Fora das câmeras, o primeiro debate da eleição para o governo de São Paulo entre Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) terminou com um mal-estar com o prefeito Ricardo Nunes (MDB), que entrou no palco assim que a transmissão se encerrou para cobrar explicações de Haddad. Os bastidores tiveram ainda marqueteiros que davam conselhos em “cadeiras de técnicos” e risos irônicos dos aliados na plateia a certas afirmações dos candidatos no palco.
A irritação de Nunes se deu no último bloco do debate, quando o candidato petista disse que o prefeito “está endividando a cidade” e fazendo “contrato de Wi-Fi para desviar dinheiro para o PCC e para fazer filme para Jair Bolsonaro”. Assim que o debate terminou, Nunes saiu da plateia e foi em direção ao púlpito onde estava Haddad, para tirar satisfações sobre a fala no debate.
— Esse que você chama de melhor prefeito de São Paulo realmente é uma coisa incrível. Com R$ 80 bilhões em caixa com o fim da dívida, o cara já está endividando a cidade em R$ 50 bilhões. E ainda com contrato de wi-fi para ser desviado dinheiro pro PCC, uma parte, e para fazer o filme do Bolsonaro, por outra – disse Haddad no debate.
O candidato do PT se referia ao contrato R$ 108 milhões para instalação de wi-fi firmado pelo governo Nunes com o Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido pela dona da produtora do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Bolsonaro que recebeu dinheiro de Vorcaro. A declaração foi uma resposta a Tarcísio, que chamou Nunes de “melhor prefeito da história da cidade de São Paulo” — o que provocou risos na plateia, seguidos de aplausos de apoiadores do prefeito.
Nunes subiu ao palco após o final da transmissão e pediu que o candidato tivesse “responsabilidade”, e chegou a tocar no braço de Haddad, enquanto o advogado Marco Aurélio Carvalho e o marqueteiro Otávio Antunes, ligados ao petista, tentavam acalmar os ânimos. Integrantes da campanha do ex-ministro da Fazenda se irritaram com a situação. O prefeito, por sinal, entrou no estúdio ao lado de Marco Aurélio Carvalho, e os dois estavam davam risadas juntos.
Risos e ‘cadeira de técnico’
Na entrada e na saída, Haddad e Tarcísio também se cumprimentaram amistosamente, com um abraço. Durante o debate, a plateia, composta por convidados dos dois candidatos, aplaudiu e reagiu com risadas às declarações dos candidatos. No primeiro bloco, Haddad falou que “Derrite bagunçou a segurança pública”. O ex-secretário de Tarcísio, que estava na plateia, deu risada.
Os dois lados da plateia se manifestaram mais ruidosamente, contrariando as regras do debate, quando Tarcísio afirmou que Haddad teria subido ao palco na favela do Moinho, no Centro, durante uma ação para a remoção da favela, junto de uma traficante. Nesse momento, partidários de Tarcísio aplaudiram. A “réplica” ocorreu em seguida, quando Haddad disse que não conhecida a acusada porque “não tinha a mesma intimidade” de Tarcísio com o tráfico e pediu que ele “abaixasse a bola” — e foi a vez de aliados do petista aplaudirem.
Houve também reações quando Haddad disse que foi ele quem renegociou a dívida de São Paulo “na época da presidente Dilma Rousseff” — nessa hora, Nunes e assessores de Tarcísio deram risada.
Além da divisão da plateia, com partidários de Haddad à direita e de Tarcísio à esquerda, cada campanha teve garantidas “duas cadeiras de técnicos”, em frente a dois telões. Eram destinadas a dois assessores, para que pudessem acompanhar o debate com mais atenção. Do lado do governador, estava o marqueteiro Pablo Nobel e sua coordenadora de imprensa. Do lado do petista, o marqueteiro Otávio Antunes e outro integrante da comunicação.
No terceiro bloco, em que ambos dispunham de 20 minutos cada um, Otavio Antunes sinalizou duas vezes para que Haddad interrompesse uma fala, para forçar o governador responder sobre o recente acidente de trens da CPTM. Ao se prolongar por mais um minuto e meio’, Haddad mudou de assunto e livrou Tarcísio de responder sobre os trens, como queria o marqueteiro.
Como convidados, além das equipe, estavam os integrantes das chapas: Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) do lado do Haddad; André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP) do outro. Também foram os candidatos a vices Márcio França (PSB) e Felício Ramuth (MDB).
O debate
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que concorre à reeleição, e Fernando Haddad (PT), ex-ministro da Fazenda do governo Lula, se enfrentaram no primeiro debate das eleições de 2026 ao Executivo paulista neste domingo (9), iniciado às 20h, na TV Band. Eles foram os únicos candidatos presentes, por conta da regra que garante participação apenas a partidos e coligações com mais de cinco representantes no Congresso.
Os principais temas do início do debate foram a segurança pública, o crime organizado — com embates sobre o Primeiro Comando da Capital (PCC) — e o escândalo do Banco Master. Além disso, os concorrentes travaram discussões sobre Jair Bolsonaro e a gestão do presidente Lula (PT), e Tarcísio chegou a dizer que Haddad estava “muito focado em Bolsonaro” e que “isso foi em 2018, já passou”.
No primeiro bloco, Tarcísio afirmou que deu “fim à Cracolândia” durante o mandato — o governador dispersou o fluxo antes concentrado no centro de São Paulo, onde uma praça foi inaugurada este ano pela prefeitura com discursos críticos a Haddad e ao presidente Lula. Tarcísio indagou o adversário sobre o programa “De Braços Abertos”, implementado por Haddad quando ele era prefeito de São Paulo.
— Por que o programa “De Braços Abertos” não deu certo? E, se eleito, você se compromete a continuar o trabalho que foi feito? — indagou o candidato do Republicanos.
Haddad falou que um prefeito deve “cuidar de pessoas doentes” e afirmou que o projeto de sua gestão não tinha como enfoque a segurança pública, já que essa é uma atribuição das polícias.
— O programa “De Braços Abertos” não tinha a capacidade de enfrentar o tráfico de drogas, que era um problema da polícia. Dois terços da população atendida pelo programa deixou de consumir o crack ou diminuiu bastante. Você tem dificuldade de reconhecer o mérito de outras pessoas — falou.
O programa consistia em oferecer acomodação em hotéis, refeição e opção de trabalho de zeladoria, com pagamento de R$ 15 por dia a dependentes químicos, sem que fosse exigido a interrupção do consumo de drogas. A ideia era convencer o usuário a procurar tratamento, numa política descrita como “redução de danos”.
Apesar de mencionar o projeto no debate, Tarcísio evitou usar o termo pejorativo “bolsa crack”, como costumam fazer os seus aliados de campanha.
Segurança pública
Haddad procurou trazer o tema da segurança pública ao debate, partindo dos casos de feminicídio. Ele sustentou que existe uma discrepância entre a realidade do estado e do país.
— O feminicídio em São Paulo, só no primeiro semestre deste ano, que é o último ano do seu governo, cresceu 10%, contra uma queda de 2,5% no país.
De acordo com um painel organizado pelos ministérios da Justiça e das Mulheres, o Brasil registrou 741 feminicídios no primeiro semestre deste ano, contra 760 no mesmo período de 2025, redução de 2,5%. Em São Paulo, o mesmo levantamento aponta acréscimo de 10% nesse tipo de crime, avançando de 129 para 142.
Tarcísio se defendeu como a criação do protocolo “Não Se Cale” e do “Espaço Lilás” nas unidades da Polícia Militar (PM), afirmando que a rede de proteção foi ampliada.
— A gente está buscando os agressores, atuando preventivamente. E nós estamos, já no segundo mês consecutivo, com redução dos indicadores. Isso mostra que a política pública está funcionando — rebateu Tarcísio.
Ainda no tema, Haddad citou as suspeitas de ligação de policiais com o PCC. Ele citou o caso do ex-comandante-geral da PM de São Paulo coronel José Augusto Coutinho, que deixou o cargo após ser citado em um inquérito da Corregedoria da Polícia Militar que apura a atuação de policiais militares na escolta de uma empresa de ônibus ligada ao PCC.
Tarcísio refutou com dados da Secretaria da Segurança Pública que mostram a queda nos indicadores criminais, citou operações da Polícia Civil paulista contra a facção criminosa e mencionou a prisão de um correligionário de Haddad, o vereador da capital paulista Senival Moura (PT), por suspeita de envolvimento com a Transunião, empresa de ônibus acusada de lavar dinheiro para o PCC.
— Nós temos o menor indicador de homicídios, de latrocínios e roubos e furtos de toda a história. Nunca tivemos tão pouco roubo de carga — argumentou Tarcísio.
Quando Tarcísio defendia um time “técnico” na composição de governo, Haddad aproveitou para alfinetar o ex-secretário estadual de Segurança Pública, Guilherme Derrite (PP). Informações nos bastidores que dão conta de que Tarcísio teria ficado insatisfeito com a participação do aliado no governo, mas ele agora concorre ao Senado pela chapa.
— O Derrite foi técnico? — perguntou Haddad.
— Vamos aos números, né? Derrite entregou menor taxa de homicídio, a menor taxa de latrocínio — o governador passou a enumerar, em um aceno ao companheiro que estava na plateia.
Houve ainda um embate sobre onde se originou a operação “Carbono Oculto”, com o candidato do Republicanos mencionando as polícias de São Paulo e Haddad atribuindo ao Ministério Público, órgão independente do Executivo.
Tarcísio e Haddad no debate da Band, neste domingo — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo
Tarcísio e Haddad no debate da Band, neste domingo — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo
‘Você tem vergonha de Bolsonaro?’
Os dois discutiam sobre medidas do governo federal que beneficiaram São Paulo, como a renegociação da dívida estadual com a União por meio do Propag, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro foi trazido ao debate. Haddad acusou o governo anterior de não liberar recursos ao ex-governador paulista João Doria, que era seu desafeto político, além de dar um “calote” nos governadores ao limitar a cobrança de ICMS dos combustíveis.
— Você assumiu no lugar do Doria. A primeira audiência que você teve comigo foi para cobrar o calote que o governo do qual você fez parte deu no estado de São Paulo. Em 30 de março daquele mesmo ano, de 2023, nós assinamos o acordo para reparar o mal que o teu governo federal do Bolsonaro fez para todos os governadores — indagou o petista.
Tarcísio então criticou o adversário pela menção ao ex-presidente.
— Você está muito focado em Bolsonaro, Bolsonaro, você não está concorrendo com o Bolsonaro, isso foi em 2018, já passou — disse Tarcísio.
— Você tem vergonha do Bolsonaro? — Haddad aproveitou o gancho.
— Não tenho vergonha não, tenho gratidão. Um abraço Bolsonaro, vou agradecer sempre ao que você fez na minha vida — respondeu o governador.
Caso Master
Ao final do primeiro bloco, Tarcísio mudou o tema para economia, questionando “qual conselho” Haddad daria para o presidente da República em relação à responsabilidade fiscal e ao corte de gastos. A essa altura, tinha o banco de tempo a seu favor, o que colocou Haddad em uma situação desconfortável para defender o governo Lula.
Haddad então preferiu o contra-ataque, citando o caso Master, escândalo de fraudes financeiras que trouxe o banqueiro Daniel Vorcaro ao centro das eleições brasileiras:
— De não colocar o Roberto Campos no BC nunca mais. O Bolsonaro colocou o Roberto Campos e, no último ano dele, ele entregou uma taxa de 14,25% para ser administrada pelo seu sucessor, e entregou o maior escândalo de corrupção da história do BC, o Banco Master. Que foi liquidada no governo Lula. É isso que eu não faria nunca mais — falou.
Tarcísio evitou responder sobre o tema, e voltou a falar do gasto público:
– Quer dizer que você desconsidera a questão do gasto público? A gente está desconsiderando que está caminhando para uma recessão. Você realmente não tem nenhum conselho para dar para o presidente da República? A gente continua com a produtividade baixa, situação problemática. Estamos caminhando para aquilo que vimos no governo Dilma Rousseff – respondeu.

