A França viveu, nesta terça-feira, uma série de protestos, com greves de funcionários públicos e confrontos entre estudantes e policiais, dois dias antes da apresentação do orçamento e a poucos meses das eleições presidenciais, nas quais a extrema direita parte à frente nas pesquisas. Cerca de 30 mil manifestantes foram às ruas de Paris, segundo a prefeitura, em uma jornada que contou com mais de 170 manifestações convocadas para reivindicar reajustes salariais para funcionários públicos, corroídos pela inflação, e “recursos orçamentários à altura” das necessidades da administração pública.
Contexto: Extrema direita tem recorde de eleitos no Senado da França, e partido quadruplica bancada
Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp
Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países
Segundo o sindicato CGT, mais de 300 mil pessoas participaram das manifestações em todo o país, sendo 70 mil em Paris.
Estudantes realizam um protesto com bloqueio na escola de ensino médio Lycée Lamartine durante um dia de greves e manifestações do setor público em todo o país, em Paris, em 29 de setembro de 2026
KENZO TRIBOUILLARD / AFP
“Mesmo com 40 °C, nossos salários continuam congelados”, dizia uma faixa na manifestação em Lyon, após um verão de calor intenso que colocou à prova os bombeiros e o sistema de saúde.
Initial plugin text
— Estamos nos manifestando hoje porque precisamos ser recebidos pelo ministro — diz Nicolas March, bombeiro de 52 anos que chegou ao protesto com colegas na Praça da Bastilha, em Paris, sob aplausos dos demais manifestantes.
A lista de reivindicações dos funcionários públicos inclui a perda do poder de compra, número insuficiente de servidores, deterioração das condições de trabalho e, em alguns casos, precarização diante dos cortes orçamentários.
Veja também: Em despedida da França, Papa Leão XIV alerta contra ‘ilusão do rearmamento’ em apelo pela paz na Europa
Com a dívida pública em níveis recordes, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou em meados do mês que planejava um ajuste fiscal de € 54 bilhões (cerca de R$ 320 bilhões, na cotação atual) no próximo orçamento.
Estudantes se reúnem ao redor de lixeiras empilhadas na entrada, realizando um protesto com bloqueio na escola de ensino médio Gabriel Guist’hau, durante um dia de greves e manifestações do setor público em todo o país, em Nantes, no oeste da França, em 29 de setembro de 2026
LOIC VENANCE / AFP
Enquanto isso, movimentos de estudantes do ensino médio, que protestam desde a semana passada exigindo melhores condições gerais para o setor educacional, protagonizaram uma jornada de confrontos violentos. Grupos de adolescentes atearam fogo a contêineres de lixo e lançaram objetos contra a polícia, que respondeu com cassetetes e gás lacrimogêneo.
Presidente francês: Macron diz que teve reunião ‘muito construtiva’ com Trump sobre Ucrânia e Mar Vermelho
Os distúrbios deixaram 40 pessoas detidas e 10 feridos entre estudantes e funcionários.
‘Estamos fartos!’
Mathilde Bourgain, professora de física de 47 anos em um liceu de Paris, participou da manifestação na capital com um coletivo de professores e pais de alunos, carregando uma faixa com os dizeres “Estamos fartos!”.
— Estamos fartos. Todos temos que lidar com o fechamento de turmas e temos a impressão de que o setor público é mais afetado do que o privado — afirma à AFP.
Entenda: Papa Leão alerta contra criação de ‘paraíso das máquinas’ pela IA em sua primeira visita à França
Em sua escola, como em muitas outras no país, turmas do primeiro ano do ensino médio foram eliminadas, enquanto professores são obrigados a trabalhar em várias instituições.
— Não recebemos formação e nos pedem para sermos, às vezes, psicólogos; às vezes, assistentes sociais; às vezes, mães — reclama Nadia M’Dahoma, de 45 anos, acompanhante de alunos com deficiência. Segundo ela, o salário é de cerca de € 1 mil (R$ 5.924) por mês por 24 horas semanais.
Policiais franceses com equipamento de choque mantêm a formação em meio a uma nuvem de gás lacrimogêneo, enquanto estudantes realizam um protesto com bloqueio na escola de ensino médio Cesar Baggio, durante um dia de greves e manifestações do setor público em todo o país, em Lille, em 29 de setembro de 2026
SAMEER AL-DOUMY / AFP
Os estudantes se mobilizaram contra aulas e horários sobrecarregados e a ausência de professores, em protestos que, em alguns lugares, acabaram em atos de vandalismo.
— Também estamos aqui para apoiar nossos professores, que têm uma quantidade absurda de trabalho em comparação com o que ganham — ressalta um aluno de 17 anos de uma escola de Paris, que pediu anonimato.
Ameaça russa na Europa: Presidente da França ordena plano para proteger infraestruturas críticas francesas de ‘ataques híbridos russos’
Os estudantes mantinham bloqueios e protestos em centenas de liceus em todo o país. Entre as reivindicações estão a organização dos horários, o tamanho das turmas e a falta de professores, além de salas de aula superaquecidas durante as recentes ondas de calor.
Segundo o Ministério da Educação, 338 instituições foram afetadas por protestos ou interrupções desde o início do dia, sendo 40 bloqueadas e outras 44 alvo de tentativas de bloqueio.
Alta tensão social
Desde 2017, o índice salarial dos funcionários públicos subiu apenas duas vezes: em 2022 (3,5%) e em 2023 (1,5%), acumulando uma valorização pouco superior a 5%.
Enquanto isso, a inflação acumulada desde 2017 terá chegado a 24,17% ao fim de 2026, segundo o instituto oficial de estatísticas Insee.
O congelamento do índice representa “uma redução salarial para milhões de funcionários públicos”, afirmou a líder do sindicato CGT, Sophie Binet, nesta terça-feira à BFMTV/RMC.
Leia mais: Rússia critica iniciativa francesa de dissuasão nuclear e denuncia que ela cria ‘riscos’ para Moscou
O ambiente social está tenso às vésperas das eleições presidenciais. A segunda maior economia da União Europeia irá às urnas em abril e maio de 2027, após quase dez anos de governo do centrista Emmanuel Macron.
A líder da extrema direita Marine Le Pen aparece à frente nas pesquisas mais recentes de intenção de voto. Seu principal adversário no segundo turno seria o ex-primeiro-ministro de centro-direita Édouard Philippe, caso o centrista Gabriel Attal retire sua candidatura.
Caso contrário, Le Pen disputaria o segundo turno com o líder da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon.
Tensão aumenta na França com greve de servidores e protestos de estudantes às vésperas de apresentação do novo orçamento
