Acompanhando a destruição do Morro de Santo Antônio, no Centro, parte da população olhava com desconfiança o erguimento de mais um aterro na cidade. As promessas do então governador Carlos Lacerda estavam distantes da timidez. Na concepção da arquiteta Maria Carlota Soares, a Lota, o Aterro do Flamengo deveria entrar na esteira de construções capazes de contribuir para a melhora do já caótico tráfego e, claro, ser um gigantesco parque ao ar livre, permitindo que o visitante praticasse esportes, frequentasse a belíssima Praia do Flamengo e interagisse com a natureza. Um dos mais importantes paisagistas mundiais, Roberto Burle Marx, o mesmo dos traços modernos do icônico calçadão de Copacabana, assinou o projeto. São mais de 10 mil árvores de centenas de espécies nativas e exóticas em um espaço de 1 milhão de metros quadrados.
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No aniversário de 400 anos do Rio, em 1965, o Aterro estava inaugurado. Faltavam alguns detalhes finais, mas nada que apagasse a festa. Os altos postes de luz impressionavam. Virou febre. Pessoas de outros cantos do país vinham para cá ver de perto as maravilhas. Monumentos emblemáticos, como o em homenagem aos pracinhas mortos na Segunda Guerra Mundial, involuntariamente se tornaram pontos turísticos. Se hoje há fotos para as redes sociais, no período a turma gastava um dinheiro com revelação para não perder os momentos únicos nesse cantinho do Rio que merece sempre mais atenção. Nessa semana, uma polêmica tomou conta da região: denúncias de derrubadas de árvores para a instalação de um posto de recarga de automóveis elétricos, com direito a showroom ( concessionária, para os mais atentos) de uma montadora. A pressão popular foi enorme. O Iphan agiu. E a Prefeitura, conscientemente, reviu. O Aterro não é qualquer paisagem.
Apesar de poucos se atentarem, o parque recebe o nome do brigadeiro Eduardo Gomes, militar candidato à presidência da República na década de 1940 e que teria inspirado a criação do doce… brigadeiro. Para apoiá-lo, senhoritas simpatizantes inventaram o doce e distribuíam nas reuniões onde o militar estava, além de venderem e conseguirem fundos para a campanha. O slogan do rapaz em 1945 era o inacreditável “Vote no Brigadeiro, que é bonito e solteiro”.
E o Aeroporto Santos Dumont?
Chegar ao Rio pelo Aeroporto Santos Dumont já é um privilégio. Pegar uma condução e acompanhar o Aterro é um encontro com a maravilha. Construído em 1936, o Santos Dumont tornou-se o primeiro grande aeroporto civil do país. A pista, avançando sobre a Baía de Guanabara, tornou-se marca registrada do aeroporto. A proximidade da água e a curta área de operação chamam a atenção dos passageiros. A ponte aérea Rio–São Paulo foi inaugurada em 1959.
No saguão principal, um dos destaques é o painel monumental do artista Cadmo Fausto, que retrata a evolução da aviação. A obra foi seriamente danificada pelo incêndio que atingiu o terminal em 1998, mas passou por um processo de restauração que contou com a participação do artista acreano Sansão Pereira. Antes de se encantar com o Aterro, dê uma olhadinha. Vale a pena.
A vista do Morro da Viúva
Escondido entre prédios e árvores do Flamengo, o Morro da Viúva oferece uma das vistas mais impressionantes da Zona Sul carioca. Para chegar ao topo, é preciso vencer 195 degraus. O esforço é recompensado por um panorama privilegiado da baía, do Pão de Açúcar e do Aterro do Flamengo.
O nome do morro remonta ao século XVIII. Em 1753, a área passou para as mãos de dona Joaquina Figueiredo Pereira Barros, viúva de Joaquim José Gomes de Barros, que deixou a propriedade como herança. A partir de então, o local ficou conhecido como Morro da Viúva. Antes disso, era chamado de Morro do Léry, em referência ao missionário protestante francês Jean de Léry, que esteve na região durante o período da França Antártica.
Além da beleza natural, o Morro da Viúva desempenhou papel estratégico na defesa da cidade. Durante a chamada Questão Christie, crise diplomática entre Brasil e Reino Unido na década de 1860, a área recebeu instalações militares preparadas para enfrentar uma possível ação britânica. O conflito teve origem em um incidente envolvendo um navio inglês e marinheiros britânicos acusados de promover desordens em território brasileiro.
Décadas mais tarde, o morro voltaria a ganhar importância militar durante a Revolta da Armada. Entre 1891 e 1894, setores da Marinha se insurgiram contra os governos de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, transformando a Baía de Guanabara em palco de confrontos e levando à fortificação de diversos pontos estratégicos da cidade, entre eles o Morro da Viúva.

