A escritora canadense Annie Carson venceu o Prêmio Nobel de Literatura de 2026, anunciado às 8h (horário de Brasília) desta quinta-feira (8) pela Academia Sueca.
Carson tem 76 anos e é conhecida por implodir as fronteiras entre os gêneros literários — ela transita com invejável liberdade pela narrativa, pela poesia e pelo ensaio — e por seu diálogo apaixonado com os clássicos gregos. O diálogo franco com a tradição literária é um dos procedimentos mais característicos ds sua obra de Carson. Seu primeiro livro publicado no Brasil, em 2017, foi “O método Albertine” (Jabuticaba), que investiga o desejo a partir de “Em busca do tempo perdido”, o romance monumental de Marcel Proust.
Contudo, sua conversa mais frequente é mesmo com os gregos, em livros como “Eros, o doce-amargo: um ensaio” (Bazar do Tempo) e “Autobiografia do vermelho” (Editora 34), romance em versos que reinventa a história de Gerião, monstro mitológico cujo gado foi roubado por Hércules num de seus 12 trabalhos. Carson imagina Gerião como um rapaz vermelho, alado e gay do século XX, vivendo na América do Norte e sofrendo por amar o filho de Zeus. A obra ganhou duas adaptações teatrais no Brasil: a de Bruno Siniscalchi, em 2024, e a de Daniela Thomas no início deste ano.
A escritora e tradutora também é famosa por ser avessa a entrevistas. Em 2013, ela disse ao New York Times que, anos atrás, teve uma experiência ruim ao ver um perfil seu na imprensa e prefere não passar por isso novamente. Às vezes, ela topa receber perguntas por escrito e devolve respostas tão fascinantes como seus versos. Certa vez, uma repórter do jornal britânico The Guardian perguntou se ela tinha alguma “definição pessoal de poesia”. Ela respondeu: “Se prosa é uma casa, poesia é um homem pegando fogo atravessando bem rápido a casa.”
‘A euforia do amor’
Em abril deste ano, porém, concordou em responder três perguntas do GLOBO sobre “Vidro, ironia e deus”, obra de 1995 recém-lançada no Brasil.
— Quando penso nesse livro, lembro principalmente do gelo nos riachos e nas poças (era o início da primavera) quando eu saía para caminhar do lado de fora da casa da minha mãe. Parecia vidro. Nossas vidas, nossos eus, nossas almas são apenas vidro — disse.
Carson tem um público cativo no Brasil e é publicada por quatro editoras diferentes. Ao comentar o sucesso da canadense por aqui, a escritora Adriana Lisboa insistiu que, “a despeito de toda a sua erudição”, não faltam na obra da classicista sentimentos “facilmente acessíveis”, como “a euforia do amor” e a “dor da perda”.
— Carson é uma autora cujo pensamento é complexo, mas cuja forma e léxico são, muitas vezes, extremamente simples. Ela consegue conjugar elementos eruditos a detalhes cotidianos dos mais banais, do místico ao mundano, Proust no original a uma xícara de Nescafé — ilustra Lisboa, tradutora de “Vidro, ironia e deus”.
“O ensaio de vidro”, poema que abre “Vidro, ironia, deus” é narrado por uma mulher que se instala na casa da mãe, no interior, enquanto tenta se recuperar do término de um relacionamento. Encontra conforto ao se debruçar sobre a vida e a obra de Emily Brontë (1818-1848), autora de “O morro dos ventos uivantes”. “Sinto que estou me transformando em Emily Brontë”, diz ela.
Ao GLOBO, Carson tentou explicar por que o diálogo com outros autores é um catalisador de sua literatura:
— O pensamento começa com frases para mim. Frases dos outros geralmente são melhores, porque são inesperadas. Ou porque propõem um ângulo diferente, sacodem ou racham a superfície. Assim eu consigo encontrar um caminho.
“Vidro, ironia, deus” também é uma jornada espiritual. “Minha religião não faz sentido/ e não me ajuda/ por isso eu a pratico”, diz um dos poemas do livro, que ecoa o Antigo Testamento ao descrever o quão terrível pode ser um encontro com o divino. Os antigos hebreus temiam ser consumidos pela presença de Deus. A Bíblia conta que o profeta Isaías se desespera ao ver a glória de Deus encher o templo: “Ai de mim! Estou perdido!” Nos versos de Carson, o profeta come o pão que o diabo amassou nas mãos do Altíssimo: “Isaías amara Deus e agora seu amor tinha se transformado em dor.”
— Eu buscava as tradições místicas para compreender estados de espírito, os humores que dominam nossa felicidade cotidiana e muitas vezes são tão insignificantes que desaparecem sem deixar rastro — recordou Carson. — Talvez eu quisesse atribuir uma causa mais importante para o sofrimento que sentia na época. Acabei percebendo que essa não era uma maneira legítima de abordar os místicos.
Antes de Carson, a única canadense laureada pela Academia Sueca havia sido Alice Munro (1932-2024), em 1990. Ela é a 18ª mulher a vencer o Prêmio Nobel de Literatura e sucede o húngaro László Krasznahorkai.
Nobel de Literatura 2026 vai para a escritora canadense Anne Carson
