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novembro 4, 2026
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O amor virou assunto para empreendedores: saiu Vinicius de Moraes, entrou o coach de palco

Por · novembro 4, 2026
O amor virou assunto para empreendedores: saiu Vinicius de Moraes, entrou o coach de palco


Estudar, se formar, conseguir um emprego. Um bom emprego, de carteira assinada. Chegar às nove, sair às seis. Fazer hora extra para ganhar mais, se esforçar para conseguir a promoção. Até ontem, lembro bem, esse era o sonho.
O texugo do mel e a eleição
Não mais. A carteira assinada parece ter se tornado coisa do passado. Os jovens querem “virar a chave”: ser empreendedores, trabalhar onde e quando der vontade. Ser o próprio patrão. Querem cuidar do seu próprio negócio, ser CEOs do seu destino, “desbloquear o seu potencial”. Devem estar certos, são jovens.
Ninguém acha que está errado aos 20 anos. Lembro disso também. Talvez ser empregado de carteira assinada seja mesmo um sonho do passado. A CLT, dizem, ficou para trás.
Mas só no trabalho?
Ficantes, conversantes, contatinhos. Nada muito firme, nada muito seguro. Hoje é você. Amanhã, não sei. Se funciona, seguimos; se não, deixa pra lá: próximo! Se isso não é pejotização, não sei mais o que é. Sofrer por amor virou coisa do passado: pra quê? Se um vai, logo chegará outro, ainda a tempo de um date no sábado à noite. Basta organizar bem: tem o Tinder, tem o Bumble, tem a DM do Instagram. É preciso conhecer gente, rolar perfis, fazer a fila andar.
Tem que despejar Rivotril nas águas do Guandu
O amor virou assunto para empreendedores. Saiu Vinicius de Moraes, entrou o coach de palco. Os sonetos foram substituídos por emojis: de foguinho, de diabinho, até de berinjela. Funciona, dizem.
Onde só se tinha olhos para o outro, agora é de bom tom focar em si mesmo. É preciso ter a terapia em dia e cultuar o autocuidado: se não performar com competência, a startup — quer dizer, a relação — não vinga. Tem que se proteger do ghosting, que nada mais é do que uma demissão sem aviso prévio. A vertigem da paixão, que em outros tempos seria um contrato de experiência, agora é uma red flag para os investidores: melhor tomar um Dramin e seguir o seu caminho. Desviar, sim, dos emocionados e dos intensos, que estes são passionais, arriscados demais para qualquer empreendimento. Não têm o mindset necessário para um relacionamento de high ticket.
Mas e a CLT no amor, onde foi parar? Existe reciclagem para carteiras de trabalho afetivas? O coach manda sair da zona de conforto. E quem gosta de morar nela?
Fico feliz com a alegria dos jovens empreendedores, mas sou velho o suficiente para ter percebido que muitas vezes as coisas não são como os coaches prometem e que nem todos têm vocação para Elon Musk. Às vezes, é melhor um salário na mão do que um monte de dívidas voando.
O dia seguinte no grupo de zap
Também fico feliz com a leveza das relações atuais: ninguém mais perde o chão ou quebra a cara. Deve ser bom e ainda evita rugas e cabelos brancos. Porém, já percebi que o frenesi do sábado à noite pode se esvair no domingo de manhã, e que, às vezes, numa quarta-feira de chuva, depois do Jornal Nacional, ter alguém ao lado para conversar sobre aquela viagem tão sonhada é um privilégio.
O autocuidado é importante e ter uma agenda cheia de contatinhos é útil para quem “não gosta de rótulos”, mas acho que escolher um sofá novo a dois, ler o jornal de domingo juntos na cama ou ter alguém para segurar a mão na hora da notícia ruim pode ser tão bom quanto rolar infinitamente a tela do Tinder.
Pensando bem, quem sou eu para dar opinião?
Só um CLT do amor, nada mais. Somos poucos, cada vez menos, mas basta um par para que a gente não desapareça de vez.

O amor virou assunto para empreendedores: saiu Vinicius de Moraes, entrou o coach de palco