Líderes europeus participarão, nesta segunda-feira, de uma reunião na Casa Branca entre o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e seu homólogo americano, Donald Trump, para evitar que Kiev e a Europa sejam isolados nas negociações de paz com a Rússia. A mobilização sem precedentes recentes ocorre após informações de que, depois de se encontrar com o presidente Vladimir Putin no Alasca na sexta-feira, Trump passou a apoiar o plano do líder russo para um acordo de paz baseado em “alguma troca de territórios” entre os países beligerantes.
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Não está claro qual território ocupado, se houver, a Rússia estaria disposta a ceder como parte de uma troca. Mas Moscou quer que a Ucrânia se retire unilateralmente de toda a região oriental conhecida como Donbass, de acordo com autoridades europeias que conversaram com membros do governo Trump sobre suas discussões com Putin. As forças russas controlam parcialmente a área, sem conseguir tomá-la integralmente nem antes nem depois da invasão iniciada em 2022.
Zelensky, por sua vez, tem reiterado que não aceitará ceder as províncias de Donetsk e Luhansk, que compõem a região de Donbass. Essa postura reflete não apenas princípios fundamentais de soberania territorial, mas também considerações militares, humanitárias e políticas que tornam a rendição de Donbass difícil de imaginar para os ucranianos.
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Aqui está um panorama do Donbass, cujas cidades industriais serviram como um escudo protetor para a Ucrânia, pelo qual milhares de ucranianos lutaram e morreram.
A região de Donbass moldou algumas das batalhas mais brutais da Segunda Guerra Mundial e continua a definir a frente de batalha ferozmente disputada até hoje. Na guerra atual, em locais como Bakhmut e Avdiivka, os ucranianos mantiveram a linha de frente por anos, forçando os russos a pagar um alto preço por cada quilômetro que avançavam. As duas cidades são as únicas grandes conquistadas pela Rússia desde o primeiro ano da guerra.
As cidades ainda sob controle ucraniano são conectadas por uma estrada que vai de norte a sul, formando uma linha defensiva que impede as forças russas de invadirem o país. Abrir mão de qualquer uma dessas cidades “significaria efetivamente o colapso de toda essa linha defensiva”, disse Serhii Kuzan, presidente do Centro Ucraniano de Segurança e Cooperação, ao New York Times.
A entrega da região também daria a Moscou o controle de fortificações que a Ucrânia gastou dezenas de milhões de dólares na construção, bem como de infraestrutura ferroviária vital e terras ricas em minerais e carvão. Além das densas cidades industriais, encontra-se um terreno amplo e aberto que é uma porta de entrada para o coração da Ucrânia.
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A rendição do Donbass sem luta colocaria as forças russas em posição de renovar seus ataques e avançar para o oeste, de acordo com o Instituto para o Estudo da Guerra, um grupo de pesquisa sediado em Washington.
Um desastre humanitário poderia ocorrer após a tomada russa da região, caso centenas de milhares de pessoas fossem forçadas a fugir de suas casas ou corressem o risco de sofrer sob a ocupação. Organizações de mídia, organizações de direitos humanos e investigadores da ONU documentaram abusos generalizados e sistemáticos de direitos humanos em territórios ocupados pela Rússia, incluindo detenções arbitrárias, tortura e desaparecimentos forçados.
Mais de 200 mil civis vivem na parte controlada pela Ucrânia da região de Donetsk, parte do Donbass. Dos 1.298 assentamentos na região, 847 são ocupados por forças russas, incluindo 447 que estão ocupados desde que a Rússia anexou a Crimeia e enviou tropas para o leste da Ucrânia em 2014. As forças russas controlam cerca de dois terços da região.
Kateryna Arisoy, natural de Bakhmut e administradora de uma instituição de caridade dedicada a ajudar outras pessoas a escapar dos conflitos, disse que as pessoas que vivem sob ocupação enfrentam um futuro sombrio, incluindo graves abusos contra aqueles que se opõem às autoridades de ocupação.
— Eu digo que não há vida nos territórios ocupados. As pessoas lá estão simplesmente sobrevivendo — afirmou.
Embora nem a Casa Branca nem o Kremlin tenham apresentado publicamente uma proposta específica sobre “trocas de terras”, a rápida rejeição da ideia por Zelensky refletiu uma realidade subjacente frequentemente ignorada no Ocidente, disse Yaroslav Hrytsak, historiador ucraniano.
A identidade ucraniana, afirmou, centra-se no princípio “nada sobre nós sem nós” — um conceito central que remonta aos cossacos.
— Se você quer resolver alguma questão ucraniana sem os ucranianos, de certa forma, está negando a identidade ucraniana, que é muito central para os ucranianos, especialmente agora — acrescentou.
Isso ajuda a explicar por que Zelensky, apesar de seus números decrescentes nas pesquisas, encontrou amplo apoio para rejeitar qualquer troca de terras. Ele observou que não tem autoridade, sob a Constituição do país, para negociar a cessão de partes do país.
Mais de três quartos dos ucranianos se opõem à troca de terras por uma promessa de paz. Crucialmente, dentro das Forças Armadas, “esse número é muito, muito maior”, segundo Kuzan, do Centro Ucraniano de Segurança e Cooperação.
— As unidades, brigadas e comandantes com os quais mantemos contato desde 2014 se opõem categoricamente ao ultimato de Putin — disse ele.
Apesar de todos os obstáculos, Hrytsak, o historiador, não descartou uma grande barganha. Mas disse que ela teria que incluir algo tão abrangente quanto um acordo da Rússia para deixar todo o sul da Ucrânia. E mesmo isso pode não ser suficiente, disse ele. Os ucranianos veem os territórios como mais do que apenas terra.
— Antes de mais nada, as pessoas vivem — afirmou Arisoy, que administra a instituição de caridade que ajuda aqueles que fogem dos conflitos. — Eu também morei em uma cidade que agora está destruída e ocupada e, portanto, não a vejo como apenas um pedaço de terra.