Em um ano marcado pela realização da COP30, que colocou na pauta a preservação das florestas tropicais, a proteção dos oceanos e a valorização da biodiversidade, tais temas ganharam mais destaque ainda nas salas de aulas. A proposta é aproximar os estudantes dos desafios ambientais contemporâneos e incentivá-los a refletir sobre seu papel na construção de um futuro mais sustentável.
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Algumas instituições transformaram praias e ecossistemas marinhos em extensões da sala de aula. Aulas ao ar livre permitem que crianças e adolescentes observem a vida marinha, participem de coleta de resíduos e aprendam sobre pesca artesanal e preservação de espécies, conectando conceitos estudados em sala às realidades do oceano e da comunidade local.
— Antes eu achava que o oceano era só a praia que a gente ia mesmo. Agora eu entendo que ele é muito importante para a gente. Aprendi que temos que jogar nosso lixo no lugar certo. Quando vejo plástico na praia, eu recolho, mesmo que não seja meu. E se tem alguém perto, eu explico — conta Helena Fernandes dos Santos de Noronha, aluna do 2º ano do ensino fundamental do Colégio Notre Dame, em Ipanema.
O Instituto Mar Urbano (IMU) coordena atividades nesse sentido em duas escolas da Zona Sul: o Notre Dame, na rede particular; e Escola Municipal Maria Leopoldina, na Glória. Desde 2021, o projeto oferece experiências práticas como soltura de animais marinhos na Lagoa Rodrigo de Freitas, visitas a ecossistemas de restinga e oficinas de construção de pranchas de stand up paddle a partir de garrafas PET. A interação com pescadores locais aproxima ainda mais os alunos da realidade de quem vive do mar, reforçando a compreensão sobre sustentabilidade e cultura local.
— Quando um aluno conversa com um pescador, aprende sobre uma espécie nova de animal marinho ou vê a enorme quantidade de plástico que retiramos da praia em poucos minutos, algo muda na visão dele. Essas experiências conectam essas crianças emocionalmente com o mar e criam uma consciência ambiental que vai além dos muros da escola. Eles acabam se tornando multiplicadores e agentes de transformação por onde passam — afirma Ricardo Gomes, presidente do IMU.
O projeto se conecta a iniciativas globais, como a Década do Oceano da ONU (2021-2030), que incentiva escolas a incluir o tema oceano no currículo. O conceito Escola Azul, criado em Portugal, reconhece instituições que desenvolvem projetos concretos de educação ambiental e oceanográfica, ligando os alunos ao ambiente marinho e incentivando ações de preservação. No Brasil, 388 escolas distribuídas em 24 estados já têm o selo, e na cidade do Rio apenas quatro instituições contam com o reconhecimento: Escola Eliezer Steinberg Max Nordau, em Laranjeiras; Notre Dame, em Ipanema; Pedrinho II, no Recreio (Zona Sudoeste); e Escola Municipal Sobral Pinto, na Praça Seca (Zona Oeste). A Maria Leopoldina, que iniciou suas atividades este ano, se prepara para solicitar o selo em 2026.
Para educadores, o impacto vai além do conteúdo acadêmico: a experiência contribui para a formação de cidadãos conscientes e engajados na proteção do meio ambiente, mostrando que a educação pode ser prática, transformadora e conectada com a realidade do planeta.
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No Colégio Andrews, no Humaitá, a aprendizagem ganha forma lúdica com a participação no projeto nacional Caixas da Natureza, que convida crianças de todo o país a explorar o meio ambiente ao seu redor por meio do brincar. Cada grupo cria uma caixa com registros, objetos naturais e produções artísticas que refletem suas descobertas sobre o bioma onde vivem. Essas caixas são, então, enviadas a outras escolas, promovendo trocas culturais e ambientais entre diferentes regiões do país.
A iniciativa se concretiza em atividades desenvolvidas pelas próprias crianças, como jogos da memória com folhas, tabuleiros de identificação de formas com pedras e brincadeiras de pega-graveto. A coordenadora da educação infantil, Iris Lacava, destaca que a experiência fortalece o vínculo das crianças com a natureza:
— Aprender é se relacionar com. A brincadeira com a caixa aguça tanto o olhar de criatividade quanto a experiência sensorial e afetiva e o encanto com a simplicidade.
Além disso, as saídas pedagógicas para coleta de folhas, gravetos e outros elementos naturais incentivam a reflexão sobre cuidados ambientais e o impacto do lixo na natureza. Participando do projeto, crianças de 3 a 5 anos desenvolvem sensibilidade, curiosidade e senso de pertencimento ao território onde vivem, em uma abordagem inspirada na filosofia Reggio Emilia, que valoriza a aprendizagem por meio da experiência e da interação com o meio.
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Na Creche Escola Global Tree, em Botafogo, a educação ambiental começa na primeira infância. As crianças de 3 a 6 anos exploram frutas e sementes nativas em atividades sensoriais que apresentam os povos originários como guardiões da floresta. Elas também vivenciam conceitos de biomimética, observando folhas e asas de borboletas para criar composições artísticas inspiradas na natureza.
No Eleva Urca, o Green Council reúne alunos em projetos de sustentabilidade dentro da escola e na comunidade. Um dos destaques é a campanha Beach Clean Up, em que os estudantes realizam mutirões de limpeza nas praias, recolhendo resíduos e aprendendo sobre microplásticos, consumo consciente e preservação dos ecossistemas costeiros. O grupo também promove debates, oficinas e parcerias com ONGs, fortalecendo o protagonismo juvenil e a responsabilidade socioambiental.
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Pesquisas científicas e atividades de campo
Duas escolas de Botafogo têm incorporado a pauta ambiental ao currículo de maneiras distintas, mas todas alinhadas aos debates que tiveram destaque na recém-terminada COP30. Na Sá Pereira, o tema aparece em projetos interdisciplinares e saídas de campo. No 6º ano, os alunos participaram de uma imersão sensorial na Floresta da Tijuca para compreender como a ocupação humana transformou o território, da presença dos povos originários ao reflorestamento promovido por Dom Pedro II. No 7º ano, o foco foi o Antropoceno, com análise de dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e discussões sobre justiça climática. No ensino médio, a eletiva Memória das Águas reuniu ciência, arte e política para debater os múltiplos significados da água na vida cotidiana e nos conflitos ambientais.
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No Cubo Global School, os alunos do ensino médio desenvolveram projetos com foco nos ecossistemas marinhos, que abordam desde o impacto das mudanças climáticas nos recifes de corais até a importância dos fitoplânctons na produção de oxigênio, unindo ciência, pesquisa e protagonismo juvenil.
Mudas cultivadas por alunos
No Colégio Santo Inácio, em Botafogo, a Oficina de Sustentabilidade integra teoria e prática para despertar nos alunos responsabilidade socioambiental. Na Estação Ambiental da escola, estudantes da 1ª série do ensino médio aprendem sobre efeito estufa, pegada de carbono e manejo florestal, cultivando mudas de espécies nativas como pau-brasil, jatobá e ipê-amarelo. O excedente de mudas é doado a instituições parceiras.
Para as crianças da Escola Os Batutinhas, em Ipanema, uma das iniciativas é o Green Day, que integra práticas voltadas à sustentabilidade e à preservação em atividades lúdicas, abertas às famílias e adaptadas para cada faixa etária da educação infantil. Em parceria com a Cultiva, um hub de regeneração urbana, os pequenos têm contato com terra, plantio e reflorestamento, além de experiências sensoriais que reforçam a conexão com a natureza. Uma das ações recentes incluiu a visita de Paul Watson, ativista fundador da Sea Shepherd, que falou sobre conservação marinha.
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Na Zona Norte, os debates da COP30 também inspiraram projetos. Nos colégios Matriz, QI e Pensi, turmas do ensino fundamental ao ensino médio criaram jogos digitais, bioplásticos, bombas de sementes, instalações artísticas, desfiles sustentáveis e protótipos científicos. As iniciativas evidenciam uma tendência de ampliar o tema da sustentabilidade no cotidiano escolar e de incorporar a agenda climática às práticas pedagógicas.
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Ao longo das últimas semanas, as escolas integraram áreas do conhecimento e mobilizaram equipes para transformar a pauta ambiental em atividades concretas. A ideia comum entre elas foi aproveitar o impulso da conferência internacional para tornar o tema mais próximo dos alunos, conectando o que foi discutido em Belém com a realidade da sala de aula.
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Na Tijuca, o Colégio Matriz Educação desenvolveu com a turma do 6º ano um jogo
e os impactos da falta de saneamento básico. Produzido na plataforma Scratch, o game traz cenários em 2D e desafios que reproduzem situações comuns em casa, na escola e na cidade — do reaproveitamento da água da chuva ao descarte correto de resíduos. Entre os personagens há um fazendeiro que irriga as plantas com água pluvial, uma pessoa que lava o carro usando água acumulada da chuva e um funcionário de lavanderia que reutiliza a água das próprias máquinas. Em outra fase, o jogador precisa decidir o que pode ou não ir para o mar, em uma dinâmica que estimula o pensamento crítico sobre poluição.
— A parte de que eu mais gosto são as perguntas interativas com situações reais, tipo “como reutilizar a água da chuva?” ou “de que forma podemos economizar água ao escovar os dentes?” — conta Rafael Antônio Gomes Covas, aluno do 6º ano. — A ideia é mostrar, de um jeito leve e divertido, que pequenas escolhas fazem diferença. Eu mesmo comecei a usar a água da chuva para regar plantas e a prestar mais atenção na hora de fechar a torneira.
O colega Samuel Vicente de Souza explica que o grupo pensou no jogo para dialogar com públicos de diferentes idades, não apenas com estudantes.
— Nosso objetivo é conscientizar pessoas de várias faixas etárias sobre a importância de usar a água de forma responsável — diz.
A atividade foi orientada pelo professor Arthur Jacob, de cultura maker, que destaca o alinhamento do projeto com as competências previstas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
— Ao investigar, levantar dados e propor alternativas, os alunos desenvolvem autonomia, pensamento crítico e consciência socioambiental. Essa é exatamente a lógica de formação discutida na COP30 — avalia.
Segundo o professor, o jogo deverá ser apresentado na etapa local da Feira de Ciência, Tecnologia e Inovação do Colégio Matriz, a Fectriz, e poderá ser compartilhado com outras unidades.
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Outras unidades do Matriz também mergulharam no tema. Em Rocha Miranda, estudantes de diferentes séries transformaram as discussões ambientais da conferência em projetos práticos. O 8º ano produziu bombas de sementes — cápsulas biodegradáveis usadas para reflorestar áreas degradadas — e registrou as etapas de produção, desde a escolha do solo até a seleção de espécies nativas. O 6º ano construiu uma maquete funcional de usina hidrelétrica, explicando o papel da energia renovável na redução das emissões. Houve ainda oficinas sobre boas práticas ambientais, consumo consciente e debates sobre soluções acessíveis para melhorar o abastecimento de água e o saneamento básico nas comunidades.
No Matriz de Madureira, alunos do 7º ano desenvolveram um bioplástico feito com ingredientes naturais, após estudarem os impactos do plástico descartável e alternativas viáveis de substituição. O projeto envolveu testes de densidade, resistência, textura e tempo de decomposição, além de discussões sobre legislação, reciclagem e gestão de resíduos sólidos.
O diretor da unidade, Djan Thimoteo, afirma que o envolvimento dos alunos cresceu ao longo das atividades.
— Eles não queriam apenas aprender o conteúdo, mas entender como esses temas fazem parte da vida deles. O interesse surgiu da inquietação diante de problemas reais, como o excesso de lixo e a falta de políticas públicas ambientais. Eles queriam criar algo que pudesse ser usado de verdade. O bioplástico surgiu dessa curiosidade e da vontade de propor uma solução que não fosse apenas teórica — diz Thimoteo.
No Méier, o Colégio QI desenvolveu com as turmas do 7º ano o projeto “Belém do Pará para além da COP30”, parte do programa QI Multicultural. A proposta integrou ciências, história, língua portuguesa e matemática para explorar a cultura amazônica, os impactos da urbanização, o saneamento básico, o uso de energias renováveis e a preservação da biodiversidade — sempre tomando Belém, sede da conferência, como ponto de partida.
De acordo com a professora de língua portuguesa Bruna Ribeiro, que integrou a coordenação pedagógica, a escolha da COP30 como eixo temático buscou aproximar os conteúdos escolares de discussões reais e contemporâneas.
— Nosso objetivo foi mostrar que a escola vai além dos muros. Quando os alunos percebem que o que acontece no Brasil e no mundo se conecta com a vida deles, o aprendizado ganha outro sentido — afirma ela. — Trabalhar com a COP30, realizada na Amazônia, também ajudou a descentralizar o olhar e a pensar o país para além do Sudeste.
Durante o projeto, os estudantes pesquisaram povos originários e sua relação histórica com o território; produziram cestarias inspiradas em técnicas indígenas, utilizando materiais naturais e reaproveitados; e construíram jogos matemáticos tradicionais, como o Mancala, valorizando práticas ancestrais. Em paralelo, estudaram expressões e gírias locais, compreenderam a linguagem como identidade cultural e analisaram formas geométricas presentes em produções indígenas e quilombolas, integrando matemática e cultura.
* O conteúdo desta reportagem está nas edições especiais sobre educação publicadas neste sábado (29) no GLOBO-Zona Sul e no GLOBO-Zona Norte.

