O baterista Pedro Gil, filho mais velho do cantor e compositor Gilberto Gil, estava chegando de viagem na madrugada de uma quinta-feira, dia 25 de janeiro de 1990, quando sofreu um acidente grave. Por volta das 4h da madrugada, o músico de 19 anos perdeu o controle de seu carro, um modelo Parati CL, que se chocou em duas árvores na Avenida Epitácio Pessoa, na Lagoa, Zona Sul do Rio. O motorista foi socorrido logo em seguida por dois policiais militares que haviam acabado de ultrapassá-lo em uma viatura e voltaram de ré depois de ouvir as colisões. O carro do músico estava destruído.
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Os agentes encontraram Pedro inconsciente. Ele foi internado em estado de coma, com uma grave contusão cerebral, e ficou hospitalizado durante nove dias, até falecer, em 2 de fevereiro de 1990. Mais de 35 anos depois, seu pai, um dos maiores nomes da MPB, hoje integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL), relembrou a tragédia em entrevista exibida no programa “Fantástico”, da Globo, no último domingo, dias após perder Preta Gil, que também era filha dele com a ex-mulher, Sandra Gadelha. “Os meninos nascem para enterrar a gente. Fica esquisito a gente ter que enterrar os filhos”, lamentou.
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Pedro nascera em Londres, em 1970, quando Gil estava exilado na capital britânica após ficar meses preso de forma arbitrária na ditadura militar. Apaixonado por música, o menino tocou bateria com o pai na primeira edição do Rock in Rio, em 1985. Mais tarde, entrou para a banda Egotrip, que chegou a ter uma música na trilha sonora da novela “Mandala”, de 1987. No dia 25 de janeiro de 1990, o baterista chegava de São Paulo, onde se apresentara no festival Hollywood Rock com seu grupo, e deveria fazer um show na edição carioca do evento, mas o acidente interrompeu essa trajetória pra sempre.
De acordo com os PMs que ajudaram o baterista naquela madrugada, a tragédia aconteceu depois que ele adormeceu ao volante, a cerca de 100 metros da Curva do Calombo, um local na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas onde eram frequentes os acidentes de trânsito violentos. A primeira árvore na qual a Parati do músico se chocou foi arrancada do chão pela brutalidade do impacto. O teto da Parati foi esmagado. As valises com as peças da bateria do motorista foram lançadas na rua e na calçada. Foi um acidente tão violento que alguns moradores da Avenida Epitácio Pessoa desceram para ver.
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Ainda segundo os agentes que prestaram os primeiros socorros, Pedro estava ouvindo música com um antigo aparelho walkman, usando fones de ouvido, no momento do acidente. As hastes dos fones foram encontradas perto do carro, quebradas e manchadas de sangue.
Em estado de coma profundo, Pedro foi levado para o Hospital Miguel Couto, no Leblon, que realizava uma greve de 24 horas quando o músico chegou. Os profissionais de saúde no local disseram que a unidade não tinha equipamentos para fazer exames de tomografia computadorizada. Segundo eles, o baterista deveria ser levado para o Hospital Souza Aguiar. A família, porém, optou por internar o rapaz no Hospital da Beneficência Portuguesa, uma unidade particular, onde o primogênito de Gilberto Gil foi atendido pelo conhecido neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho.
Depois de constatar um volumoso hematoma intracraniano, o médico realizou uma cirurgia de duas horas para drenar o coágulo que pressionava o cérebro de Pedro. A partir de então, o estado de saúde do paciente deu alguns sinais de evolução favorável, mas ele não chegou a sair do coma.
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Quando Pedro Gadelha Gil Moreira partiu, era uma sexta-feira 2 de fevereiro, Dia de Iemanjá. Logo após a confirmação do óbito pelos médicos, o corpo dele foi coberto por um lençol fino e branco e removido para a capela do hospital, onde estavam a mãe, Sandra, a tia Léa Gadelha, e as irmãs Marilia, Nara, Maria e Preta, além da cantora Gal Costa e a tia Dedé Gadelha, ex-mulher de Caetano Veloso. Quase todas vestidas de branco. Muito abalado, sem querer dar entrevista, Gilberto Gil preferiu ficar recolhido em um quarto da Beneficência Portuguesa até que o corpo do filho fosse levado para o velório.
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A Capela Real Grandeza, do Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio, ficou repleta de artistas, parentes e pessoas próximas de Pedro. O compositor Jards Macalé, amigo da família Gil, cantarolava, bem baixinho, versos da música “A Mãe D’Água e a Menina”, de Dorival Caymmi, apenas mudando o gênero para “E a mãe d’´água levou o menino…”. Gilberto Gil chegou no velório acompanhado da mulher, Flora, e dos amigos Antônio Grassi e Lilibeth Monteiro de Carvalho. Com lágrimas nos olhos, ele tentou colocar em palavras a dor que estava sentindo:
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“É difícil falar sobre a morte e, principalmente, falar da morte de um filho amado. Posso dizer que nesta hora de muita tristeza, faço uma reflexão do que foi o convívio com uma criatura tão querida. Um ser que viveu inteiramente em paz com a família, com os amigos e o mundo. Apesar de ter vivido pouco, meu filho alcançou muita coisa porque soube viver com dignidade. Estou chocado e ao mesmo tempo tranquilo pela beleza que foi sua vida. A tristeza, embora dura, também nos traz paz. Ele viveu pouco, mas com honradez. Isso tudo fará com que possamos sempre lembrá-lo com muita paz”.
“Foi-se o meu filho, mas para mim será sempre o Pedro, o meu Pedro. Hoje é Dia de Iemanjá. Ele se foi, com Iemanjá”, desabafou o célebre cantor baiano, que tinha então 47 anos.
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