A Casa Branca publicou nesta sexta-feira a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, principal documento a detalhar a abordagem estratégica americana para diferentes partes do mundo, definindo prioridades, objetivos específicos e formas de engajamento com atores internacionais, simpáticos ou não a Washington.
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Antes de entrar em definições específicas para cada região, o documento estabelece princípios gerais de políticas externa, de defesa e de inteligência que guiarão o governo do presidente Donald Trump. O texto menciona o reconhecimento da “Paz através da força” — citando a necessidade do país manter a dianteira nos campos econômico, militar e inovação, para ter capacidade de fazer valer interesses —, a “Primazia das Nações” — rejeitando a intervenção de organismos internacionais —, e a “Predisposição à Não-Intervenção” — apontando-a como não absoluta. Aspectos dos princípios podem ser notados no trecho sobre cada canto do mundo.
Veja o que diz a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA por região:
A Casa Branca confirmou que a abordagem estabelecida pelo governo Trump é uma derivação da Doutrina Monroe, classificando o reforço da presença americana e a contraposição à influência de atores de fora da região no Hemisfério como “consistente com os interesses de segurança dos EUA”.
“Após anos de negligência, os EUA reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e proteger nossa pátria e nosso acesso a regiões-chave em toda a região. Negaremos a concorrentes de fora do Hemisfério a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério”, diz um trecho do documento, que apresenta um diagnóstico sobre a região, que inclui a América Latina.
Quais são os principais pontos sobre o Hemisfério Ocidental?
- Recrutar aliados para controlar a migração, deter o tráfico de drogas e fortalecer a estabilidade e a segurança em terra e no mar
- Recompensar e incentivar os governos, partidos políticos e movimentos da região amplamente alinhados aos princípios e estratégias
- Não negligenciar governos com perspectivas diferentes, com os quais compartilhe interesses e desejem trabalhar junto aos EUA
- Reconsiderar a presença militar no Hemisfério Ocidental; Reajustar a presença militar global para lidar com ameaças urgentes no Hemisfério
- Priorizar a diplomacia comercial para fortalecer a própria economia e indústrias, utilizando tarifas e acordos comerciais recíprocos como ferramentas poderosas
- Fortalecer parcerias de segurança, desde a venda de armas até o compartilhamento de informações e exercícios conjuntos
- Expandir novas parcerias, ao mesmo tempo em que reforça a imagem da nação como parceiro econômico e de segurança preferencial; desencorajar — por diversos meios — a colaboração com outros
A parte do documento destinada à região da Ásia-Pacífico tem como foco principal a disputa com a China. Washington descreve o crescimento chinês nas últimas décadas como um processo contrário aos interesses americanos, estabelecendo formas de reverter a influência chinesa e manter algum equilíbrio com Pequim.
“O Indo-Pacífico já é e continuará sendo um dos principais campos de batalha econômicos e geopolíticos do próximo século. Para prosperar em casa, precisamos competir com sucesso lá”, aponta o texto. “O presidente Trump está construindo alianças e fortalecendo parceriasque serão a base da segurança e prosperidade por muito tempo no futuro”.
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Quais são os principais pontos sobre a Ásia-Pacífico?
- Reequilibrar a relação econômica dos EUA com a China, priorizando a reciprocidade. Comércio com a China deve ser equilibrado e focado em fatores não sensíveis
- Incentivar Europa, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Canadá, México e “outras nações importantes” a adotarem políticas comerciais que ajudem a reequilibrar a economia da China
- Foco robusto e contínuo na dissuasão para prevenir a guerra no Indo-Pacífico
- Acabar com práticas prejudiciais, como subsídios predatórios direcionados pelo Estado e estratégias industriais, práticas comerciais desleais e roubo em larga escala de propriedade intelectual e espionagem industrial
- Trabalhar com aliados e parceiros de tratados para combater práticas econômicas predatórias e usar poder econômico combinado para ajudar a salvaguardar posição privilegiada na economia mundial
- Continuar a aprimorar as relações comerciais (e outras) com a Índia para incentivar Nova Déli a contribuir para a segurança do Indo-Pacífico, inclusive por meio da cooperação quadrilateral contínua com a Austrália, o Japão e os EUA;
- Impedir um conflito en Taiwan, idealmente preservando a superioridade militar, é uma prioridade
- Manter política declaratória de longa data sobre Taiwan, o que significa que os EUA não apoiam nenhuma mudança unilateral no status quo no Estreito de Taiwan
- Construir uma força militar capaz de impedir agressões em qualquer lugar da Primeira Cadeia de Ilhas; Pressionar aliados e parceiros a permitirem maior acesso das forças armadas dos EUA a seus portos e outras instalações, a investirem mais em sua própria defesa e, principalmente, a investirem em capacidades destinadas a impedir agressões.
O documento trata a Europa — onde estão localizados os principais aliados históricos dos EUA — com certa preocupação. O cenário apresentado por Washington é de um continente decadente em termos de relevância global, seguindo em direção ao que chamou de “apagamento civilizacional”. O governo Trump aponta a organização política europeia centrada na União Europeia, e a instabilidade política de alguns países como culpadas pelo suposto declínio.
“Se as tendências atuais continuarem, o continente será irreconhecível em 20 anos ou menos”, diz o documento americano. “Queremos que a Europa continue sendo europeia, que recupere sua autoconfiança civilizacional e abandone seu foco fracassado na sufocante”.
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Quais são os principais pontos sobre a Europa?
- [Garantir que] a Europa permaneça europeia, recupere sua autoconfiança civilizacional e abandone seu foco fracassado na sufocação regulatória
- Engajamento diplomático, tanto para restabelecer as condições de estabilidade estratégica em toda a Eurásia, quanto para mitigar o risco de conflito entre a Rússia e os Estados europeus
- Negociar fim rápida das hostilidades na Ucrânia; Evitar a escalada ou expansão não-intencional da guerra e restabelecer a estabilidade estratégica com a Rússia; Permitir a reconstrução da Ucrânia pós-conflito
- Governos minoritários instáveis em países europeus atropelam princípios básicos da democracia para suprimir a oposição.
- A Europa permanece estratégica e culturalmente vital para os EUA; Comércio transatlântico continua sendo um dos pilares da economia global e da prosperidade americana.
- Defender a democracia genuína, a liberdade de expressão e a celebração sem reservas do caráter e da história individuais das nações europeias.
- Incentivar seus aliados políticos na Europa a promoverem esse renascimento de espírito, e a crescente influência de partidos patrióticos europeus, de fato, é motivo de grande otimismo.
- Ajudar a Europa a corrigir trajetória atual; Trabalhar com países aliados que desejam restaurar sua antiga grandeza; Cultivar a resistência à trajetória atual da Europa dentro das nações europeias.
- Restabelecer as condições de estabilidade dentro da Europa e a estabilidade estratégica com a Rússia
- Acabar com a percepção da Otan como uma aliança em constante expansão
Os EUA reconhecem que a região foi o principal foco de atenção estratégica do país nas últimas décadas, fazendo a ressalva de que esse cenário mudou com o recuo da disputa entre superpotências por influência na região, com Washington ainda em uma posição de vantagem, e uma diminuição da dependência do combustível dos países árabes. Do ponto de vista geopolítico, afirma que o conflito palestino-israelense e a ameaça do Irã ainda são uma dinâmica problemática, porém “menos complexo do que as manchetes podem levar a crer”.
“Os dias em que o Oriente Médio dominava a política externa americana, tanto no planejamento de longo prazo quanto na execução cotidiana, felizmente acabaram”.
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Quais são os principais pontos sobre o Oriente Médio?
- O conflito israelense-palestino continua espinhoso, mas graças ao cessar-fogo e à libertação dos reféns negociados por Trump, houve progresso rumo a uma paz mais permanente.
- A Síria continua sendo um problema em potencial, mas com o apoio americano, árabe, israelense e turco pode se estabilizar e reassumir o seu devido lugar como um ator positivo na região.
- A região se tornará cada vez mais uma fonte e um destino de investimentos internacionais, em setores que vão muito além do petróleo e do gás, incluindo energia nuclear, inteligência artificial e tecnologias de defesa.
- Os parceiros do Oriente Médio demonstram compromisso em combater o radicalismo, uma tendência que a política americana deve continuar a incentivar.
- EUA devem abandonar experimento equivocado de coagir essas nações — especialmente as monarquias do Golfo — a abandonar suas tradições e formas históricas de governo; Incentivar e aplaudir reformas quando e onde surgirem organicamente, sem tentar impô-la de fora.
- Expandir os Acordos de Abraão para mais nações da região e para outros países do mundo muçulmano.
O continente africano é o que tem menor espaço na política estratégica americana. Em apenas três parágrafos, o governo dos EUA sinaliza apenas que deve mudar sua abordagem sobre a região de um “paradigma de ajuda externa” para um de “investimento e crescimento”.
Quais são os principais pontos sobre a África?
- Negociar soluções para conflitos em curso (cita República Democrática do Congo, Ruanda e Sudão), e prevenir novos conflitos (Etiópia-Eritreia-Somália)
- Manter-se cauteloso com o ressurgimento da atividade terrorista islâmica em partes da África, evitando qualquer presença ou compromisso americano de longo prazo
- Transição de uma relação com a África focada em ajuda para uma relação focada em comércio e investimento, priorizando parcerias com Estados capazes e confiáveis, comprometidos em abrir seus mercados para bens e serviços americanos; menciona interesse em setores como energia e minerais críticos

