Roberto Samcam Ruiz levou as medidas de segurança a sério. Major aposentado do Exército da Nicarágua, Samcam fugiu para a vizinha Costa Rica depois que se manifestou contra o governo sandinista e seu nome começou a aparecer em cartazes de procurados.
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Em San José, capital da Costa Rica, ele trocava de camisa para despistar possíveis seguidores. Andava de Uber — nunca de ônibus — e alertava constantemente outros ativistas antigovernamentais nicaraguenses que viviam na Costa Rica para que tomassem cuidado.
— Em certo momento, ele ficou totalmente paranoico — disse Claudia Vargas, sua esposa há 25 anos. Mas as precauções de Samcam não foram suficientes.
Em 19 de junho, dois assassinos que o vigiavam há semanas invadiram seu condomínio em San José e atiraram oito vezes contra ele dentro de sua casa. Esta foi, pelo menos, a sexta vez que um dissidente nicaraguense tenha sido baleado, sequestrado ou morto na Costa Rica desde que centenas fugiram do país após os tensos protestos de 2018.
Ativistas, defensores dos direitos humanos e dezenas de ex -presidentes latino-americanos disseram que o assassinato de Samcam sugere fortemente que o governo da Nicarágua está conduzindo sofisticadas operações de inteligência em solo estrangeiro contra seus inimigos. Não houve prisões, até o momento.
O assassinato tem o potencial de interromper as relações diplomáticas entre dois países vizinhos e amigos da América Central, que dependem um do outro para o comércio. Mas o presidente da Costa Rica, Rodrigo Chaves Robles, aparentemente não está disposto a antagonizar um importante parceiro comercial.
O Ministério da Segurança da Costa Rica encaminhou as perguntas sobre o assassinato ao gabinete do presidente. O porta-voz da Presidência, porém, devolveu as perguntas ao ministério.
Com o presidente Donald Trump encerrando o programa de refugiados que reassentou os nicaraguenses nos Estados Unidos, buscar asilo nos país não é mais uma opção.
Então, os milhares de nicaraguenses que vivem na Costa Rica e que foram forçados a deixar sua terra natal estão vivendo com medo e se perguntando se precisam fazer as malas e fugir pela segunda vez.
— Viemos para cá fugindo de uma ditadura e não podemos estar seguros no país que nos acolheu — disse Wilberto Miranda Aburto, um jornalista nicaraguense. — Não estamos seguros na Costa Rica.
A morte de Samcam colocou os holofotes sobre os presidente da Nicarágua, Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo. Após a posse de Ortega em 2007, o casal manipulou eleições, tribunais e o legislativo para consolidar seu domínio sobre o país.
À medida que os protestos cresciam, eles acusaram os oponentes de planejar um golpe, os prenderam, os forçaram ao exílio, confiscaram suas propriedades e tiraram sua cidadania nicaraguense. Especialistas das Nações Unidas, inclusive, compararam-nos aos nazis.
Roberto Samcam Ruiz tinha 66 anos e era membro do partido sandinista, mas rompeu com a sigla após se aposentar das Forças Armadas, tornando-se blogueiro, analista político e apresentador de rádio.
Ele tentou, sem sucesso, concorrer a um cargo em Jinotepe, cidade no departamento de Carazo, a cerca de uma hora ao sul de Manágua, capital da Nicarágua, mas as eleições foram amplamente denunciadas como fraudulentas.
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Em 2018, ele foi uma das centenas de milhares de pessoas que participaram de uma enorme revolta contra o governo Ortega-Murillo. Esses protestos foram intensos em Carazo, onde o ativista morava. À época, os manifestantes bloquearam estradas e paralisaram a economia e o transporte público.
O governo nicaraguense, por sua vez, acusou Samcam e outros de usar morteiros para tentar uma revolução política. Policiais, inclusive, revelaram que ficaram cercados, presos na delegacia e impossibilitados de sair por dias. Segundo o governo, um policial foi morto.
O governo da Nicaraguá acabou reprimindo os protestos à força, matando mais de 300 pessoas. Quase 250 mil nicaraguenses fugiram e buscaram proteção como refugiados na Costa Rica, segundo Juan Carlos Arce, advogado nicaraguense de direitos humanos.
Agora, a esposa de Samcam se vê repensando todas as medidas de segurança que seu marido insistiu.
— Estou passando por todas essas fases, que sei que são normais, de me perguntar: “Quando Roberto perguntou sobre segurança, eu deveria ter prestado mais atenção?” — disse ela. — Esse foi um motivo político para silenciar a voz de Roberto por ser muito poderosa, muito potente.
Samcam, de fato, se tornou uma voz crítica após os protestos de 2018, usando seu conhecimento de material militar para mostrar que as forças armadas — não a polícia — conduziram a repressão.
Especialistas dizem que os Ortegas ficaram furiosos com Samcam e outros ex-sandinistas, que consideravam traidores por romperem com seus partidos. E ficaram especialmente furiosos com aqueles que ajudaram a organizar os bloqueios de Carazo.
‘Perseguição transnacional’
— Eles nos colocaram em uma lista onde nos catalogaram como objetivos militares — disse João Maldonado, de 35 anos, também ex-sandinista de Carazo. Homens armados caçaram Maldonado por duas vezes na Costa Rica.
Com a voz ainda um pouco alterada por causa da bala que atingiu seu maxilar, Maldonado contou como, na primeira vez, em 2021, estava dirigindo quando foi baleado no abdômen, duas vezes no pulso esquerdo, uma na clavícula direita e uma vez perto do coração. Enquanto as balas voavam, ele disse que pediu a Deus que perdoasse seus pecados e disse a si mesmo: “Jesus Cristo, eu te aceito como meu Senhor e salvador”. Ele sobreviveu.
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Maldonado disse que solicitou o status de refugiado por meio de um programa do Departamento de Estado dos EUA, que Trump eliminou posteriormente. Mesmo sob o governo Biden, a análise levou dois anos. Após ser aceito em 2023, ele foi alvo de homens armados novamente, 10 dias antes de sua partida do país. Ele foi baleado oito vezes, incluindo um no rosto. Sua namorada foi atingida na coluna e ficou paralisada.
— Os fatos falam por si — afirmou Maldonado, que já deixou a Costa Rica. — É uma realidade: trata-se de perseguição transnacional.
Em 2022, outro ativista nicaraguense foi sequestrado na Costa Rica e depois encontrado morto em Honduras. Jimmy Guevara, um jornalista nicaraguense que agora vive na Espanha, disse que recebeu tantas ameaças de morte enquanto morava na Costa Rica que teve que se mudar oito vezes em quatro anos.
Aumento na violência na Costa Rica
Apesar da série de ataques, o presidente da Costa Rica negou que agentes nicaraguenses estivessem trabalhando em seu país.
— Não há evidências de que haja qualquer célula organizada na Costa Rica controlada pelo governo nicaraguense — afirmou Chaves em uma declaração no ano passado, após o segundo atentado contra Maldonado.
A Costa Rica está vivenciando um aumento na violência relacionada às drogas, marcada por uma proliferação repentina de assassinos de aluguel de baixo custo. Mas para os refugiados nicaraguenses e outros ativistas, não há mistério por trás do assassinato de Samcam.
— Não tenho dúvidas de que este foi um ato de terrorismo de Estado — disse Almudena Bernabeu , advogada de direitos humanos internacional que representa a esposa do ativista. Ortega e Murillo, segundo Bernabeu, “estão embriagados de poder e fazendo o que for preciso para permanecer no poder”.
A advogada é fundadora da Guernica 37, um escritório sem fins lucrativos de advogados internacionais conhecido por processar violações de direitos humanos na América Latina, incluindo o genocídio cometido na Guatemala contra o povo maia e o massacre de seis padres jesuítas por comandantes militares salvadorenhos.
A lei costarriquenha permite que Bernabeu participe da investigação do assassinato dw Samcam como promotora particular. Embora alguns dos dissidentes de maior destaque na Costa Rica tenham proteção policial, eles não esperam que isso se torne permanente.
Dissidentes dizem que querem um pronunciamento público do presidente da Costa Rica denunciando o que eles dizem parecer ser o papel da Nicarágua nos ataques em seu país.
— Eles precisam fazer declarações firmes, não apenas em relação a este incidente recente, mas também em relação ao seu repúdio a quaisquer ações de forças estrangeiras em seu território — disse Ana Quiroz, de 68 anos, que foi expulsa da Nicarágua em 2018.
Em uma declaração em vídeo, Randall Zúñiga, diretor da agência de investigação da Costa Rica, disse que os suspeitos de um dos tiroteios de Maldonado foram identificados e que tanto o caso dele quanto o do Samcam estavam sob investigação.
— Esperamos ter alguns resultados em breve — disse Zúñiga.
O jornalista Carlos Fernando Chamorro — cuja mãe, Violeta Barrios de Chamorro, ex-presidente da Nicarágua, morreu poucos dias antes do assassinato de Samcam — disse que a Costa Rica tem um longo histórico de oferecer refúgio a pessoas perseguidas politicamente da Nicarágua. O jornalista morou lá quando criança, quando sua família teve que fugir da ditadura de Somoza, então, quando sua vida estava em risco, ele nunca imaginou ir para outro lugar.
—Confiamos que este é um país de paz, democracia e instituições democráticas — disse ele.
Questionado se sentia medo, ele citou uma frase que seu pai, o editor de jornal Pedro Joaquín Chamorro, costumava citar: “Cada pessoa é dona do seu próprio medo”.