O duelo entre Cruzeiro e Flamengo desta quarta-feira, às 21h30, no Mineirão, marca um reencontro marcado por tensão de Gerson com o antigo clube, agora como adversário nas oitavas de final da Libertadores. Enquanto disputam uma vaga dentro de campo, jogador e rubro-negro mantêm fora dele uma briga judicial que envolve R$ 42,75 milhões em direitos de imagem.
Campeão da Libertadores (2019) e de dois Campeonatos Brasileiros (2019 e 2020) pelo Flamengo, Gerson era um dos símbolos de uma era vitoriosa do clube. O desgaste entre o “Coringa” — como era chamado pela torcida — e o rubro-negro, no entanto, começou no início do ano passado durante as negociações para a renovação de contrato. Capitão da equipe, o meia ainda tinha vínculo até o fim de 2027, mas buscava uma valorização salarial.
Pai e empresário do jogador, Marcão cobrou a diretoria publicamente, e teve como resposta uma ironia do presidente Bap durante uma reunião com conselheiros: — Propusemos para o Gerson uma renovação, mas o atleta Marcão não aceitou ainda — disse o dirigente na ocasião.
Apesar disso, as partes se acertaram e, em abril, renovaram o contrato até o fim de 2030, com aumento salarial. No entanto, o novo vínculo teve a multa rescisória reduzida de 200 milhões de euros (cerca de R$ 1,2 bilhão) para 25 milhões de euros (quase R$ 160 milhões). Na época, o jogador já era monitorado pelo Zenit, da Rússia, que aproveitou a brecha e, em julho, pagou a multa e tirou o volante do Flamengo. A sua última partida pelo time carioca foi contra o Bayern de Munique, na eliminação nas oitavas de final do Mundial de Clubes — ele marcou um gol na derrota por 4 a 2. No total, foram 200 jogos e 12 títulos.
Gerson comemora gol sobre o Bayern de Munique no Mundial
Michael Reaves/Getty Images/AFP
A forma como a saída aconteceu acabou com a idolatria que Gerson tinha com a torcida rubro-negra. A aventura no futebol russo, porém, durou pouco tempo e seis meses depois, em janeiro deste ano ele estava de volta ao Brasil para vestir a camisa do Cruzeiro.
No mesmo mês, o Flamengo acionou a Justiça para cobrar R$ 42,7 milhões de Gerson e da FGM Sports, empresa de Marcão, pai e empresário do jogador referentes a operação que resultou em sua ida para o Zenit — na petição inicial, o clube carioca fez a seguinte conta: multiplicou o que Gerson ganhava por mês (R$ 750 mil) via direitos de imagem pelo número de meses que ainda restariam no contrato em vigor (57 meses). O rubro-negro pede o ressarcimento com a alegação de rescisão unilateral do contrato de imagem acertado com o atleta — a parte responsável pela decisão seria obrigada a pagar o valor total relativo aos direitos de imagem. A cobrança tem como base uma multa estipulada em contrato devido ao investimento feito com pensamento em longo prazo, já que Gerson havia renovado seu vínculo com o clube três meses antes de ir para o Zenit.
Depois disso, Gerson subiu o tom através de uma contestação no processo apresentada por seus advogados. Com muitas críticas a ação do rubro-negro e ao presidente Bap, o meia afirmou que o clube carioca agiu de “má-fé” ao protocolar a cobrança “ilegal, imoral e irracional” no tribunal.
“A pretensão rubro-negra, data vênia, se revela totalmente ilegal, imoral e beira as raias do irracional! E é tão irracional que chega a ser pueril! Realmente, o ódio cega! O CRF recebeu nada mais nada menos do que 25 milhões de euros e o contrato objeto da lide foi extinto com base na cláusula 6.2. Pois bem, dito isto, apenas por retórica, será que alguém no CRF teve a coragem de dizer ao Atleta: olha, Gerson, assine o contrato de transferência, o Flamengo receberá 25 milhões de euros, mas não se esqueça de pagar a multa do contrato de imagem, tudo bem? Honestamente, dizer que o CRF agiu divorciado da boa-fé seria eufemismo. Má-fé é mais sincero”, diz um trecho da contestação de Gerson publicado na época pela ESPN.
Dizendo-se traído, Gerson afirmou que, quando assinou papel manuscrito em que pedia que fosse demitido pelo Flamengo, tomou essa atitude por orientação do próprio clube. Segundo o atleta, ele assinou diversos documentos contratuais sem data “na mais pura confiança”. Ainda na contestação, a alegação dos advogados de Gerson é de que, mais do que por ter se sentido lesado pelo atleta, o Flamengo teria entrado com a ação por uma “sede de vingança do atual presidente”. A defesa do jogador ainda diz que o rubro-negro deve R$ 6 milhões referentes a luvas da última renovação contratual.
Camisa de Gerson no jogo entre Flamengo x Cruzeiro, no Maracanã, pelo Brasileirão
Thais Magalhães/Cruzeiro
“Gerson descobriu que está sendo vítima de uma sede de vingança do atual Presidente do Flamengo que não suportou o fato do Atleta ter sido contratado e repatriado do futebol russo ao Brasil justamente pelo clube Mineiro Cruzeiro Esporte Clube. Quiçá porque o atual Diretor de Futebol do Cruzeiro (Sr. Bruno Spindel) foi demitido do Flamengo pelo atual Presidente Rubro-negro. E a peça exordial não foi tímida em revelar essa sede de vingança”, consta em outro trecho.
Com a disputa fora de campo, Gerson reencontrou o Flamengo pela primeira vez em março, quando veio ao Maracanã, pelo Cruzeiro, para o jogo do primeiro turno do Brasileirão — rubro-negro venceu por 2 a 0. O jogador foi alvo de vaias e xingamentos durante a partida e seu pai precisou ser retirado de um dos setores da arquibancada porque estava sendo hostilizado por torcedores cariocas. Desta vez, a briga será por uma vaga nas quartas de final da Libertadores. Gerson ainda voltará ao Maracanã pelo jogo de volta na próxima quarta-feira.

