A irmã Vicenza Taffarel acordou no amanhecer daquela quinta-feira, 29 de setembro de 1978, para preparar o café do Papa João Paulo I, assim como vinha fazendo desde que ele fora eleito líder da Igreja Católica, 32 dias antes. Às 5h30, a freira deixou a xícara na sacristia da capela onde o Pontífice gostava de rezar até começar a missa das 7h. Minutos mais tarde, porém, a religiosa voltou ao local e viu que o café ainda estava lá. Por algum motivo, o Papa não tinha se levantado.
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Inadvertidamente, Vicenza decidiu bater à porta dos aposentos de João Paulo, ao lado de outra freira, a irmã Margherita Marin. Como ele não respondeu, a freira abriu um pouco a porta quarto enquanto seguia chamando o santo padre. Foi quando as duas religiosas o viram deitado sobre sua cama, inerte, com seus óculos no rosto e algumas folhas de papel datilografadas ao lado. A luz do quarto ainda acesa, provavelmente da noite anterior. Com horror, elas perceberam que o Papa estava morto.
“O rosto não mostrava sofrimento, tinha um sorriso leve, parecia estar dormindo. Morreu sem perceber, não havia sinal, deve ter sido bem rápido”, contou Margherita ao jornal italiano “La Stampa”, em 2017.
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Albino Luciani, de 65 anos, tinha sido escolhido para liderar a Igreja pouco mais de um mês antes, no conclave que se seguira à morte de Paulo VI. Ele não aparecia nas listas de favoritos, mas derrotou com folga o “ultraconservador” Giuseppe Siri. Surpreso e contrariado, Luciani tentou até recusar o cargo, mas foi convencido por colegas. “Coragem. O Senhor dá o fardo, mas também a força para carregá-lo”, teria dito um cardeal. Simpático, ficou logo conhecido como o “Papa do sorriso”.
Sua morte, presumidamente causada por um ataque cardíaco, lançou uma sombra de suspeitas sobre o Vaticano. A Itália passava por um momento turbulento, três meses após o sequestro e assassinato de Aldo Moro, ex-primeiro-ministro do país. Uma agência de notícias chegou a cogitar a hipótese de o Papa ter sido envenenado, mas não ofereceu evidência. Por outro lado, o Vaticano rejeitou o pedido de médicos de destaque no país que duvidaram do infarto e solicitaram uma autopsia no corpo.
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Os rumores de crime não se calaram com o tempo. Em 1984, o autor britânico David Yallop publicou o livro “In God’s Name”, sugerindo que João Paulo I tinha sido morto porque descobrira escândalos financeiros envolvendo a cúpula do Vaticano. Décadas mais tarde, em 2019, o conhecido mafioso Antoni Raimondi afirmou em um livro de memórias que ele era o assassino do Pontífice. Nenhuma das hipóteses, contudo, teve força o bastante para se impor sobre a versão oficial da Igreja Católica.
O pontífice com o Papado mais curto do século XX foi sucedido por João Paulo II, que escolheu seu nome em homenagem ao antecessor e chefiou o Vaticano até 2005, quando morreu. Em setembro de 2022, o próprio Francisco presidiu a missa de beatificação de João Paulo I, abrindo caminho para o último papa nascido na Itália virar santo. Para isso, foi atribuída a ele a cura, em 2011, de uma menina argentina de 11 anos que sofria de doença cerebral que provocava epilepsia refratária maligna.
