Você está rolando a tela para cima e se depara com vários vídeos de mulheres crespas e cacheadas que decidiram voltar a alisar os cabelos. Mulheres que desistiram da transição capilar ou que já passaram por esse processo há alguns anos. Estão unidas agora por outro fator em comum: a preferência por usar os fios lisos novamente.
De acordo com dados do Google Trends, as buscas por “cabelos lisos” cresceram 119% nos últimos meses. A informação coincide com o que se vê nas redes sociais, onde cresce o número de depoimentos de mulheres negras que optaram por alisar os fios novamente — não por uma rejeição aos cabelos naturais, mas por cansaço. O tempo, o custo e a ausência de produtos específicos para cuidar de cabelos crespos e cacheados são alguns dos motivos mais citados.
Apesar de 55% da população brasileira se declarar preta ou parda, a indústria da beleza ainda não atende plenamente esse público. Os produtos para cabelo seguem, majoritariamente, voltados a texturas lisas ou levemente onduladas. O resultado é que muitas mulheres, mesmo após passarem anos cultivando os fios naturais, optam por voltar à química.
Para a médica e apresentadora Thelminha Assis, essa mudança revela camadas complexas. — Eu vejo essa mudança como um reflexo complexo de vários fatores, mas não dá pra negar que ainda existe uma pressão estética muito forte, atravessada pelo racismo, que influencia as escolhas das mulheres sobre seus próprios corpos, inclusive o cabelo — afirma.
— A praticidade é um argumento legítimo, mas a gente precisa olhar com atenção para o que está por trás disso — completa.
Thelma fala com propriedade. Durante muito tempo, usou química para alisar os cabelos. Sentiu na pele as dores físicas e emocionais que vinham com o processo.
— Por muito tempo achei que havia algo errado com o meu cabelo, simplesmente porque ele não se encaixava no padrão que a sociedade exaltava. Usei química tentando ‘corrigir’ algo que nunca esteve errado — e, além da dor física no couro cabeludo, carregava uma dor emocional ainda maior, a de me distanciar de quem eu realmente era — comenta.
Ela lembra que assumir o cabelo natural exigia tempo, dedicação e recursos que nem sempre estavam ao alcance. — Hoje vivemos um avanço enorme quando o assunto é produto para cabelo, especialmente para fios crespos e cacheados, mas eu sou de uma época em que ia ao supermercado e simplesmente não encontrava nada que fosse realmente feito pro meu tipo de cabelo e isso não era só frustrante, era limitador — diz.
A limitação ainda é real para muitas mulheres negras. Produtos especializados têm preço elevado, rotinas capilares exigem horas semanais e, muitas vezes, o esforço não encontra retorno na estética valorizada pela sociedade. Esse contexto torna o alisamento uma escolha que, embora pessoal, é atravessada por pressões externas.
— Vejo essa nova onda de alisamento com atenção porque, embora toda mulher tenha o direito de escolher o que fazer com seu cabelo, não dá pra ignorar que muitas dessas escolhas ainda são pautadas por padrões. A identidade da mulher negra está 100% ligada ao cabelo e quando vemos um movimento voltando a valorizar o liso, é importante se perguntar se isso vem de um desejo pessoal ou de uma necessidade de aceitação — pontua.
Questionada sobre o que diria para uma mulher negra que está se sentindo pressionada a voltar para o alisamento, Thelma é direta.
— Eu diria: não se esqueça que seu cabelo é expressão da sua trajetória, da sua identidade, e o que carregamos de mais bonito é justamente isso. Não deixe que o peso do olhar do outro apague sua essência. A verdadeira liberdade é se ver com verdade no espelho — fala.
Ela reconhece que o desejo de praticidade é legítimo e aponta a importância de haver mais produtos que facilitem esse cuidado com o cabelo natural.
A atriz e médica também comenta sobre a cobrança pública que recebe em relação à sua aparência. — Sempre fui questionada sobre meu cabelo, seja quando estou com o cabelo natural ou quando decido mudar um pouco o estilo, como se a minha aparência fosse algo a ser constantemente validada. Mas com a maturidade aprendi a lidar com isso de uma maneira mais consciente — revela.
A pressão, para Thelma, vem de todos os lados, mas é possível navegar por esse cenário com equilíbrio. — Não posso controlar o que as pessoas pensam ou dizem, mas posso controlar o quanto me permito ser quem sou, sem me culpar por essas expectativas — diz.
O caminho para a liberdade capilar real, segundo ela, passa pela mudança na indústria da beleza.
— O que eu mais gostaria de ver no futuro é uma indústria da beleza que não trate o cabelo da mulher negra como exceção, mas como parte essencial do todo, com representatividade real — fala.
Até que isso aconteça, a escolha entre manter os fios naturais ou voltar à química seguirá sendo atravessada por um dilema entre identidade, praticidade, aceitação e cuidado.
Thelma Assis, com sua trajetória pública e pessoal, segue sendo uma das vozes que ajudam a pensar essas questões de forma ampla, sem julgar decisões individuais, mas lembrando que o corpo da mulher negra carrega histórias que vão muito além da estética.
— A escolha só é livre de verdade quando a gente se sente bem sendo quem é, sem precisar se encaixar — finaliza.
