Durante esta eleição, lembrei muito do professor Marcus Figueiredo. Não tive o prazer de ser seu aluno, mas li tudo o que escreveu. Ele ajudou a fundar os estudos eleitorais na ciência política brasileira e, numa disputa tão apertada, suas ideias voltam a ser fundamentais.
Em A decisão do voto: democracia e racionalidade, publicado em 1991, Figueiredo enfrenta um velho problema: por que alguém vota se seu voto dificilmente decidirá uma eleição? Esse é o chamado paradoxo da participação.
Figueiredo propõe olhar para a decisão do eleitor sob incerteza e considerar que ela depende também do que ele imagina que os demais farão. Numa disputa acirrada, o eleitor pode entender que seu voto é decisivo porque “anula o voto” de um concorrente. Mesmo sem saber como os outros votarão, sabe que, se não participar, “não elimina um voto adversário”.
Vale prestar atenção nessa ideia agora.
A primeira leitura da reta final é conhecida: Lula precisa transformar apoio em comparecimento. No primeiro turno, a abstenção foi de 21,07%, a maior desde 1998. A Quaest identifica maior propensão à abstenção entre eleitores de menor renda, escolaridade e entre pessoas com 60 anos ou mais, especialmente mulheres — grupos em que Lula tem apoio relevante. Lula tem, portanto, um incentivo claro para mobilizar quem ficou em casa e reverter o resultado. E há sinais de que isso está funcionando: sua base está agitada, o exército do Janones e seus quase 10 milhões de soldados virou assunto. No Índice de Popularidade Digital (IPD) da Quaest, Lula aparece à frente de Flávio. Nas sucessivas pesquisas publicadas no segundo turno, a diferença entre eles foi diminuindo. Nesse cenário, se a abstenção cai, quem ganha é Lula.
Mas a lógica de Figueiredo sugere um segundo cenário, quase ausente do debate público: o efeito rebote.
Se o eleitor decide participar para neutralizar o voto do adversário, a mobilização de um lado pode servir de sinal para o outro. Ao perceber a movimentação da base de Lula e seu possível efeito sobre o comparecimento, apoiadores de Flávio podem fazer o cálculo descrito por Figueiredo: se eu ficar em casa, não elimino um voto adversário. O resultado seria uma consequência não antecipada. A abstenção poderia cair sem beneficiar necessariamente Lula. A mobilização de um lado acionaria o cálculo de neutralização do outro. Com tão poucas disputas de 2º turno para governos estaduais, o que pode mobilizar o eleitor é anular a animação do outro.
São duas hipóteses, não uma previsão.
Figueiredo trata do cálculo de cada eleitor; aqui, levo essa lógica para a dinâmica agregada de uma campanha. É um efeito que a intenção de voto, sozinha, não permite medir, mas que tem aparecido nas outras respostas individuais. Interesse na eleição aumentando, medo de um dos lados vencer aumentando, com a expectativa de vitória de Flávio diminuindo. Tem espaço para um efeito rebote.
Se esse rebote ocorrerá depende, em boa medida, das campanhas: de como cada lado reage à mobilização do outro e dos sinais de força que transmite aos eleitores.
Por fim, uma homenagem. Que um livro publicado há mais de três décadas ainda nos ajude a pensar o segundo turno de 2026 é uma prova de sua qualidade. Obrigado, Marcus!
O voto que neutraliza o voto: efeito mobilização ou efeito rebote? Leia artigo de Felipe Nunes, diretor da Quaest
