Essa semana aconteceu um desses episódios corriqueiros. No Cruzeiro x Flamengo da Libertadores, Matheuzinho cometeu uma falta muito dura em Bruno Henrique — que caiu e se contorceu como se tivesse sido amputado. Foi meio sem querer? Talvez. Mas raspou as travas no meio da canela. Imediatamente, o grupo de mensagens acendeu:
— Vermelho!
— Pra mim não seria vermelho. Mas aqui no Brasil expulsam sempre nesses lances.
— Vermelho sem dúvida!
— O VAR não vai chamar?
— É o mesmo da final da Libertadores!
Eu ia dar minha opinião — mas percebi que seria apenas mais uma. Outro tijolinho num muro em constante construção e desconstrução. Não agregaria nada e logo seria esquecida. Todos temos opinião — e toda opinião presume um lado. Ou seria o contrário? Todo lado presume uma opinião?
Paulo César de Oliveira, ex-árbitro e comentarista de arbitragem da Globo, costuma dizer que não existem dois lances iguais. É verdade. Existem lances muito parecidos — e agora, acima de tudo, existem o print (eterno) e o recorte capaz de assombrar toda alma que um dia emitiu um juízo.
Ai daquele que ousar mudar de ideia! Ai daquele que disser azul hoje e amarelo amanhã. A fragmentação arrebentou o tecido social comum, o bom senso se desidratou, e a verdade se tornou um exercício de múltipla escolha. Como diria uma ex-assessora do governo americano: temos fatos alternativos.
PC disse que o lance era pra expulsão. Outro especialista disse que não. E daí? A discussão de arbitragem é nossa rodinha de hamster movida a viés de confirmação. Estamos ali, diariamente, correndo na esteira virtual sem sair do lugar. Torcemos a realidade a nosso favor, recheando-a de argumentos e contextos e análises pretensamente racionais. Queremos ganhar a discussão pontual e levar vantagem no debate eterno. Ficamos sarados e suados como o hamster que corre, corre e nunca sai do lugar.
Diante do erro grotesco a favor do nosso time — buscamos imediatamente um contraponto histórico, um recorte antigo. O erro contra, mesmo que mínimo, acende todos os faróis de indignação, autoriza a ira santa e permite qualquer justiçamento. Todo torcedor tem a mais absoluta certeza de que seu time é prejudicado desde que a primeira bola foi chutada na história do mundo. Você, que agora lê este texto… o que você espera dele? Que ele subscreva sua tese, forneça argumentos… ou traga alguma reflexão?
Talvez os algoritmos já estejam nos conduzindo, inflamando nossas bolhas, retroalimentando nossos vícios. Quem sabe já não estejamos na Matrix fornecendo energia para máquinas superiores com nossas discussões intermináveis. Máquinas que talvez já observem nossas maratonas circulares e comentem com um traço de simpatia:
— Vejam esses humanos… debatendo enfaticamente sobre um jogo de bola. Todo ano tem campeonato. Todo ano alguém ganha, alguém perde — e todos seguem reclamando. E criticando a estupidez alheia.
Pois é. A Inteligência Artificial talvez não precise de muito para nos escravizar.

