Sonhos de um Brasil possível ecoavam de uma pequena vila na Laranjeiras dos anos 1960. A casa 4 de um conjunto de seis casas da Rua Ipiranga, naquele bairro da Zona Sul do Rio, foi berço de uma história de amizade e de luta contra a repressão. Esta história é o mote do livro-reportagem “O grito da Ipiranga”, do jornalista Luiz Nascimento, publicado pela editora Máquina de Livros. Ele lança o trabalho hoje, em noite de autógrafos na Livraria da Travessa, em Ipanema, às 19h.
Na tal casa 4 da vila moravam a médica Maria Augusta Tibiriçá Miranda e o professor Henrique Miranda com seus quatro filhos: Aloisio, Carlos Henrique, Alice e Alberto. Filiado ao Partido Comunista, o casal era agregador e gostava da casa cheia. Com o tempo, família, amigos e agregados fizeram da residência um ponto de encontro que, entre reuniões festivas, também serviu de militância contra a ditadura militar.
— Eles cresceram ali. Participaram do movimento estudantil, se engajaram politicamente. A maioria foi presa e torturada. Três deles morreram — diz Nascimento ao GLOBO, citando os irmãos Alex e Iuri Xavier Pereira e Gastone Lúcia Beltrão, militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN), o movimento de luta armada encabeçado por Carlos Marighella. — Depois, com a anistia e reabertura, esse grupo dispersou. Foram cuidar das suas vidas, de seus estudos, suas profissões.
Mas o grupo — e aqui está o ponto de partida do livro do jornalista — se reencontrou. Em 2015, por iniciativa de Carlos Henrique Miranda, criou-se o grupo de WhatsApp “Incrível Exército de Brancaleone”, onde eles voltaram a se falar e a trocar memórias. O nome do grupo faz alusão ao filme “L’Armata Brancaleone”, de 1966, dirigido por Mario Monicelli. Do grupo, vieram os encontros por videochamada onde aqueles amigos passaram a resgatar memórias dos anos de chumbo, muitas delas difíceis de serem revisitadas. Os encontros, feitos em 2022, foram todos gravados por sugestão de Glauco de Kruse Villas Bôas. Foi Glauco quem também sugeriu a Luiz Nascimento — amigo de infância que morava ao lado da vila — que se debruçasse sobre essas histórias.
— Ele sabia do que eu estava falando porque conhecia todos os personagens dessa história. Não pensou duas vezes e topou o desafio… Um maluco (risos). O livro ficou muito bem escrito, bonito, sensível, diferente. Não é um livro de biografias, não é pra ficar discutindo ideologias, diferenças partidárias, mas é um livro sobre como essas pessoas se encontraram e como se engajaram na política e depois na luta contra a ditadura. E agora o que sobrou, no estilo “nós ainda estamos aqui”. Todos continuam a favor da liberdade, da democracia — diz Villas Bôas.
Nos encontros virtuais, houve quem tivesse dificuldade de lidar com os relatos pesados de tortura. Mas a terapia, de forma geral, fluiu e reforçou os laços entre o grupo. Eles começaram a recolher fotografias que se cruzavam com os depoimentos, numa espécie de quebra-cabeça.
— Havia pessoas que não conseguiam falar e muitos assuntos que a gente só conseguiu falar depois de muito tempo. Mas foi uma catarse coletiva mesmo. No fim das contas, foi um projeto que colocou todo o pessoal para cima. A gente não tem solução para o mundo, mas a gente não está com a cabeça arriada, não. Foi um processo difícil, mas o resultado foi muito proveitoso. E agora está todo mundo contente com o livro — avalia Villas Bôas.
Depois de passar por redações de veículos como Diário de Notícias, O Fluminense, Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil, Luiz Nascimento dirigiu o Fantástico entre 1993 e 2017. Depois da “aposentadoria”, morou um tempo em Portugal, onde lançou seu primeiro livro, de contos, “Destinos marcados” (Chiado). Foi no lançamento desta estreia na literatura que Glauco, ao prestigiar o amigo, aproveitou para lhe sugerir o que já seria sua segunda publicação. Luiz Nascimento demorou dois anos para escrever “O grito da Ipiranga”, num trabalho que ele descreve como “artesanal”.
— Eles reviveram essas histórias todas, e o Glauco me entregou os arquivos, já numa estrutura cronológica, para o meu conforto, porque foi mais fácil desenvolver os fatos. Vai numa linguagem mais jornalística, é a descrição do que aconteceu com eles nesse período — observa Nascimento. — O objetivo principal é fazer um testemunho desse período, manter a memória viva para os desavisados sobre o quanto foi torturante e sufocante esse período. O livro é um tributo à rebeldia, um grito contra a impunidade, um testemunho dessa turma sobre essa fase nefasta. Acho que foi importante para eles botarem para fora.
Hoje a tal casa 4 da vila na Rua Ipiranga tem outros proprietários, foi reformada, mas ainda está lá. Glauco Villas Bôas tem vontade de adaptar a história do grupo para um projeto audiovisual, quem sabe uma série documental para o streaming, como ele confabula. Na esteira do lançamento do livro, todos eles também planejam fazer uma roda de conversa na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em maio. No WhatsApp, o grupo “Incrível Exército Brancaleone” segue de pé, mais fortalecido do que nunca.
— As pessoas se reencontrando consigo mesmas. Foi uma oportunidade de repensar toda a nossa trajetória. Conseguimos reconstruir nossas relações de quando eramos crianças — diz Villas Bôas.

