Há dez anos, um segurança da Rio 2016 tentou entender por que um homem baixinho, rechonchudo e rigorosamente comum provocava mais alvoroço em Copacabana do que as celebridades que carregavam a tocha olímpica antes dele. Agnaldo Rodrigues acabara de percorrer o bairro com o fogo oficial, na véspera da abertura dos Jogos, cercado por uma multidão que gritava seu nome. O segurança perguntou quem ele era.
“Sou só o churrasqueiro do bar aqui de trás.”
Naquela mesa estão faltando eles: No miolo do Maracanã, em uma encruzilhada etílica, existe um lugar que me arrepia toda vez que visito
No Leblon: Tudo novo de novo nos 70 anos do Jobi
A frase atravessou a década melhor do que boa parte das obras olímpicas. E resume uma história que começou com a ambição moderada de alguns amigos numa mesa de bar: convencer o comitê a entregar a Agnaldo, churrasqueiro do Galeto Sat’s, a missão de acender a pira no Maracanã.
Eu estava entre os culpados.
Os três quarteirões lotados de boêmios que acompanharam o tour não oficial da Tocha Olímpica por 13 bares de Copacabana
Marcelo Moutinho
A campanha Agnaldo Olímpico nasceu na fronteira entre homenagem e ironia. Agnaldo dominava o fogo, resistia bravamente às madrugadas e alimentava atletas de modalidades não reconhecidas pelo COI. Parecia mais qualificado do que muito candidato oficial. Como o convite não veio, resolvemos fazer nossa própria cerimônia.
Surgiu assim o Tour Boêmio da Tocha, um revezamento alternativo por 12 bares de Copacabana. A chama sairia do Bip Bip e seguiria de balcão em balcão até o Sat’s, onde Agnaldo acenderia a churrasqueira. As tochas, compradas na Saara, eram daquelas usadas em festas e abastecidas com querosene. O plano tinha a precisão logística de uma conversa que já ultrapassara o sétimo chope.
Leia também: É tudo ‘Nosso’ e da Ana
No dia marcado, a cidade fez o resto. O cortejo cresceu a cada parada, porque poucas modalidades mobilizam tanto o carioca quanto avistar uma aglomeração e aderir antes de perguntar o motivo. Houve escolta da PM, imprensa estrangeira, gente nas janelas e centenas de vozes cantando “Agnaldo, guerreiro, do povo cachaceiro” para um churrasqueiro cuja torcida organizada cabia, horas antes, numa mesa.
A notícia pegou o garçom Agnaldo Rodrigues de surpresa, quando estava trabalhando no restaurante Galeto Sat’s: ao ser comunicado do convite pelo Comitê Rio-2016, disse se tratar do momento mais importante de sua vida: — Nunca imaginei isso. Nem no meu melhor sonho. Só posso agradecer. Será uma honra poder viver essa que é a maior festa do esporte. Estou muito emocionado.
Marcelo Moutinho
A brincadeira constrangeu a realidade. Dias depois, o comitê organizador convidou Agnaldo a conduzir a tocha verdadeira. O olimpismo oficial, com protocolos, patrocinadores e credenciais, abriu espaço para um personagem inventado entre chopes e pães de alho. A campanha ficou longe da pira do Maracanã e encontrou um triunfo mais carioca: enfiou Agnaldo nos Jogos pela lateral, como a cidade costuma entrar nas festas para as quais não recebeu convite.
Agnaldo pertencia à madrugada. Ficava diante do fogo quando a noite já tinha gasto suas melhores desculpas e Copacabana ainda procurava galeto, coração de galinha e mais meia hora. Tinha o tipo de fama que dispensa sobrenome. Bastava dizer Agnaldo.
Convite para Tour da Tocha com Agnaldo
Divulgação
Do botequim ao pé-sujo: mais de 100 anos de balcão nas páginas do GLOBO
A vida, menos habilidosa com finais, seguiu depois da cerimônia e do fim da chama. Agnaldo deixou o Sat’s meses depois, enfrentou problemas pelo caminho, passou por outras churrasqueiras e empregos. A última notícia que tivemos era a de que trabalhava como segurança num Bob’s, a poucos metros de onde vivera seu momento mais épico. O herói olímpico inventado pela noite voltou à escala comum do dia a dia.
Dez anos mais tarde, o legado dos Jogos ainda é discutido em arenas, transportes, dívidas e ruínas. O Agnaldo Olímpico pertence a outra contabilidade. Foi uma pequena vitória do Rio sobre a solenidade e a prova de que uma cidade também escolhe quem a representa.
Agnaldo saiu do Sat’s. O Agnaldo Olímpico continua lá, diante da churrasqueira, cercado por um coro, enquanto alguém tenta descobrir quem era aquele homem.
O churrasqueiro do bar aqui de trás. Naquela noite, isso bastava.
Initial plugin text

