Nem todo eleitor que diz “nem Lula, nem Bolsonaro” está dizendo a mesma coisa. A política costuma tratar esse grupo como uma única terceira via, à espera do candidato certo. Não é. Há vários “nem-nems” dentro do nem-nem.
Leia mais: Ascensão de Cury preocupa rivais na busca por furar a polarização, que contestam disparada do escritor nas redes
Política: Alcolumbre sinaliza a aliados que não cederá a novos apelos para pautar impeachment de Moraes após novas mensagens de Vorcaro
Uma parte está inconformada com a política. Acompanha, discute, compartilha, procura culpados e quer alguém disposto a enfrentar o sistema com mais força. É o eleitor da indignação. Ele não quer menos política. Quer uma política mais agressiva, capaz de traduzir em confronto a raiva que já carrega. É o terreno em que Renan Santos se movimenta melhor.
Existe, porém, uma outra e maior parcela desse eleitorado. É esse sujeito que me parece importante para entender o crescimento de Augusto Cury. Ele não está indignado. Está cansado. Cansado de Lula contra Bolsonaro, esquerda contra direita, vídeo contra vídeo, família discutindo no WhatsApp e candidato transformando qualquer assunto em guerra cultural.
Quem passa o dia organizando trabalho, boleto, filho, trânsito, segurança e o que sobrou do mês não necessariamente chega em casa procurando mais uma batalha. Para esse brasileiro, a política deixou de ser solução e virou mais uma fonte de barulho.
A Nexus oferece uma pista. Quando divide os brasileiros segundo a relação com Lula e Bolsonaro, o grupo dos não polarizados é mais de duas vezes maior que o daqueles que rejeitam simultaneamente os dois polos. Isso não prova que todos estejam exaustos. Mas mostra a diferença entre não aderir à polarização e transformar a rejeição aos polos em militância.
Um quer alguém que grite por ele. O outro quer que todo mundo fale mais baixo.
Essa diferença diz mais sobre o eleitor do que sobre os candidatos.
É nesse segundo território que Cury parece ter encontrado espaço. Não necessariamente porque suas propostas sejam mais completas ou porque tenha demonstrado mais preparo. Nas sabatinas, ocorreu o contrário em vários momentos. A vantagem é outra: a linguagem de Cury não nasceu na política.
Há mais de duas décadas, ele fala com pessoas ansiosas, pais preocupados com os filhos, professores esgotados e profissionais sobrecarregados. Seu negócio sempre foi dar nome ao desconforto, diminuir a culpa, oferecer alguma ordem e devolver esperança. Antes de pedir voto, Cury já havia aprendido a conversar com pessoas cansadas.
Ao entrar na campanha pregando diálogo e tentando baixar o volume quando o adversário aumenta o tom, ele apenas levou para a política um idioma que utiliza há anos. Isso ajuda a explicar por que medir apenas quem “ganhou” uma sabatina pode ser insuficiente. O jornalista pergunta se o candidato sabe governar. Parte do eleitorado talvez esteja fazendo uma pergunta anterior: “Eu consigo escutar esse sujeito sem querer desligar a televisão?”.
Isso não significa que Cury tenha encontrado uma fórmula mágica. Seu eleitor ainda é móvel e chegará a hora em que acolhimento terá de virar proposta, intenção terá de virar orçamento e serenidade terá de sobreviver aos ataques que certamente virão dos adversários.
Uma pesquisa não explica sozinha uma eleição. Mas talvez explique uma diferença. Renan fala com quem está bravo com a política. Cury parece falar com quem está cansado dela.
Talvez a busca pela “terceira via” tenha começado pela pergunta errada. Esse eleitor não está à procura de alguém entre dois polos. Está à procura de alguém que tire a política do centro dos problemas da sua vida.

