Estudar, se formar, conseguir um emprego. Um bom emprego, de carteira assinada. Chegar às nove, sair às seis. Fazer hora extra para ganhar mais, se esforçar para conseguir a promoção. Até ontem, lembro bem, esse era o sonho.
O texugo do mel e a eleição
Não mais. A carteira assinada parece ter se tornado coisa do passado. Os jovens querem “virar a chave”: ser empreendedores, trabalhar onde e quando der vontade. Ser o próprio patrão. Querem cuidar do seu próprio negócio, ser CEOs do seu destino, “desbloquear o seu potencial”. Devem estar certos, são jovens.
Ninguém acha que está errado aos 20 anos. Lembro disso também. Talvez ser empregado de carteira assinada seja mesmo um sonho do passado. A CLT, dizem, ficou para trás.
Mas só no trabalho?
Ficantes, conversantes, contatinhos. Nada muito firme, nada muito seguro. Hoje é você. Amanhã, não sei. Se funciona, seguimos; se não, deixa pra lá: próximo! Se isso não é pejotização, não sei mais o que é. Sofrer por amor virou coisa do passado: pra quê? Se um vai, logo chegará outro, ainda a tempo de um date no sábado à noite. Basta organizar bem: tem o Tinder, tem o Bumble, tem a DM do Instagram. É preciso conhecer gente, rolar perfis, fazer a fila andar.
Tem que despejar Rivotril nas águas do Guandu
O amor virou assunto para empreendedores. Saiu Vinicius de Moraes, entrou o coach de palco. Os sonetos foram substituídos por emojis: de foguinho, de diabinho, até de berinjela. Funciona, dizem.
Onde só se tinha olhos para o outro, agora é de bom tom focar em si mesmo. É preciso ter a terapia em dia e cultuar o autocuidado: se não performar com competência, a startup — quer dizer, a relação — não vinga. Tem que se proteger do ghosting, que nada mais é do que uma demissão sem aviso prévio. A vertigem da paixão, que em outros tempos seria um contrato de experiência, agora é uma red flag para os investidores: melhor tomar um Dramin e seguir o seu caminho. Desviar, sim, dos emocionados e dos intensos, que estes são passionais, arriscados demais para qualquer empreendimento. Não têm o mindset necessário para um relacionamento de high ticket.
Mas e a CLT no amor, onde foi parar? Existe reciclagem para carteiras de trabalho afetivas? O coach manda sair da zona de conforto. E quem gosta de morar nela?
Fico feliz com a alegria dos jovens empreendedores, mas sou velho o suficiente para ter percebido que muitas vezes as coisas não são como os coaches prometem e que nem todos têm vocação para Elon Musk. Às vezes, é melhor um salário na mão do que um monte de dívidas voando.
O dia seguinte no grupo de zap
Também fico feliz com a leveza das relações atuais: ninguém mais perde o chão ou quebra a cara. Deve ser bom e ainda evita rugas e cabelos brancos. Porém, já percebi que o frenesi do sábado à noite pode se esvair no domingo de manhã, e que, às vezes, numa quarta-feira de chuva, depois do Jornal Nacional, ter alguém ao lado para conversar sobre aquela viagem tão sonhada é um privilégio.
O autocuidado é importante e ter uma agenda cheia de contatinhos é útil para quem “não gosta de rótulos”, mas acho que escolher um sofá novo a dois, ler o jornal de domingo juntos na cama ou ter alguém para segurar a mão na hora da notícia ruim pode ser tão bom quanto rolar infinitamente a tela do Tinder.
Pensando bem, quem sou eu para dar opinião?
Só um CLT do amor, nada mais. Somos poucos, cada vez menos, mas basta um par para que a gente não desapareça de vez.
O amor virou assunto para empreendedores: saiu Vinicius de Moraes, entrou o coach de palco
