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Nelson Rodrigues no GLOBO: leia duas crônicas do jornalista e dramaturgo

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julho 27, 2025
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Nelson Rodrigues no GLOBO: leia duas crônicas do jornalista e dramaturgo


‘AMIGOS, NUM DIA…’
1.Amigos, num dia inspirado, escrevi uma frase que ia sofrer todas as variações possíveis. Eis a frase: — “Só os profetas enxergam o óbvio.” A princípio, era uma frase engenhosa. Mas não imaginei, jamais, que corresse todo o território nacional.
2.Vocês entendem? No dia seguinte, eu saí de casa, bem cedo, tão cedo que esbarrei, quase tropecei no leiteiro. Vejam o sucesso fulminante de uma frase bem nascida. Assim que me viu, o homem ergueu o braço e declamou: — “Só os profetas enxergam o óbvio.” Recuei dois passos e avancei outro tanto. Perguntei: — “Onde é que você leu isso?” Ele puxou o recorte do bolso. — “Li na sua crônica, na sua coluna, ora, pois!” Estendi-lhe a mão, o leiteiro a dele, e assim nos despedimos. Isso foi há uns cinco anos (ou dez?). O fato é que, durante todo o dia da primeira audição (e era uma primeira audição), eu vivi às custas da frase. A alma encantadora das esquinas e dos botecos amou a frase.
3. E, por um momento, pensei que eu podia viver de uma frase se eu a tratasse com o necessário carinho. De um dia para outro tornei-me o poeta do óbvio. Impressionado, criei, em seguida o óbvio ululante. Repercussão instantânea.
4. Não quero me gabar, mas tenho comigo a ideia de que tudo o que fiz de original, de interessante, são as variações do óbvio. Mas diz a minha vizinha, gorda e patusca: — “A gente vive aprendendo.” Quanto a mim, aprendi mais esta: — apesar de minha frenética promoção, o óbvio, simples ou ululante, continua invisível.
5. As pessoas enxergam tudo, menos o óbvio. Vocês querem, sem dúvida, um exemplo concreto. Vamos lá. Exemplo nº 1: A nossa crônica esportiva. Vamos ressalvar alguns colegas que são os cegos do óbvio. Claro que nem todos os cronistas têm essa cegueira. Mas a maioria se comporta como os cretinos fundamentais. Ora, não há óbvio mais espetacular que este: — “O futebol europeu não chega aos pés do nosso.” É só fazer o retrospecto de ambos os esportes. Se resultado vale alguma coisa, a estatística mostra e demonstra o nosso futebol como o maior do mundo. Por exemplo: — nunca houve na Terra um futebol como o brasileiro. Somos tricampeões do mundo e não basta? Devia bastar. Mas há os que soluçam: — “Não somos mais os melhores, não somos mais os reis.” Eis aí, como diria Vitor Hugo: — um soluço imortal. Dirão vocês que Vitor Hugo não é infalível. Mas se ele não é infalível, o óbvio o é. E, além disso, os poetas existem para isso mesmo, ou seja: para descobrir um soluço eterno. Se o óbvio está certo, há soluços piores.
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‘AMIGOS, QUALQUER MULTIDÃO…’
1.Amigos, qualquer multidão é triste. Juntem 150 mil pessoas no Maracanã e vejam como imediatamente o estádio começa a exalar tristeza e depressão. Assim foi ontem. Primeiro de maio. Dia do Trabalho, seis portões abertos para todo mundo. Aquilo foi tomado de assalto. E quando soou o apito inicial, tinha gente até no lustre.
2. Mas o que eu queria dizer é que, como qualquer multidão, aquela massa estava triste, fúnebre, inconsolável. E só mesmo o meu personagem da semana, Mané Garrincha, conseguiu arrancar do Maracanã entupido uma gargalhada generosa total. Vocês se lembram de Charlie Chaplin, em “Luzes da Ribalta”, fazendo o número das pulgas amestradas? Pois bem. Mané deu-nos um alto momento chapliniano. E o efeito foi uma bomba.
3. Na primeira bola que recebeu, já o povo começou a rir. Aí é que está o milagre: o povo ria antes da jogada, da graça, da pirueta. Ria adivinhando que Garrincha ia fazer sua grande ária, como na ópera. Como se sabe, só o jogador medíocre faz futebol de primeira. O craque, o virtuose, o estilista, prende a bola. Sim, ele cultiva a bola como uma orquídea de luxo.
4. Foi uma das jogadas mais histriônicas de toda a vida de Mané. Primeiro, pulou por cima da bola. Fez que ia, mas não foi. Pula pra lá, pra cá, com a delirante agilidade de 50. Lá estava a bola, imóvel, impassível, submissa ao gênio. E Garrincha só faltou plantar bananeiras. Três ou quatro gaúchos batiam uns nos outros, tropeçavam nas próprias pernas.
5. O importante, porém, é que a multidão, neurótica como toda multidão, ria, finalmente ria. E o som de 150 mil gargalhadas saiu do Maracanã e rolou por toda a cidade. Era mais uma ressurreição do Mané. Digo “ressurreição” porque o meu personagem da semana já teve vários atestados de óbito. Sabemos que ele está jogando no Corinthians e fazendo “gols” fantásticos. Não contente de fazer os próprios, tem sido, com seus passes magistralíssimos, o coautor de não sei quantos “gols” alheios.
6. Pois bem. Mas há, na crônica, quem o trate como um defunto do futebol. Chega a ser patusca a insistência com que vários colegas anunciam a morte do Garrincha de 58 e de 62. E Mané tem quer ser exumado. Só o povo é que, na sua imaculada boa-fé, não acredita no fim do ídolo. Sempre que ele recebia a bola, a multidão caía em estado de graça plena.
7. E vamos e venhamos: para um defunto, o Mané parecia ontem salubérrimo. Cabe então a pergunta: por que certos confrades teimam em não enxergar o óbvio ululante? Há várias explicações. Em primeiro lugar, os colegas alvinegros ressentidos contra o abominável ex-botafoguense. E há também a falta de bondade. Amigos, eu sempre digo que, sem um mínimo de ternura, não se chupa nem Chicabon. Os que negam Garrincha têm uma aridez de três desertos.
8. Mas o que importa, para nós, para o “scratch”, para o Brasil, é que Mané voltou a ser ele mesmo. Ainda ontem nós verificamos, mais uma vez, como é importante, como é decisiva a sua presença. Antes de mais nada, o adversário dá-lhe uma cobertura histérica de três e até quatro marcadores. Imaginem lá fora. Imaginem na Inglaterra. Sempre que ele receber a bola, Lord Nelson há de tremer na tumba e a “Divina Dama” há de chorar lágrimas de esguicho.
17 de agosto de 1977
Este conteúdo faz parte do especial em comemoração pelo centenário do jornal. Acesse a página O GLOBO 100 anos para ver mais reportagens.

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