Prezado João Lucas,
Escrevo porque alguém na internet decidiu que você não tem carisma.
A história, para quem porventura tenha escapado: você estava na plateia de um dos shows maravilhosos que sua sogra, Xuxa, mãe de sua mulher, Sasha, vem fazendo pelos 40 anos do Xou da Xuxa. Um internauta decidiu que você assistia àquilo sem se contorcer de emoção e escreveu que lhe faltava carisma. Em poucos dias, você figurava no alto de uma lista de personalidades sem carisma.
Muito antes da tal lista, eu o ouvi pela primeira vez no “Sem censura”. Você disse coisas tão significativas, que ainda me assombra que tenha só 27 anos. Esmiuçou, com respeito, como foi sair de um ambiente de cantor e compositor gospel para o “mundano”. Falou sobre as vezes em que questionaram sua masculinidade e, em vez de se defender, levantou a lebre: que conceito é esse, afinal, e o quanto ele adoeceu a sociedade inteira? E ri com bom humor de quem o chama de Sasho, seguríssimo de si, honrado de ser associado à própria mulher.
Carisma vem do grego khárisma, que nasce de kháris: graça. Não a graça de fazer rir, mas a graça com o dom recebido sem merecimento. São Paulo usa o termo na primeira carta aos Coríntios para nomear os dons repartidos numa comunidade: a um é dada a sabedoria, a outro a fé, a outro o discernimento. Dons diferentes entre si, todos a serviço do bem comum. Em nenhuma linha o apóstolo sugere que alguém precise se sacudir numa plateia para provar que recebeu o seu.
Dois mil anos depois, veio o sociólogo alemão Max Weber para dizer algo quase profético: o carisma não está na pessoa, está no reconhecimento dos outros. É concedido de fora e pode ser cassado. Ou seja, é uma eleição permanente, decidida por uma assembleia que ninguém convocou e que não responde por nada. Em 1922, o homem já tinha explicado a internet.
Porque o que se chama hoje de carisma não é dom nem graça. É disponibilidade. É a obrigação de estar sempre performando, de entregar conteúdo mesmo quando se está apenas assistindo a um show. Escapa à polícia do carisma o entendimento de que contenção não significa falta de emoção; muitas vezes é o excesso dela. Só que, na lógica da performance, o que está por dentro é irrelevante. Só conta o que transborda.
Eu poderia ficar na teoria, mas tenho a vantagem de ter visto. Estive no bastidor do mais recente desfile da Mondepars, marca recém-nascida brilhantemente pilotada por sua mulher e cujo departamento comercial você dirige. Naquela manhã, você também assinou a direção artística da apresentação. Foi das melhores coisas a que assisti nos últimos tempos. A crítica especializada foi quase unânime nos elogios e, a julgar pelas peças esgotadas rapidamente, a clientela também correspondeu.
Daí vem a polêmica, a tal lista. Você protestou: “epa, sem carisma? Aí é demais”. Mas logo caiu em si de que é inútil discutir com uma horda mal-educada e tratou de soltar uma publi de energético anunciando “a solução natural para o carisma voltar”. Tacada de mestre! Rir de si mesmo no timing exato, transformar a pedrada em negócio e devolver a piada com uma mesura: isso é kháris no sentido mais antigo do termo. Graça. Usaram a palavra para atacá-lo e você devolveu exatamente ela.
Comentando essa história com minha querida amiga Patrícia Carta, ela resumiu tudo divinamente: para que carisma quando se tem inteligência? A inteligência não depende de plateia, não é revogável por enquete e segue sendo o melhor energético do mercado. Chapeau, João Lucas.

