A análise de alvos de aquisição foi tão importante para o balanço da Fleury quanto a de amostras de sangue nos últimos anos. A dona de laboratórios como Felippe Mattoso, Labs A+ e Hermes Pardini comprou 22 empresas de 2017 para cá. Só nos últimos dois anos, seu time de M&A (jargão financeiro para fusões e aquisições) teve 99 negócios na mira e fechou cinco. Em 2026 — quando a companhia completa cem anos, e os juros tendem a cair mais devagar do que o previsto —, a prioridade é “manter a disciplina financeira” e o “crescimento orgânico”, conta a CEO Jeane Tsutsui. Mas, em se tratando de Fleury, ir às compras nunca é tabu.
— Se surgirem ativos bons, que se encaixem nos nossos parâmetros, a gente pode fazer. Mas é cada vez mais importante que o M&A se insira, para a gente, dentro de uma visão estratégica, cultural e de disciplina econômico-financeira, sobretudo diante do custo de capital mais alto — explica Jeane, cardiologista veterana da Fleury que assumiu o comando do negócio há cinco anos.
Os últimos meses mostraram que o apetite existe. No fim de março, a Fleury surpreendeu o mercado ao se associar à Porto Seguro em uma oferta de aporte de R$ 500 milhões na Oncoclínicas, que enfrenta dificuldades financeiras. O negócio não foi adiante, porém, e a rede de clínicas oncológicas acabou pedindo proteção contra credores.
— Surgiu a oportunidade de avaliar a Oncoclínicas, e entramos nas negociações junto com a Porto. Mas o período de análise foi muito curto, e não tivemos tempo de concluir essa avaliação. Já atuamos em oncologia com um portfólio completo de diagnóstico e temos uma sociedade com a Beneficência Portuguesa e o Bradesco na Croma, de serviços oncológicos — observa a CEO da Fleury, que, na outra ponta, chegou a ser avaliada como alvo de aquisição pela Rede D’Or no ano passado. — Publicamos fato relevante em outubro dizendo que não tínhamos mais nada a comentar sobre esse tema. Do nosso lado, seguimos executando nossa estratégia.
Essa execução tem se dado dentro das expectativas dos investidores. Na noite de ontem, a Fleury informou que, no primeiro trimestre, a receita bruta foi de R$ 2,41 bilhões, 10,1% maior do que no mesmo período de 2025. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) foi de R$ 606 milhões (alta anual de 10,7%), enquanto o lucro líquido avançou 12,2%, para R$ 201,2 milhões.
Esses indicadores vieram acima do que previam os analistas do Citi, por exemplo (R$ 602 milhões de Ebitda e R$ 179 milhões de lucro). A alavancagem, que é a relação entre a dívida e o Ebitda, permaneceu em 1 vez, nível considerado confortável por analistas do mercado, ressaltou Jose Antonio Filippo, diretor-financeiro (CFO) da Fleury.
O volume de exames foi de 47,5 milhões no trimestre, um salto de 17,8%. Parte disso tem relação com empresas recém-adquiridas, como as marcas Confiance, Hemolab e LSL. Mas Jeane sustenta que é o crescimento orgânico que vem ancorando o resultado.
— Considerando apenas o resultado orgânico, o crescimento das receitas já seria de perto de 10%, porque tivemos expansão importante nos nossos principais mercados (São Paulo, Rio e Minas Gerais) — argumenta a CEO da Fleury, que tem o Bradesco como maior acionista, com fatia de 24,9%.
Além das aquisições, contribui para a expansão do balanço da Fleury uma conjuntura macroeconômica favorável. Com o desemprego baixo, o número de beneficiários de planos de saúde vem subindo, impulsionando a demanda por exames e outros serviços. O envelhecimento da população também joga a favor.
— Tudo isso tem correlação, mas o número de clientes de planos de saúde tem se mantido, historicamente, em um quarto da população, enquanto a gente cresce 12,7% ao ano desde 2012. A gente vem ganhando market share (participação de mercado) por meio de movimento orgânico e inorgânico (aquisições) — pondera a CEO, que capitaneou a compra do Hermes Pardini por mais de R$ 2 bilhões em 2022.
No longo prazo, o impacto das canetas emagrecedoras sobre a incidência de doenças crônicas também tende a ser favorável, admite Jeane.
— Obesidade e diabetes levam a maior mortalidade por doença cardiovascular. Todos os estudos mostram que esse tratamento reduz a mortalidade cardiovascular e, portanto, tem impacto na longevidade. Esse paciente vai acompanhar mais a saúde. É uma conjuntura benéfica para o nosso negócio — defende.
De acordo com a CEO, tanto a estratégia de aquisições quanto a orgânica são baseadas em complementariedade, sobretudo no negócio principal da empresa, o de medicina diagnóstica.
— Não olhamos para nenhuma região em específico, mas para parâmetros. O foco está em áreas com boa penetração de saúde suplementar e em negócios que possam trazer sinergias. Já temos uma distribuição geográfica importante. Dos 15 maiores mercados, somos líderes em oito. Em 2024, entramos em Santa Catarina, por exemplo. Em São Paulo, a marca Fleury é muito forte — comenta.
É em São Paulo, aliás, que a companhia vai inaugurar neste mês o que chama de unidade Marco 100 da Fleury, em referência ao centenário do laboratório. O grupo está fazendo um investimento de R$ 35 milhões no projeto, que ficará na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, no bairro nobre do Jardim Paulistano. Além do portfólio de diagnóstico da marca, a unidade terá um centro de longevidade.

