Uma onda de livrarias como objetos de experimentação arquitetônica invadiu a China nos últimos anos. Com design espetacular, entre o onírico e o cinematográfico, muitas entraram no roteiro turístico dos chineses — menos pelos livros que expõem, e mais como pano de fundo para fotos publicadas em mídias sociais. Há projetos de estilos variados, mas as livrarias chinesas, novas e antigas, têm um elemento em comum: todas contam com um espaço em destaque dedicado às obras do presidente Xi Jinping, geralmente na entrada.
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A principal delas é “A governança da China”, que está em seu quarto volume. Reunindo artigos e discursos do líder chinês, ganhou versões em outros sete idiomas, incluindo o português. A série tem presença farta e constante nas estantes disponíveis ao público chinês, mas há muito sobre a personalidade de seu autor que permanece um mistério, sobretudo se considerada sua importância. “O homem mais poderoso do mundo”, estampou em sua capa a revista britânica “The Economist”, resumindo sua influência doméstica e no exterior.
Um livro que será lançado na próxima semana não chega exatamente a suprir a escassez de biografias de Xi Jinping, mas dá um passo atrás na história do líder chinês na tentativa de entendê-lo. Em “The Party’s Interests Come First” (“O interesse do partido vem primeiro”), o pesquisador americano Joseph Torigian mergulha na vida do pai do presidente, Xi Zhongxun. Ele esteve na linha de frente do Partido Comunista da China por mais de sete décadas, desde seus primórdios na década de 1930 até a abertura econômica dos anos 1980. Nessa caminhada, caiu em desgraça e foi reabilitado, sem nunca abdicar da lealdade ao PC.
Xi Zhongxun nasceu na província de Shaanxi, berço da civilização chinesa, em 1913, dois anos após o fim do sistema dinástico que predominou por séculos. Naquela época, a região tinha vivido anos de guerra, fome e desordem. As contradições do momento favoreciam a formação de pensamentos extremos, diz Torigian, professor da American University: por um lado, o rico legado cultural; por outro, uma realidade caótica de guerras que pareciam não ter fim.
Como muitos de sua geração, a vida de Xi Zhongxun foi marcada por tragédias. Atraído pela causa comunista, foi preso ainda adolescente e duas de suas irmãs morreram de fome. Depois da guerra civil, o pai do atual presidente subiu rápido na hierarquia comunista, entrando “no topo do governo”, descreve Torigian. Mas seu histórico de herói revolucionário não foi suficiente para protegê-lo dos expurgos promovidos pelo líder comunista, Mao Tsé-tung. Passou 16 anos no ostracismo, parte deles atrás das grades, na solitária. Só foi reabilitado em 1978, quando Mao já estava morto.
Mas manteve-se fiel ao PC até morrer, em 2002. Dez anos depois, seu filho se tornou o líder supremo do país e hoje é considerado mais poderoso até que Mao. Segundo Torigian, um dos enigmas da história de pai e filho é como as tragédias pessoais desencadeadas pela ligação com o PC não abalaram as convicções ideológicas de ambos, ao contrário, só as reforçaram.
— A pergunta é, quando o sofrimento leva à dedicação e quando ele leva à alienação? Ao menos no caso de Xi Jinping, sabemos que o sofrimento levou à dedicação. Para ele, as adversidades vividas por seu pai e pela geração que fundou a China moderna servem para justificar a causa maior, que foi romper com milênios de ciclos dinásticos e manter viva a chama da revolução — diz Torigian.
É improvável que o livro seja publicado na China, admite ele. Mas pergunto se sua pesquisa foi o primeiro passo para produzir uma biografia de Xi Jinping, que afinal é o sujeito oculto de seu livro sobre o pai, Xi Zhongxun. Após dez anos dedicados a este último trabalho, a sensação é de que poderia escrever um novo livro somente contando como foi preparar essa biografia, diz Torigian. Por enquanto ele não pensa em uma biografia do atual líder chinês. Mas deixa aberta a possibilidade. Afinal, a história ainda está acontecendo.
— Muito da vida dele continua sendo um mistério — diz o pesquisador. — Quando eu penso em tudo o que eu precisaria fazer para fazer justiça a essa história, me dá tonteira. Mas talvez eu volte à ideia daqui a alguns anos.
