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No ano da COP30, escolas do Rio viram laboratórios de pesquisa sobre desafios ambientais

BRCOM by BRCOM
novembro 29, 2025
in News
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Aula na praia. Ricardo Gomes, presidente do Instituto Mar Urbano, mostra a mandíbula de um tubarão para alunos do Colégio Notre Dame — Foto: Divulgação/Daniel Villela

Em um ano marcado pela realização da COP30, que colocou na pauta a preservação das florestas tropicais, a proteção dos oceanos e a valorização da biodiversidade, tais temas ganharam mais destaque ainda nas salas de aulas. A proposta é aproximar os estudantes dos desafios ambientais contemporâneos e incentivá-los a refletir sobre seu papel na construção de um futuro mais sustentável.

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Algumas instituições transformaram praias e ecossistemas marinhos em extensões da sala de aula. Aulas ao ar livre permitem que crianças e adolescentes observem a vida marinha, participem de coleta de resíduos e aprendam sobre pesca artesanal e preservação de espécies, conectando conceitos estudados em sala às realidades do oceano e da comunidade local.

— Antes eu achava que o oceano era só a praia que a gente ia mesmo. Agora eu entendo que ele é muito importante para a gente. Aprendi que temos que jogar nosso lixo no lugar certo. Quando vejo plástico na praia, eu recolho, mesmo que não seja meu. E se tem alguém perto, eu explico — conta Helena Fernandes dos Santos de Noronha, aluna do 2º ano do ensino fundamental do Colégio Notre Dame, em Ipanema.

Aula na praia. Ricardo Gomes, presidente do Instituto Mar Urbano, mostra a mandíbula de um tubarão para alunos do Colégio Notre Dame — Foto: Divulgação/Daniel Villela

O Instituto Mar Urbano (IMU) coordena atividades nesse sentido em duas escolas da Zona Sul: o Notre Dame, na rede particular; e Escola Municipal Maria Leopoldina, na Glória. Desde 2021, o projeto oferece experiências práticas como soltura de animais marinhos na Lagoa Rodrigo de Freitas, visitas a ecossistemas de restinga e oficinas de construção de pranchas de stand up paddle a partir de garrafas PET. A interação com pescadores locais aproxima ainda mais os alunos da realidade de quem vive do mar, reforçando a compreensão sobre sustentabilidade e cultura local.

— Quando um aluno conversa com um pescador, aprende sobre uma espécie nova de animal marinho ou vê a enorme quantidade de plástico que retiramos da praia em poucos minutos, algo muda na visão dele. Essas experiências conectam essas crianças emocionalmente com o mar e criam uma consciência ambiental que vai além dos muros da escola. Eles acabam se tornando multiplicadores e agentes de transformação por onde passam — afirma Ricardo Gomes, presidente do IMU.

O projeto se conecta a iniciativas globais, como a Década do Oceano da ONU (2021-2030), que incentiva escolas a incluir o tema oceano no currículo. O conceito Escola Azul, criado em Portugal, reconhece instituições que desenvolvem projetos concretos de educação ambiental e oceanográfica, ligando os alunos ao ambiente marinho e incentivando ações de preservação. No Brasil, 388 escolas distribuídas em 24 estados já têm o selo, e na cidade do Rio apenas quatro instituições contam com o reconhecimento: Escola Eliezer Steinberg Max Nordau, em Laranjeiras; Notre Dame, em Ipanema; Pedrinho II, no Recreio (Zona Sudoeste); e Escola Municipal Sobral Pinto, na Praça Seca (Zona Oeste). A Maria Leopoldina, que iniciou suas atividades este ano, se prepara para solicitar o selo em 2026.

Para educadores, o impacto vai além do conteúdo acadêmico: a experiência contribui para a formação de cidadãos conscientes e engajados na proteção do meio ambiente, mostrando que a educação pode ser prática, transformadora e conectada com a realidade do planeta.

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  • Troca com alunos de outros estados
  • Pesquisas científicas e atividades de campo
  • Mudas cultivadas por alunos
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Troca com alunos de outros estados

Caixas da Natureza. Alunos do Andrews recebem trabalhos de outros estados do país — Foto: Divulgação/Matheus Lobo
Caixas da Natureza. Alunos do Andrews recebem trabalhos de outros estados do país — Foto: Divulgação/Matheus Lobo

No Colégio Andrews, no Humaitá, a aprendizagem ganha forma lúdica com a participação no projeto nacional Caixas da Natureza, que convida crianças de todo o país a explorar o meio ambiente ao seu redor por meio do brincar. Cada grupo cria uma caixa com registros, objetos naturais e produções artísticas que refletem suas descobertas sobre o bioma onde vivem. Essas caixas são, então, enviadas a outras escolas, promovendo trocas culturais e ambientais entre diferentes regiões do país.

A iniciativa se concretiza em atividades desenvolvidas pelas próprias crianças, como jogos da memória com folhas, tabuleiros de identificação de formas com pedras e brincadeiras de pega-graveto. A coordenadora da educação infantil, Iris Lacava, destaca que a experiência fortalece o vínculo das crianças com a natureza:

— Aprender é se relacionar com. A brincadeira com a caixa aguça tanto o olhar de criatividade quanto a experiência sensorial e afetiva e o encanto com a simplicidade.

Além disso, as saídas pedagógicas para coleta de folhas, gravetos e outros elementos naturais incentivam a reflexão sobre cuidados ambientais e o impacto do lixo na natureza. Participando do projeto, crianças de 3 a 5 anos desenvolvem sensibilidade, curiosidade e senso de pertencimento ao território onde vivem, em uma abordagem inspirada na filosofia Reggio Emilia, que valoriza a aprendizagem por meio da experiência e da interação com o meio.

Eleva.Escola aposta em conselho formado por alunos que promovem limpeza nas praias — Foto: Divulgação
Eleva.Escola aposta em conselho formado por alunos que promovem limpeza nas praias — Foto: Divulgação

Na Creche Escola Global Tree, em Botafogo, a educação ambiental começa na primeira infância. As crianças de 3 a 6 anos exploram frutas e sementes nativas em atividades sensoriais que apresentam os povos originários como guardiões da floresta. Elas também vivenciam conceitos de biomimética, observando folhas e asas de borboletas para criar composições artísticas inspiradas na natureza.

No Eleva Urca, o Green Council reúne alunos em projetos de sustentabilidade dentro da escola e na comunidade. Um dos destaques é a campanha Beach Clean Up, em que os estudantes realizam mutirões de limpeza nas praias, recolhendo resíduos e aprendendo sobre microplásticos, consumo consciente e preservação dos ecossistemas costeiros. O grupo também promove debates, oficinas e parcerias com ONGs, fortalecendo o protagonismo juvenil e a responsabilidade socioambiental.

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Pesquisas científicas e atividades de campo

Duas escolas de Botafogo têm incorporado a pauta ambiental ao currículo de maneiras distintas, mas todas alinhadas aos debates que tiveram destaque na recém-terminada COP30. Na Sá Pereira, o tema aparece em projetos interdisciplinares e saídas de campo. No 6º ano, os alunos participaram de uma imersão sensorial na Floresta da Tijuca para compreender como a ocupação humana transformou o território, da presença dos povos originários ao reflorestamento promovido por Dom Pedro II. No 7º ano, o foco foi o Antropoceno, com análise de dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e discussões sobre justiça climática. No ensino médio, a eletiva Memória das Águas reuniu ciência, arte e política para debater os múltiplos significados da água na vida cotidiana e nos conflitos ambientais.

Cubo Global. Aluna apresenta projeto sobre o branqueamento de corais — Foto: Divulgação
Cubo Global. Aluna apresenta projeto sobre o branqueamento de corais — Foto: Divulgação

No Cubo Global School, os alunos do ensino médio desenvolveram projetos com foco nos ecossistemas marinhos, que abordam desde o impacto das mudanças climáticas nos recifes de corais até a importância dos fitoplânctons na produção de oxigênio, unindo ciência, pesquisa e protagonismo juvenil.

Mudas cultivadas por alunos

No Colégio Santo Inácio, em Botafogo, a Oficina de Sustentabilidade integra teoria e prática para despertar nos alunos responsabilidade socioambiental. Na Estação Ambiental da escola, estudantes da 1ª série do ensino médio aprendem sobre efeito estufa, pegada de carbono e manejo florestal, cultivando mudas de espécies nativas como pau-brasil, jatobá e ipê-amarelo. O excedente de mudas é doado a instituições parceiras.

Para as crianças da Escola Os Batutinhas, em Ipanema, uma das iniciativas é o Green Day, que integra práticas voltadas à sustentabilidade e à preservação em atividades lúdicas, abertas às famílias e adaptadas para cada faixa etária da educação infantil. Em parceria com a Cultiva, um hub de regeneração urbana, os pequenos têm contato com terra, plantio e reflorestamento, além de experiências sensoriais que reforçam a conexão com a natureza. Uma das ações recentes incluiu a visita de Paul Watson, ativista fundador da Sea Shepherd, que falou sobre conservação marinha.

Paul Watson. Ativista falou na escolaOs Batutinhas sobre a conservação marinha — Foto: Divulgação
Paul Watson. Ativista falou na escolaOs Batutinhas sobre a conservação marinha — Foto: Divulgação

Na Zona Norte, os debates da COP30 também inspiraram projetos. Nos colégios Matriz, QI e Pensi, turmas do ensino fundamental ao ensino médio criaram jogos digitais, bioplásticos, bombas de sementes, instalações artísticas, desfiles sustentáveis e protótipos científicos. As iniciativas evidenciam uma tendência de ampliar o tema da sustentabilidade no cotidiano escolar e de incorporar a agenda climática às práticas pedagógicas.

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Ao longo das últimas semanas, as escolas integraram áreas do conhecimento e mobilizaram equipes para transformar a pauta ambiental em atividades concretas. A ideia comum entre elas foi aproveitar o impulso da conferência internacional para tornar o tema mais próximo dos alunos, conectando o que foi discutido em Belém com a realidade da sala de aula.

Rafael Gomes, aluno do Matriz Tijuca, demonstra funcionamento de jogo digital sobre o uso consciente da água — Foto: Divulgação
Rafael Gomes, aluno do Matriz Tijuca, demonstra funcionamento de jogo digital sobre o uso consciente da água — Foto: Divulgação

Na Tijuca, o Colégio Matriz Educação desenvolveu com a turma do 6º ano um jogo

e os impactos da falta de saneamento básico. Produzido na plataforma Scratch, o game traz cenários em 2D e desafios que reproduzem situações comuns em casa, na escola e na cidade — do reaproveitamento da água da chuva ao descarte correto de resíduos. Entre os personagens há um fazendeiro que irriga as plantas com água pluvial, uma pessoa que lava o carro usando água acumulada da chuva e um funcionário de lavanderia que reutiliza a água das próprias máquinas. Em outra fase, o jogador precisa decidir o que pode ou não ir para o mar, em uma dinâmica que estimula o pensamento crítico sobre poluição.

— A parte de que eu mais gosto são as perguntas interativas com situações reais, tipo “como reutilizar a água da chuva?” ou “de que forma podemos economizar água ao escovar os dentes?” — conta Rafael Antônio Gomes Covas, aluno do 6º ano. — A ideia é mostrar, de um jeito leve e divertido, que pequenas escolhas fazem diferença. Eu mesmo comecei a usar a água da chuva para regar plantas e a prestar mais atenção na hora de fechar a torneira.

O colega Samuel Vicente de Souza explica que o grupo pensou no jogo para dialogar com públicos de diferentes idades, não apenas com estudantes.

— Nosso objetivo é conscientizar pessoas de várias faixas etárias sobre a importância de usar a água de forma responsável — diz.

A atividade foi orientada pelo professor Arthur Jacob, de cultura maker, que destaca o alinhamento do projeto com as competências previstas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

— Ao investigar, levantar dados e propor alternativas, os alunos desenvolvem autonomia, pensamento crítico e consciência socioambiental. Essa é exatamente a lógica de formação discutida na COP30 — avalia.

Segundo o professor, o jogo deverá ser apresentado na etapa local da Feira de Ciência, Tecnologia e Inovação do Colégio Matriz, a Fectriz, e poderá ser compartilhado com outras unidades.

Projetos do Matriz em Rocha Miranda incluem oficinas, bombas de sementes e a maquete de usina hidrelétrica — Foto: Divulgação
Projetos do Matriz em Rocha Miranda incluem oficinas, bombas de sementes e a maquete de usina hidrelétrica — Foto: Divulgação

Outras unidades do Matriz também mergulharam no tema. Em Rocha Miranda, estudantes de diferentes séries transformaram as discussões ambientais da conferência em projetos práticos. O 8º ano produziu bombas de sementes — cápsulas biodegradáveis usadas para reflorestar áreas degradadas — e registrou as etapas de produção, desde a escolha do solo até a seleção de espécies nativas. O 6º ano construiu uma maquete funcional de usina hidrelétrica, explicando o papel da energia renovável na redução das emissões. Houve ainda oficinas sobre boas práticas ambientais, consumo consciente e debates sobre soluções acessíveis para melhorar o abastecimento de água e o saneamento básico nas comunidades.

No Matriz de Madureira, alunos do 7º ano desenvolveram um bioplástico feito com ingredientes naturais, após estudarem os impactos do plástico descartável e alternativas viáveis de substituição. O projeto envolveu testes de densidade, resistência, textura e tempo de decomposição, além de discussões sobre legislação, reciclagem e gestão de resíduos sólidos.

O diretor da unidade, Djan Thimoteo, afirma que o envolvimento dos alunos cresceu ao longo das atividades.

— Eles não queriam apenas aprender o conteúdo, mas entender como esses temas fazem parte da vida deles. O interesse surgiu da inquietação diante de problemas reais, como o excesso de lixo e a falta de políticas públicas ambientais. Eles queriam criar algo que pudesse ser usado de verdade. O bioplástico surgiu dessa curiosidade e da vontade de propor uma solução que não fosse apenas teórica — diz Thimoteo.

No Méier, o Colégio QI desenvolveu com as turmas do 7º ano o projeto “Belém do Pará para além da COP30”, parte do programa QI Multicultural. A proposta integrou ciências, história, língua portuguesa e matemática para explorar a cultura amazônica, os impactos da urbanização, o saneamento básico, o uso de energias renováveis e a preservação da biodiversidade — sempre tomando Belém, sede da conferência, como ponto de partida.

De acordo com a professora de língua portuguesa Bruna Ribeiro, que integrou a coordenação pedagógica, a escolha da COP30 como eixo temático buscou aproximar os conteúdos escolares de discussões reais e contemporâneas.

— Nosso objetivo foi mostrar que a escola vai além dos muros. Quando os alunos percebem que o que acontece no Brasil e no mundo se conecta com a vida deles, o aprendizado ganha outro sentido — afirma ela. — Trabalhar com a COP30, realizada na Amazônia, também ajudou a descentralizar o olhar e a pensar o país para além do Sudeste.

Durante o projeto, os estudantes pesquisaram povos originários e sua relação histórica com o território; produziram cestarias inspiradas em técnicas indígenas, utilizando materiais naturais e reaproveitados; e construíram jogos matemáticos tradicionais, como o Mancala, valorizando práticas ancestrais. Em paralelo, estudaram expressões e gírias locais, compreenderam a linguagem como identidade cultural e analisaram formas geométricas presentes em produções indígenas e quilombolas, integrando matemática e cultura.

* O conteúdo desta reportagem está nas edições especiais sobre educação publicadas neste sábado (29) no GLOBO-Zona Sul e no GLOBO-Zona Norte.

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