O Parlamento da Nicarágua aprovou neste sábado uma proposta de reforma constitucional que visa rejeitar resoluções internacionais ou leis estrangeiras, e que será votada em setembro juntamente com outra iniciativa para excluir a oposição das eleições. A medida, aprovada em uma sessão especial da Assembleia Nacional, será incluída no texto, que gerou repúdio na comunidade internacional.
Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países
Quer mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp
A Organização de Estados Americanos (OEA) aprovou na quarta-feira uma resolução impulsionada pelos Estados Unidos para convocar uma reunião “urgente” de chanceleres, a fim de debater ações frente ao plano do governo da Nicarágua de eliminar eleições competitivas.
Initial plugin text
Contudo, o Congresso nicaraguense, controlado pelos copresidentes Daniel Ortega e Rosario Murillo — esposa do ex-revolucionário —, aprovou neste sábado a inclusão de um parágrafo na proposta original, que diz que a Nicarágua “proíbe, portanto não permite, extraterritorialidade das leis estrangeiras”, segundo o texto lido pelo presidente do Parlamento, Gustavo Porras.
— Nenhuma lei, regulamento ou normativa emitido por outro Estado, grupo de Estados ou organismo internacional que menospreze e atente contra a independência, a soberania (…), a paz do povo e a nação nicaraguense terá efeitos jurídicos no território nacional — acrescentou.
O texto esclarece que “apenas” terão aplicação os convênios assinados em nome do Estado nicaraguense.
— As leis são nicaraguenses para os nicaraguenses, e se não há lei, não há lei de fora que venha entorpecer e ter efeito na Nicarágua — sentenciou Porras antes da votação.
A imprensa no exílio considerou que a decisão de acrescentar este artigo à reforma visa “não acatar possíveis resoluções” da OEA e dos EUA. Nos últimos anos, a organização continental promoveu dezenas de sessões sobre a Nicarágua, que terminaram apenas em comunicados de condenação. Uma reunião de chanceleres poderia, porém, promover rupturas ou degradação de laços diplomáticos ou pressão econômica.
Após a votação, Murillo atacou os opositores, chamando-os de “mercenários”, “traidores” e “covardes”. Sem mencionar a OEA, criticou a “falta de legitimidade”.
Vários países e organismos internacionais rejeitam a intenção de Ortega de excluir das eleições os opositores, classificados pelo presidente como “golpistas” e “traidores da Pátria”.
Ortega, ex-guerrilheiro esquerdista de 80 anos, e sua esposa, cinco anos mais nova, governam com poder absoluto e um forte controle sobre a sociedade nicaraguense, após os protestos de 2018, cuja repressão deixou cerca de 300 mortos, segundo a ONU, além de centenas de milhares de exilados.

