O traficante Marcinho VP, dono dos pontos de venda de drogas no Morro Dona Marta, em Botafogo, estava escondido em um barraco no Morro do Fallet, no Catumbi, quando foi cercado por policiais civis em uma operação para prendê-lo. Os agentes haviam subido a favela sem enfrentar resistência de bandidos locais. Um dos criminosos mais procurados do Rio, Marcinho dormia em um colchonete no chão, ao lado de uma vela de sete dias acesa. Naquela segunda-feira em abril de 2000, há 25 anos, ao ser acordado, ele apenas colocou as mãos para o alto e disse: “Perdi, perdi, não me mata”.
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O bandido foi condenado a 42 anos de prisão. Em 2003, seu corpo foi achado numa caçamba de lixo no Presídio Gabriel Castilho (Bangu III). Segundo investigações, a ordem para o assassinato teria partido de outro detento, Márcio Nepomuceno, também chamado, por coincidência, de Marcinho VP. Chefe do tráfico no Complexo do Alemão e um dos líderes do crime no Rio, Nepomuceno, de acordo com policiais, tinha enviado um enviado uma mensagem para o seu xará do Dona Marta, dias antes, ameaçando-o de morte se ele não calasse a boca: “Você tá querendo aparecer demais
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Márcio Amaro de Oliveira tinha entrado para o crime na adolescência. Ele ganhou confiança dentro do Comando Vermelho até herdar de seu tio, Pedrinho da Prata, o controle do tráfico no Dona Marta. O bandido não era considerado um peixe graúdo da facção, mas virou um dos homens mais procurados do Rio por causa de dois episódios de destaque na imprensa: em 1996, quando o popstar Michael Jackson gravou um clipe na favela em Botafogo, e em 2000, quando o Jornal O GLOBO informou que o cineasta João Moreira Salles pagara uma “bolsa” para Marcinho VP escrever uma autobiografia.
Nos arquivos do GLOBO, são raras as páginas citando o traficante do Dona Marta antes de 1996. Mas isso mudou em fevereiro daquele ano, quando o cantor Michael Jackson gravou cenas do clipe “They Don’t Care About Us” na favela. Numa entrevista, o cineasta Spike Lee, diretor do clipe, disse que a equipe só pôde filmar na comunidade após obter autorização não do Estado, mas de Marcinho VP. Para piorar, o próprio bandido deu entrevista a jornais criticando violência policial e desigualdade social, falando abertamente sobre seus crimes e comparando a favela ao Quilombo dos Palmares.
Sou traficante porque meu povo está escravizado pelo sistema“, justificou ele.
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Governador do Rio na época, Marcelo Allencar ficou furioso com aquela ostentação e disse que era questão de honra prender o bandido. O traficante foi capturado, mas, oito meses depois, escapou da carceragem da Polinter. A fuga ocorreu graças a uma mulher que entrou na cadeia com uma pistola escondida nas roupas do filho de 2 anos de idade. O bandido pai da criança usou a pistola pra render o carcereiro, abrir um armário com várias armas e libertar outros presos, entre eles, Marcinho VP. Uma investigação indicou que a fuga foi facilitada por um agente penitenciário mediante suborno.
O traficante do Dona Marta ficou foragido, viajando pela América do Sul, e em uma entrevista à revista “Trip”, anos depois, disse que entrou em contato com as histórias de líderes revolucionários como Che Guevara, Simón Bolívar e Emiliano Zapata. O criminoso fazia questão de dizer que gostava de ler e citava autores como Gabriel Garcia Marquez, Eduardo Galeano e Darcy Ribeiro entre os seus favoritos,
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Marcinho ficou anos fora do radar após fugir. Em fevereiro de 2000, porém, O GLOBO revelou que João Moreira Salles, diretor do documentário “Notícias de uma guerra particular” (1999), pagara ao bandido uma bolsa de R$ 1200 (cerca de R$ 3 mil em valores atuais), durante quatro meses, para ele largar o crime e escrever sua autobiografia. Aquilo abriu uma crise no governo do Rio. O coordenador de Segurança Pública, o sociólogo Luiz Eduardo Soares, defendeu a atitude de Salles, enquanto o secretário de Segurança, Josias Quental, e o governador Anthony Garotinho diziam que o cineasta tinha financiado um criminoso.
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Luiz Eduardo acabou sendo demitido, e a polícia fechou o cerco contra Marcinho até capturá-lo no Morro da Fallet, no dia 23 de abril de 2000. A ausência total de resistência dos bandidos na favela do Catumbi expôs o isolamento do traficante do Dona Marta na cúpula do Comando Vermelho.
Marcinho VP parecia ter muito mais influência fora do universo do crime. Dias depois de ser preso, ele prestou um depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico, na Câmara dos Deputados, em Brasília. Quando foi cobrado para dar os nomes dos financiadores do comércio de drogas no Rio, ele arrancou risadas ao cantar trechos da música “Que país é este?”, do Legião Urbana. Ao falar de sua experiência, disse que o jovem entra para o tráfico porque “a sociedade não lhe oferece outra oportunidade” e que “o poder só sobe o morro para pedir votos e depois desaparece.
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Preso no Complexo de Bangu, na Zona Oeste, com a imagem desgastada no Comando Vermelho, o bandido perdeu o controle do comércio de drogas no morro onde foi criado.
Em janeiro de 2003, o jornalista Caco Barcellos, autor de “Rota 66” (1993), lançou “Abusado”, sobre a história de Marcinho VP. A publicação, que ficou meses na lista de livros mais vendidos, revela detalhes do tráfico no Dona Marta. Meses depois, no dia 28 de julho daquele ano, o corpo do bandido de 33 anos foi achado numa caçamba de lixo em Bangu III. Para investigadores, sua morte fora ordenada pelo Marcinho VP do Complexo do Alemão, um dos principais líderes do Comando Vermelho. Dias antes, policiais tinham interceptado uma mensagem do VP do Alemão para o VP do Dona Marta.
“Cala a boca, senão vai pra vala. Você tá querendo aparecer demais”, dizia o bilhete.
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