Zico era talvez a maior esperança do Brasil para ganhar a Copa do Mundo de 1986, no México, após a seleção deixar escapar o título de 1982, na Espanha. Havia outros ótimos jogadores, como Falcão, Júnior e Sócrates, mas o camisa 10 de Quintino ocupava o lugar de mais destaque na equipe, ainda que não estivesse na melhor forma, recuperando-se de uma grave contusão no joelho.
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A delegação tinha viajado para o México sem dois dos maiores craques daquele momento no país. Renato Gaúcho fora cortado por indisciplina, depois de uma noite de farra em Belo Horizonte. Leandro, que estava com o amigo na boemia, foi convocado, mas ficou tão arrasado com o corte de Renato que deixou a seleção esperando por ele na hora do embarque, renunciando à chance de ser campeão.
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Ídolo do Flamengo, Zico, mesmo com os problemas no joelho, nem cogitou renunciar. Havia perdido duas copas. Em 1978, na Argentina, o Brasil foi eliminado na semifinal por saldo de gols, sem perder nenhum jogo. “Campeão moral”, vaticinou o treinador Claudio Coutinho. Em 1982, a seleção encantou o mundo na Espanha, mas sucumbiu diante da bem mais fraca seleção italiana, no jogo batizado de “tragédia do Sarriá”, em referência ao estádio em Barcelona onde a partida aconteceu.
A seleção que foi ao México não faria frente à de 1982. Mesmo assim, as chances eram boas. Podia não ser campeã, mas tinha força para dificultar a conquista que a Argentina de Diego Maradona dava como certa. Tinha bons zagueiros (Branco, Edinho, Josimar e Oscar) e meio campo raçudo (Alemão, Falcão, Sócrates e Zico), além de ataque mais que respeitável (Careca, Casagrande e Müller).
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O time de Telê Santana estreou sem Zico, mas o camisa 10 entrava durante os jogos, pegando ritmo para chegar ao “mata mata”. Na primeira fase, a seleção venceu Espanha, Argélia e Irlanda do Norte sem tomar gols. Nas oitavas de final, amassou a Polônia (4 a 0). Foi então, no dia 21 de junho de 1986, há 40 anos, que o Brasil chegou ao Estádio Jalisco, em Guadalajara, para enfrentar os Les Bleus.
Foi, ironicamente, a melhor atuação da seleção naquele Mundial. Quando Careca marcou aos 17 minutos do primeiro tempo, com um balaço na entrada da área, parecia o início de um passeio. Mas Michel Platini empatou antes do intervalo. Zico entrou aos 28 minutos do segundo tempo e logo fez um lançamento genial para Branco, que foi derrubado pelo goleiro dentro da área. Pênalti.
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Mais tarde, os engenheiros de obras prontas diriam que Zico não deveria ter cobrado. Tinha acabado de entrar, estava frio, fora de forma. Mas a quem mais caberia o fardo? Um pênalti crucial como aquele exigia o melhor cobrador, que, afinal, treinava para isso. O camisa 10, porém, bateu muito mal, quase no meio do gol, deixando fácil para Joel Bats defender. A chance perdida frustrou um país inteiro.
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Com o empate no tempo regulamentar, a partida foi levada para a prorrogação de 30 minutos, que chegou ao fim sem mudanças no placar. Na disputa de pênaltis, Zico converteu o dele, mas Sócrates e Júlio Cesar perderam os seus, e a seleção brasileira se despediu do México nas quartas de final.
O pênalti desperdiçado no segundo tempo marcou para sempre a vida de Zico. Ele tem lugar garantido em qualquer lista de melhores jogadores de todos os tempos, mas nenhum filme sobre o Galinho de Quintino pode deixar de reservar um espaço para aquele episódio. Desde então, o ex-jogador já falou uma porção de vezes sobre o assunto. Na volta da seleção ao Brasil, ele disse o seguinte:
“Errei, ora. Todo mundo tem direito de errar um dia. Infelizmente, minha falha pode ter significado a desclassificação, mas é bom lembrar que não fui o único a perder pênalti no jogo. Quero esquecer um pouco a Copa do Mundo, descansar, e, depois, voltar ao Flamengo, pois a vida continua”, afirmou o jogador, no Estádio do Maracanã, para onde o elenco foi levado após desembarcar no Aeroporto do Galeão. “O Brasil já perdeu outros Mundiais antes e o futebol continuou sendo a’ paixão do brasileiro. Além disso, fomos desclassificados nos pênaltis, depois de 120 minutos de boa exibição, nos quais poderíamos ter vencido a partida contra a França e continuado na Copa”.
Em março de 2013, quando completou 60 anos, o ídolo eterno do Flamengo deu uma longa e definitiva resposta durante entrevista exclusiva ao Jornal O GLOBO:
“A derrota para a Itália em 1982 doeu mais. Embora o pênalti perdido tenha marcado mais a minha carreira. A derrota foi de um time que tinha futebol para ser campeão. Dói mais. Num dia em que as coisas não funcionaram bem individualmente, fomos eliminados. O pênalti marcou. Quem não tem o que falar cita o lance. Eu deveria ter batido contra a Polônia, no jogo anterior, que estávamos vencendo. Se eu batesse e perdesse, talvez ficasse em dúvida contra a França. Mas quem batia antes? Era o Sócrates. E ele perdeu na disputa, depois. Se eu não bato, e outro perde, iam me chamar de covarde. Só o técnico poderia dar outra ordem, mas eu tinha a confiança do Telê. E eu estava treinado, com bom aproveitamento. Na disputa por pênaltis, fui bater de novo. E tem uma coisa: o Brasil não perdeu o jogo. Empatou e perdeu na disputa de pênaltis. E lá eu fiz o meu”.

