A decisão do governo de proibir as bets no Brasil foi o acontecimento político de maior repercussão nas redes sociais nos últimos 12 meses, segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque. O anúncio da medida provisória gerou 1,33 milhão de menções nas primeiras 24 horas, superando episódios como a condenação de Jair Bolsonaro, o caso “Dark horse”, a disputa entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes e a discussão envolvendo Nossa Senhora. No intervalo de 25 a 28 de setembro, foram 2,5 milhões de posts e 40 milhões de interações sobre o tema nas redes.
A repercussão também se destacou pela duração. Nas primeiras horas após o anúncio, o assunto chegou a 85,8 mil publicações por hora. O volume voltou a subir no sábado, quando alcançou 75,4 mil posts por hora ao meio-dia, e registrou uma terceira onda no domingo, com 47,3 mil publicações por hora perto das 11h. Segundo o relatório, a persistência da discussão por três dias indica que a repercussão não ficou restrita ao anúncio da medida.
A disputa nas redes foi marcada por uma divisão entre os argumentos favoráveis e contrários à proibição. Entre as publicações com posicionamento definido, as narrativas contrárias somaram 4.507 posts, ou 57% do total, contra 3.389 favoráveis. Quando considerado o engajamento, porém, o resultado se inverteu: os conteúdos favoráveis reuniram 8,8 milhões de interações, contra 8,2 milhões dos contrários.
Presidente Lula e ministros anunciam o fim das bets no Brasil
Edilson Dantas / O Globo
Entre os argumentos favoráveis, o principal eixo foi a proteção das famílias diante do endividamento e da dependência provocados pelas apostas. Essa narrativa teve 1.912 posts e 6,23 milhões de interações. Outro eixo, de “vitória política e apoio ao governo”, alcançou 6,15 milhões de interações em 2.825 publicações. A crítica aos influenciadores e à publicidade das bets, embora tenha produzido apenas 504 posts, chegou a 4,78 milhões de interações.
A oposição, por sua vez, concentrou sua reação na acusação de oportunismo eleitoral. A narrativa de “eleitoralismo, hipocrisia e responsabilidade do governo” reuniu 3.076 posts e 5,87 milhões de interações. Outro eixo, relacionado a perdas econômicas, fiscais e insegurança jurídica, teve 1.873 publicações e 3,28 milhões de interações. A discussão recuperou ainda a trajetória das bets desde 2018 e as votações de 2023 para questionar a mudança de posição do governo.
O chamado “Tigrinho” se tornou um dos principais símbolos da disputa. A narrativa que associava o governo ao crescimento dos cassinos on-line e classificava a decisão como uma manobra eleitoral representou 34% das publicações analisadas, com 74% delas produzidas pela extrema-direita. O levantamento também registra que Flávio Bolsonaro passou a defender uma alternativa à proibição integral: a manutenção das apostas esportivas e o veto aos cassinos on-line e ao Tigrinho. Essa proposta representou 11% das publicações do recorte qualitativo e gerou 1,07 milhão de interações.
A discussão extrapolou o debate sobre a decisão do governo. Um dos eixos tratou dos possíveis efeitos da medida sobre o futebol e os patrocínios de clubes. Foram 962 posts e 2,75 milhões de interações nesse tema. Outro conjunto de publicações, sobre prazos para saque, regras e punições, representou apenas 7% dos posts, mas concentrou 24% das interações.
O alcance também foi impulsionado por públicos que normalmente não estão no centro da discussão política. Páginas de fofoca e entretenimento produziram 5% da amostra, mas foram responsáveis por 16% das interações, com média de 13.510 interações por publicação. Conteúdos de humor também ajudaram a popularizar o assunto, com participações de nomes como Porta dos Fundos, Antonio Tabet e Janja.
As plataformas tiveram comportamentos diferentes. O Twitter concentrou 84% das publicações, mas apenas 19% das interações. Já o Instagram respondeu por 12% dos posts e 77% das interações. O relatório aponta que a primeira rede funcionou mais como espaço de produção e conversação, enquanto a segunda concentrou conteúdos com maior capacidade de gerar respostas e compartilhamentos.
Entre os perfis individuais, Lula foi o maior publicador, com 15 posts e 2,8 milhões de interações. Nikolas Ferreira chegou a 1,1 milhão de interações com apenas duas publicações, enquanto Thiago Asmar alcançou 1,2 milhão com oito. Na divisão por partidos, perfis ligados ao PT concentraram 59,5% das interações entre as 953 publicações com partido identificado, contra 24,9% do PL e 5,7% do PSOL.
A imprensa teve uma dinâmica distinta. Embora tenha produzido 17% das publicações analisadas — contra 47% da extrema-direita e 36% da esquerda —, concentrou 49% das interações. A cobertura se concentrou principalmente no anúncio de Lula, na contraproposta apresentada por Flávio Bolsonaro e nas regras de implementação da medida.
O levantamento aponta, assim, que a repercussão das bets reuniu simultaneamente quatro disputas: a defesa da proteção social contra endividamento e dependência, a acusação de cálculo eleitoral, o debate sobre qual modelo regulatório adotar e a discussão sobre os efeitos da medida para o futebol e seus patrocínios. Essa combinação ajudou a transformar a proibição das apostas em um fenômeno que ultrapassou o debate político tradicional e alcançou públicos de entretenimento e fofoca.
Nem 'Dark horse', nem crise no STF: proibição das bets foi o acontecimento político de maior repercussão no ano
