linhas de cruzeiros possuem ilhas privadas no Caribe, mas o conceito exclusivo de clube de praia faz parte de uma nova tendência em meio à demanda recorde por cruzeiros e ao lançamento aparentemente ininterrupto de meganavios. A Carnival também está construindo um clube de praia chamado Celebration Key, com inauguração prevista para julho na Ilha Grand Bahama. Já a Royal Caribbean está desenvolvendo dois destinos de praia no México que serão inaugurados em 2026 e 2027.
Nem todo mundo está entusiasmado com os portfólios imobiliários das linhas de cruzeiros. Alguns bahamenses dizem que estão fartos de ser expulsos de suas terras por investidores estrangeiros e que estão preocupados com o fato de que as novas atrações vão desviar os dólares do turismo das excursões organizadas por operadores locais.
— Os turistas vão passar do navio de cruzeiro para o clube privado e de volta para o navio sem gastar um centavo na verdadeira Nassau — afirmou Ray Jacobs, operador de mercado e capitão de barco.
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Para amenizar esse tipo de queixa, a Royal Caribbean se uniu ao governo das Bahamas em um projeto de clube de praia, parceria que dará aos bahamenses uma participação acionária de 49%. Outro 1% dos lucros brutos será destinado a melhorar as atrações turísticas locais, anunciou a empresa.
— Queremos conectar os moradores da região aos grandes projetos para garantir que os bahamenses tenham acesso a oportunidades de turismo — disse Latia Duncombe, diretora-geral do Ministério de Turismo, Investimentos e Aviação das Bahamas.
Entre essas oportunidades estão cerca de 400 empregos que serão preenchidos por bahamenses no clube de praia, divulgou a Royal Caribbean. As empresas locais receberão contratos lucrativos para alimentos, bebidas, excursões, segurança, entretenimento e outros serviços.
A linha de cruzeiros também declarou que seguirá seus princípios de sustentabilidade em toda a empresa, unindo-se a negócios bahamenses como programas de reciclagem, redução de resíduos e proteção ambiental.
Apesar do potencial para impulsionar o turismo, alguns bahamenses acham que o governo tem sido excessivamente complacente com os estrangeiros. Toby Smith, empreendedor local, solicitou o arrendamento de terras públicas na ponta oeste de Paradise Island, em 2012, para executar um projeto de clube de praia que oferecia a restauração do farol de Hog Island, em ruínas desde a década de 1980.
Em seguida a um longo processo, Smith finalmente recebeu aprovação em janeiro de 2020. Um mês depois, ouviu rumores de que a Royal Caribbean demonstrara interesse na mesma área e entrou em contato com o governo em busca de esclarecimentos, mas não obteve resposta. Em março de 2020, a maior parte das terras prometidas a Smith foi concedida à Royal Caribbean.
— Passei oito anos negociando e esperando o arrendamento da área para meu projeto de clube de praia sustentável, em dimensão e em cultura. Em seis semanas, eles apareceram e simplesmente levaram tudo. É uma vergonha — desabafou Smith.
Dionisio D’Aguilar, ministro do Turismo na época, reconheceu que Smith havia recebido autorização de arrendamento da terra antes que a Royal Caribbean solicitasse o mesmo lote.
“A Royal Caribbean apresentou uma proposta atraente para o povo das Bahamas, um acordo que abarca empreendedores em diversas áreas de serviço. O ambiente lá fora é hostil, e você precisa ter muito dinheiro”, disse D’Aguilar durante uma entrevista televisiva, em 2021, ao canal Eyewitness News Bahamas.
Smith iniciou uma batalha legal contra o governo. No ano passado, obteve o direito de levar seu caso ao Conselho Privado, em Londres, o mais alto tribunal das Bahamas, que é uma antiga colônia britânica.
Enquanto isso, a Royal Caribbean alterou seu contrato de arrendamento com o governo em abril de 2024, para não incluir os hectares sobrepostos que foram prometidos a Smith, e construiu um muro no canteiro de obras para separar os dois lotes.
Relaxe como o grupo privilegiado de um por cento
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Os passageiros de cruzeiros da Royal Caribbean, em sua maioria ávidos por novidades, estão animados com o clube de praia e não têm conhecimento das tensões locais que o projeto gerou.
— Com certeza, já fomos a Nassau mais de 20 vezes e fizemos todas as excursões oferecidas. Geralmente, ficamos no navio quando paramos lá. O clube de praia é uma ótima ideia, porque, quando você já fez todas as excursões, tudo que realmente quer fazer é se deitar na praia. Voltaremos para experimentar — disse Alan Rivera, de 47 anos, vendedor de carros de Tampa, na Flórida, que recentemente comemorou seu aniversário com a esposa a bordo do navio Utopia of the Seas.
Um dia antes, o Utopia of the Seas atracou na ilha particular da Royal Caribbean para seu “Dia Perfeito em CocoCay”. A experiência já dá uma ideia do que a nova oferta do clube de praia poderá ser. Quando a passarela chegou ao píer às 8h, uma enxurrada de hóspedes cruzou a ilha até as seções temáticas que, aparentemente, tinham ofertas para todos.
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Muitas atrações estão incluídas na tarifa: as praias imaculadas, a piscina de água doce e os restaurantes. Por uma taxa extra, há o Hideaway Beach somente para adultos; o Coco Beach Club, com cabanas sobre a água e mordomos particulares; e um parque aquático com o maior toboágua da região.
— As ilhas particulares geralmente são reservadas para 1% de privilegiados — comentou Priscilla McKenzie, de 33 anos, tomando uma margarita enquanto estava sentada nas águas cristalinas do Hideaway Beach.
Embora o CocoCay pareça uma extensão dos navios da Royal Caribbean, a empresa diz que o novo Paradise Beach Club terá um clima das Bahamas e se concentrará exclusivamente na experiência do clube de praia. A capacidade será limitada a 40% do volume do navio de cruzeiro, com ingressos oferecidos por ordem de chegada. O limite é a garantia de que excursões e atrações locais continuem trazendo passageiros, afirmou a linha de cruzeiros.
Schneider, da Royal Caribbean, informou que a empresa tomou por base duas métricas principais ao elaborar itinerários e investir em destinos:
— Alto apelo e alta satisfação.
A ilha grega de Santorini, por exemplo, tem um apelo muito alto, mas tem baixa satisfação por causa do turismo excessivo.
Mesmo que Nassau tenha uma taxa de satisfação e de apelo baixa entre os passageiros, o local ainda é estrategicamente um destino importante para a Royal Caribbean. Pesquisas recentes, feitas pela própria empresa, descobriram que Nassau perdera o apelo para os passageiros que já haviam experimentado os principais pontos turísticos e as atividades oferecidas; aqueles que deram classificações baixas de satisfação estavam procurando uma variedade maior de atividades.
— Com o clube de praia e com a receita que ele vai arrecadar para investimentos turísticos mais amplos em Nassau, acreditamos que desempenhará um papel significativo no aumento do apelo e da satisfação de nossos hóspedes — disse Schneider.
Mas muitos bahamenses comuns que trabalham no porto, no mercado local e em restaurantes não estão convencidos.
— A única chance que temos de vender passeios é quando os passageiros do cruzeiro saem do porto. Quando o clube de praia abrir, eles simplesmente vão pegar outro barco e seguir na direção oposta — observou Doug Nance, guia turístico independente e motorista.
Jacobs, o capitão do barco, visitou recentemente o canteiro de obras, passando perto com sua embarcação, e contou que ficou chocado ao ver que a terra fora arrasada e que as árvores tinham sido arrancadas. A Royal Caribbean informou que havia removido 75% das plantas consideradas espécies invasoras pelo governo e estava preservando 30% das árvores nativas durante a construção. Garantiu que todas essas plantas e árvores serão replantadas com novas espécies nativas.
Dirigindo pela costa, John McPhee, presidente da empresa de transporte Ride Bahamas, declarou que, apesar dos esforços do governo para se unir à Royal Caribbean, o fato de Smith não ter permissão para executar sua inspeção demonstra as falhas sistemáticas do modelo de turismo do país, que tende a atender ao investimento estrangeiro.
— Aprendi quando era garoto que sempre que um pedaço de terra se projeta para o oceano, isso cria uma perturbação nas correntes, onde peixes menores ficam presos, e os peixes maiores vêm e se alimentam deles. A Royal Caribbean tira vantagem disso.
Por outro lado, algumas pessoas estão otimistas. Derek Schofield, de 55 anos, que trabalha em logística para várias empresas de excursões, acredita que a criação de novos empregos é benéfica para o crescimento da indústria do turismo:
— Alguns de nós podem voltar para casa com menos dólares na carteira no fim do dia, mas, se olharmos para o quadro geral, esse projeto vai impulsionar a economia do turismo e abrir oportunidades para muitos, colocando mais comida na mesa das famílias bahamenses.
