- Sushila Karki: Primeira mulher a ocupar o cargo, nova premier interina do Nepal toma posse para liderar transição após protestos violentos
- Contexto: Restrições às redes sociais provocam uma geração Z já sufocada por corrupção e falta de oportunidades
Sushila Karki, de 73 anos, é ex-presidente do Supremo Tribunal nepalês e foi encarregada de restaurar a ordem no país e atender às exigências dos manifestantes por um futuro sem corrupção antes das eleições. O Parlamento do Nepal foi dissolvido após as manifestações que tomaram conta do país e as próximas eleições foram marcadas para 5 de março de 2026.
— Não ficaremos aqui mais de seis meses em nenhuma circunstância, cumpriremos nossas responsabilidades e nos comprometemos a passar o cargo ao próximo Parlamento e ministros — afirmou a premier interina em discurso à nação.
Os protestos, desencadeados por uma proibição das redes sociais e alimentados por dificuldades econômicas de longa data, começaram na segunda-feira e rapidamente se intensificaram, com o parlamento e importantes edifícios governamentais incendiados.
— O que esse grupo está exigindo é o fim da corrupção, boa governança e igualdade econômica — acrescentou a primeira-ministra.
Um quinto da população do Nepal com idade entre 15 e 24 anos está desempregada, de acordo com o Banco Mundial. Com uma nação himalaia de 30 milhões de habitantes, o PIB per capita nepalês está em apenas US$ 1.447 (cerca de R$ 7.700).
— Temos que trabalhar de acordo com o pensamento da geração Z — disse Karki em seus primeiros comentários públicos desde que assumiu o cargo na sexta-feira.
Karki fez um minuto de silêncio neste domingo pelas vítimas mortas nos protestos, antes do início das reuniões no complexo governamental de Singha Durbar — onde vários edifícios foram incendiados durante as manifestações em massa na terça-feira.
Pelo menos 72 pessoas foram mortas em dois dias de protestos e 191 ficaram feridas, segundo o secretário-chefe do governo, Eaknarayan Aryal, aumentando o número anterior de 51 vítimas.
As manifestações desta semana marcaram a pior onda de protestos no Nepal desde o fim da guerra civil que durou uma década, em 2006, e a abolição da monarquia em 2008.
A nomeação de Karki, conhecida por sua independência, ocorreu após intensas negociações entre o chefe do exército, general Ashok Raj Sigdel, e o presidente Ram Chandra Paudel, incluindo representantes da “Geração Z”, nome genérico dado ao movimento de protesto juvenil. Milhares de jovens ativistas usaram o aplicativo Discord para nomear Karki como sua líder preferida.
— A situação em que me encontro não era o que eu desejava. Meu nome foi trazido das ruas — declarou Karki.
Mulher de ex-primeiro ministro do Nepal morre ao ter a casa incendiada em protesto
Os cidadãos nepaleses afirmam estar esperançosos de que o novo governo traria mudanças, mas estão cientes de que os desafios são grandes.
— A lista de responsabilidades e questões a serem resolvidas por este governo não é fácil — disse Satya Narayan, de 69 anos, dono de uma mercearia na vila de Pharping, a cerca de uma hora da capital. — Ele também precisa garantir a unidade e a harmonia no país, levando em consideração todos os setores.
O presidente Paudel, que empossou Karki, declarou no sábado à noite que “uma solução pacífica foi encontrada por meio de um processo difícil”.
Desde que a situação política se estabilizou, soldados reduziram sua presença nas ruas, onde haviam sido destacados em grande número após os protestos. Mas mais de 12.500 prisioneiros que fugiram das cadeias durante o caos continuam foragidos, o que ainda representa um grande problema de segurança para o país.
- Veja fotos e vídeo: Redes sociais voltam a funcionar no Nepal após protestos que deixaram 19 mortos
Os líderes regionais parabenizaram Karki, incluindo os dois gigantes vizinhos do Nepal, Índia e China. O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, disse que Nova Délhi apoia “a paz, o progresso e a prosperidade” no Nepal, de maioria hindu, enquanto o Ministério das Relações Exteriores de Pequim afirmou que deseja “impulsionar as relações entre a China e o Nepal de forma constante”.
O budismo é a segunda maior religião do país. Dalai Lama, líder espiritual tibetano exilado, desejou a Karki “todo o sucesso na realização das esperanças e aspirações do povo do Nepal nestes tempos difíceis”.