1) Regime ainda não caiu – O presidente Donald Trump chegou a dizer no início das operações no Irã que queria a queda do regime. Avaliava que talvez fosse fácil e rápido, apesar de alertado, inclusive por aliados do Golfo Pérsico, de que era improvável ser bem-sucedido. Derrubar um regime apenas através de bombardeios é quase impossível. Na Líbia, Muamar Kadafi foi deposto não apenas pelos ataques aéreos dos EUA como também por milícias de oposição fortemente armadas. Não existe algo similar no Irã. Além disso, ainda que caísse, não significa que a atual ditadura seria substituída por um governo democrático. George W. Bush conseguiu depor Saddam Hussein no Iraque e o Talibã no Afeganistão com relativa facilidade. Os maiores problemas em Bagdá e Cabul ocorreram depois das quedas.
2) Regime não capitulou – Mais do que a queda do regime, Trump provavelmente queria algo similar à Venezuela. O roteiro venezuelano, que deu certo para o presidente norte-americano, envolveu a decapitação da ditadura através da captura de Nicolás Maduro. Em vez de seguir adiante e acabar com o restante do regime, Trump optou por trabalhar com a número dois do governo, Delcy Rodríguez. A governante concordou em se curvar às demandas dos EUA na área do petróleo e foi mantida no poder. No Irã, os EUA e Israel mataram o líder supremo Ali Khamenei imaginando, talvez ao menos no caso de Trump, que o regime se curvaria. Não foi o que aconteceu.
3) Um novo líder supremo – Trump afirmou que queria participar da escolha do novo líder supremo no Irã. Obviamente, os iranianos descartaram essa possibilidade e escolheram Mojtaba Khamenei, um nome que o presidente norte-americano disse que não aceitaria. Como escrevi na newsletter ontem, ao menos no presente o líder supremo não será responsável pela estratégia da guerra, que está nas mãos da Guarda Revolucionária e de autoridades como Ali Larijani e Mohammad Ghalibaf. Ainda assim, o simbolismo de anunciar Mojtaba tão rapidamente demonstrou que Teerã decidiu adotar um tom ainda mais desafiador.
4) Resposta iraniana no Golfo – Mesmo se o Irã não capitulasse, Trump parecia avaliar que a resposta iraniana seria simbólica, como em junho do ano passado. À época, basicamente, Teerã lançou alguns mísseis contra a base aérea norte-americana de al-Udeid, no Catar, depois de antecipar para Doha a ação. Desta vez, no entanto, os iranianos optaram por uma resposta horizontal e ampla, alvejando diferentes bases norte-americanas na região com a intenção de acertá-las e, dez dias depois do início do conflito, mantêm os ataques.
5) Escalada no preço do petróleo – Trump, ao prever um conflito curto e com vitória fácil, viu o preço do petróleo disparar nesta segunda-feira. O valor recuou no fim do dia, após o presidente indicar que talvez a guerra termine em breve. Mas o estrago já está feito. O Irã tem capacidade de, na prática, interromper o fluxo de petroleiros no Estreito de Ormuz ainda que não o feche formalmente. Ao alvejar algumas embarcações, eleva o risco para a navegação, e os próprios navios e as suas seguradoras optam por não atravessar o estreito que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico.
6) Críticas internas nos EUA – George W. Bush lançou a ofensiva contra o Iraque com amplo apoio da população. Ainda que Saddam Hussein não tivesse nada a ver com o 11 de Setembro e tampouco possuísse armas de destruição em massa, essa narrativa ganhou força entre norte-americanos. Até opositores do Partido Democrata, como os então senadores Hillary Clinton e Joe Biden, apoiaram a guerra. No fim, o conflito foi um desastre para os EUA, e o péssimo legado será eternamente associado a Bush. Já Trump lançou a guerra contra o Irã com o suporte de apenas um terço dos norte-americanos. Mesmo entre os republicanos, uma ala mais isolacionista liderada pelo jornalista e influenciador Tucker Carlson critica o presidente por levar adiante uma guerra que, na visão deles, é do interesse de Israel, e não dos EUA.
Imaginem se o Irã ou o Hezbollah lançassem um míssil que matasse dezenas crianças em uma escola de Haifa, em Israel, durante o horário das aulas? Haveria, corretamente, uma enorme condenação internacional. Mas a escola atingida se localiza em Minab, no Irã, e as meninas são iranianas. Os responsáveis, segundo investigações separadas do New York Times e da CNN, foram os EUA. Aparentemente, foi um erro grave das forças norte-americanas. Um míssil Tomahawk foi usado no ataque. Trump, no entanto, sequer pediu desculpas ou assumiu responsabilidade. Ao contrário, afirma que pode ter sido o Irã, que não possui este armamento. O ataque à escola deve ser classificado como um crime de guerra.
Qual a importância da Ilha de Kharg para o Irã?
A quase totalidade do petróleo iraniano é exportado através da pequena Ilha de Kharg, no Golfo Pérsico, a 25 quilômetros do litoral iraniano. Como a costa do Irã é rasa, fica difícil a construção de portos para grandes petroleiros e, desde a época do xá, esta ilha passou a ser usada para a exportação. Alguns devem se perguntar por que os EUA ou Israel nunca agiram contra Kharg. Primeiro, porque não é simples tomar a ilha. Navios que se aproximassem para assumir o território poderiam ser alvejados por mísseis iranianos a partir da costa. Uma vez em terra, seguiriam sendo alvo de ataques. Em segundo lugar, a destruição do porto na ilha teria péssimo impacto para um futuro governo iraniano, se o atual regime fosse derrubado. Essa infraestrutura seria fundamental para uma futura administração no Irã. Por último, uma ação contra a ilha inflamaria ainda mais o conflito e contribuiria para uma disparada ainda maior do preço do petróleo. Não dá, no entanto, para descartar que um presidente aleatório como Trump tente no futuro realizar uma ação contra Kharg.
O Sul do Líbano, alvo de ataques israelenses contra o Hezbollah, é repleto de vilas cristãs, xiitas e sunitas. Os libaneses, assim como os palestinos e os sírios, são o povo autóctone do Levante, vivendo nas suas terras ancestrais há séculos ou milênios. Na sua ofensiva, Israel ordenou que todos os habitantes deixassem suas vilas. Na prática, uma expulsão. Essa ordem incluiu algumas vilas cristãs, como Qlayya. Alguns habitantes, no entanto, recusaram-se a deixar suas terras ancestrais, até porque em muitas destas vilas não há presença do Hezbollah. Foi o caso do padre Pierre Al Rahi, um cristão maronita — uma igreja oriental de rito siríaco em comunhão com o Vaticano, que é majoritária entre os cristãos libaneses. Nesta segunda, o padre acabou sendo morto em disparos de tanques israelenses que ocupam o Líbano.
Algumas jogadoras da seleção de futebol feminino iraniana se recusaram a cantar o hino em jogo na Austrália. Diante do risco de voltarem para o Irã e serem punidas pelo regime, que massacrou milhares de opositores durante protestos em janeiro, acabaram recebendo asilo político do governo australiano. Trump supostamente também ofereceu. Mas vale lembrar que o seu governo encerrou a política de asilos a iranianos, proíbe a entrada de qualquer pessoa do Irã nos EUA e deportou centenas de volta para Teerã.

