O tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz diminuiu significativamente devido ao ciclo persistente de hostilidades entre Estados Unidos e Irã. Mas se os preços na bomba de gasolina subirão ou cairão dependerá não apenas da quantidade de petróleo que sai do Golfo Pérsico, mas também das decisões tomadas pela China.
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Maior importadora de petróleo do mundo, a China reduziu drasticamente suas compras nos últimos meses, diminuindo a demanda a tal ponto que impediu que os preços da commodity disparassem ainda mais no início da guerra.
Segundo analistas, a capacidade da China de influenciar o mercado ao aumentar ou reduzir suas compras de petróleo foi uma das maiores surpresas do conflito.
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Esse poder sobre o mercado global é particularmente notável porque o país importa a maioria do petróleo que consome. Durante décadas, os produtores ditaram os preços da commodity. Repetidamente, os membros da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) usaram sua fatia expressiva do mercado para provocar fortes altas nos preços, como ocorreu na década de 1970, ou permitir quedas acentuadas, como em 2014.
Tanques de armazenamento de petróleo em base petroquímica nos arredores de Xangai, China, em 28 de junho de 2025
Bloomberg
Nos últimos anos, porém, a influência da Opep foi enfraquecida, primeiro pelo rápido crescimento da produção de petróleo nos Estados Unidos e, nos últimos meses, pela saída de um de seus principais integrantes, os Emirados Árabes Unidos.
“A China hoje exerce, na prática, mais poder sobre o mercado do que qualquer outro país do mundo, incluindo Arábia Saudita e Estados Unidos”, afirmou Gregory Brew, analista da consultoria Eurasia Group.
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Naturalmente, a intensidade do conflito no Golfo Pérsico — e o grau em que ele afasta armadores da região — continua sendo um fator decisivo para os mercados de energia.
Nesta segunda-feira, o presidente Donald Trump afirmou que restabeleceu um bloqueio naval aos portos iranianos, medida destinada a impedir que grande parte do petróleo do país chegue ao mercado internacional.
Trump também deixou claro que os Estados Unidos não pretendem ceder o controle do Estreito de Ormuz ao Irã.
“Os EUA serão, a partir deste momento, conhecidos como ‘O GUARDIÃO DO ESTREITO DE ORMUZ'”, publicou nas redes sociais, acrescentando que o país buscará ser remunerado por seus serviços, cobrando uma taxa equivalente a 20% de “toda a carga transportada”.
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A possibilidade de cobrar dos armadores pela passagem segura pelo estreito tem sido um dos principais pontos de discórdia ao longo da guerra, e não está claro com que autoridade os Estados Unidos poderiam impor esse tipo de cobrança.
Navio transita pelo Estreito de Ormuz
Bloomberg
Agora, uma das maiores dúvidas do mercado é: quando a China voltará a aumentar suas compras de petróleo? Quanto mais tempo o país adiar essa retomada, maior tende a ser a pressão de baixa sobre os preços. O inverso também é verdadeiro: um aumento da demanda chinesa elevaria as cotações, mantidos os demais fatores constantes.
“O rumo da demanda chinesa é realmente a peça mais importante desse quebra-cabeça”, disse Karen Young, pesquisadora sênior do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia.
Outro fator relevante é a guerra entre Rússia e Ucrânia. Os preços do diesel no atacado dispararam na semana passada depois que a Rússia, um dos maiores exportadores mundiais do combustível, proibiu as vendas ao exterior para preservar o abastecimento interno.
Além disso, ataques de drones ucranianos causaram graves danos a refinarias russas, reduzindo a capacidade do país de refinar petróleo.
Os preços no atacado costumam antecipar os reajustes nas bombas. Nesta segunda-feira, o galão de diesel era vendido, em média, por US$ 4,88 nos Estados Unidos, alta de 2,5% em relação à semana anterior, segundo a associação automobilística AAA.
Há sinais de que as importações chinesas de petróleo possam voltar a crescer em breve. A Agência Internacional de Energia (AIE) citou recentemente novas operações de compra e entregas pontuais de petroleiros como indícios de um “renovado interesse de compra por parte da China”.
Ainda assim, permanece um mistério para grande parte do mercado como a China conseguiu reduzir suas importações em quase um terço em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo dados alfandegários de maio divulgados por Pequim.
Acredita-se que o país possua a maior reserva estratégica de petróleo do mundo, mas não há sinais de retirada significativa dos estoques acima do solo, que podem ser monitorados por satélite. Embora as refinarias chinesas tenham reduzido o processamento de petróleo durante a guerra — e o país tenha proibido as exportações de derivados logo no início do conflito — esses fatores, por si só, não explicam a expressiva queda nas importações.
O país dispõe de outras alternativas, incluindo vastos recursos de carvão que pode utilizar no lugar de derivados de petróleo para a produção de produtos químicos. Além disso, uma parcela significativa da eletricidade do país é gerada por fontes renováveis; a China é também o maior mercado mundial de veículos elétricos e possui a maior rede ferroviária de alta velocidade do planeta, fatores que reduzem o consumo de combustíveis fósseis.
Segundo a AIE, este deverá ser o primeiro ano desde as crises do petróleo das décadas de 1970 e início dos anos 1980 em que o consumo chinês de petróleo registrará uma queda significativa.
Por enquanto, graças ao petróleo que continua saindo do Golfo Pérsico, ao aumento da produção em outros países e à menor demanda de grandes consumidores, como a China, o mundo dispõe, em linhas gerais, do volume de petróleo de que necessita. Isso se reflete nas cotações, que permanecem cerca de 7% acima dos níveis registrados antes da guerra.
Mas carros e caminhões funcionam com gasolina e diesel, e não com petróleo bruto. Entre os danos à infraestrutura no Golfo Pérsico e às refinarias na Rússia, a capacidade de refino está muito abaixo do normal. Isso ajuda a explicar por que abastecer continua sendo mais caro do que era antes do início do conflito.

