Por volta das 23h de anteontem, o sono dos moradores da Praça Vitória Régia, na Cidade Jardim, um bairro de casas de alto padrão próximo ao Morumbi, na Zona Oeste de São Paulo, foi interrompido por longas sequências de tiros. Um carro com pelo menos três homens tentou invadir uma mansão para realizar um assalto. A cena do trio tentando cortar uma cerca elétrica, após subir numa lixeira e numa árvore, chamou a atenção de vigilantes que faziam a ronda no entorno, dando início ao intenso confronto. Na ação, segundo a prefeitura, dois GCMs que trabalhavam como seguranças particulares foram baleados e levados ao hospital. Os bandidos conseguiram fugir.
- São Paulo: Policial aplicou coronhada em homem, arma disparou e matou sua irmã
- Crime: Polícia encontra corpo de empresário no Autódromo de Interlagos
— Estamos apavorados. Esse foi o terceiro caso em pouco mais de um mês, em um raio de 800 metros da minha casa. A atuação dos ladrões é sempre parecida. Eles entram por uma casa vizinha vazia ou em obras e ingressam na residência-alvo. Dessa vez, nossos seguranças privados conseguiram impedir o crime, ao contrário das outras duas ocasiões recentes — conta um morador da região, sob anonimato.
O estado de saúde dos guardas civis não foi informado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) até o fechamento desta edição. O caso é investigado pelo 89º Distrito Policial. Um vídeo de uma câmera de segurança mostra que pelo menos 78 tiros foram disparados na ação durante apenas três minutos.
A onda de assaltos nos bairros vizinhos ao Morumbi, como Jardim Guedala e Real Parque, leva os moradores a investirem pesado em segurança privada, apesar da distância de no máximo três quilômetros do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Cada carro de segurança privada (com um ou dois homens, geralmente policiais fora de serviço) sai por R$ 30 mil mensais, em um custo dividido entre vizinhos.
— Cada casa paga R$ 2 mil. Com isso, já conseguimos contratar 16 carros, e vamos buscar outros, ainda mais depois dos casos recentes — narra o morador da Cidade Jardim. — Quando entramos ou saímos de casa, ligamos para eles, que nos aguardam no portão.
Os casos recentes, embora os números de assaltos a residências em São Paulo tenham registrado queda, se destacam pela violência e pela dinâmica de “arrastões” — em que vários imóveis ou apartamentos são roubados em série. Levantamento do GLOBO aponta que a capital registrou, nos quatro primeiros meses do ano, 180 roubos a casas ou prédios, uma média de dez por semana. Na comparação com o mesmo período do ano passado, houve um declínio de 25% nos crimes. No entanto, a região do Butantã, que engloba Morumbi, Cidade Jardim e outros bairros citados, é a campeã de ocorrências, com 22 assaltos entre janeiro e abril.
Outro episódio ocorrido em maio gerou repercussão pelo grupo numeroso de ladrões que entrou em um edifício residencial da Vila Sônia, a três quarteirões de uma delegacia de polícia, após cortar a cerca elétrica: um bando com 20 criminosos. Do local, foram levados joias e relógios Rolex avaliados em mais de R$ 100 mil, além de bolsas, óculos e outros objetos de luxo. Ninguém foi preso até agora.
— Na linguagem policial, temos a certeza de que se trata de mais um caso de “fita dada”, quando os ladrões possuem informações importantes advindas das residências que serão roubadas — afirma o presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) do Portal do Morumbi, Celso Cavalinni.
Rodeada por grandes favelas, como Paraisópolis e Jardim Colombo, a região do Morumbi, com casas luxuosas, muitas delas antigas e com segurança obsoleta, é farta em rotas de fuga e possui diversas quadras sem comércio ou movimento de pedestres. No caso do arrastão da Vila Sônia, os assaltantes passaram dias antes por uma área verde particular utilizada como acesso ao condomínio.
— Vimos que estudaram o terreno, por onde iriam entrar e sair. Isso mostra a facilidade do local e o conhecimento prévio — afirma o delegado Felipe Nakamura, um dos responsáveis pelas investigações.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/n/U/Rca6cRQ62BsirzGTmdXA/criminosos.png)
Outro fator preponderante para o acesso de bandidos a residências é a facilidade de acesso a equipamentos eletrônicos como os que clonam controles remotos de garagens. No mercado ilegal, eles saem por aproximadamente R$ 4 mil.
Figura carimbada em várias ações violentas no Morumbi há pelo menos três anos, Diego Fernandes de Souza, o Minotauro, um ex-ajudante de pedreiro de 41 anos, foi reconhecido por diversas vítimas de assaltos. Segundo as investigações, ele participou de um dos três roubos recentes na Cidade Jardim. Diego responde a 15 ações judiciais, a maioria por roubo e furto de residências, e encontra-se foragido.
Em maio do ano passado, Minotauro e outros quatro comparsas invadiram, de madrugada, pela janela do banheiro, uma casa no Real Parque e renderam a família que estava dormindo. “Eles usaram uma escada para entrar pelo banheiro e nos amarraram. Nossas filhas também foram acordadas e amarradas. Após revirarem a casa e nos ameaçar, levaram vários objetos de valor, assim como nosso carro, e depois fugiram”, disse uma das vítimas aos policiais que realizaram o boletim de ocorrência. Desde então, a polícia e a Justiça tentam localizá-lo, sem sucesso.
— Imaginamos que ele esteja entocado em Paraisópolis, uma favela difícil de entrar para fazermos uma campana, pois as ruas são estreitas e os criminosos conhecem todos os carros que circulam — afirma o delegado Felipe Nakamura.
A “fita dada” é a principal tese de policiais de delegacias centrais de São Paulo para desvendarem outro arrastão, ocorrido há três semanas em Higienópolis, área nobre da região central paulistana. Ali, a quadrilha liderada por um homem chamado Cleudson Leandro da Silva clonou as placas do Honda Fit de um morador e contou com a “sorte” de encontrar o sistema de reconhecimento facial desligado. O resultado da ação foram seis apartamentos invadidos, com seus moradores sendo feitos reféns.
— Os ladrões usaram máscaras, luvas, cobriram tatuagens e um deles utilizou até uma gaze nos dentes para que não pudessem ser reconhecidos pelas imagens das câmeras de segurança — descreve o delegado Ronald Quene Juy Saia Justiniano, responsável pelas investigações.
O que a quadrilha não contava era com a falha de um dos bandidos, que subtraiu um smartwatch de uma das vítimas e esqueceu de desligá-lo, ao contrário do que foi feito com os telefones celulares, todos recolhidos e desativados.
— A partir daí, localizamos os carros usados na fuga e prendemos o líder intelectual do roubo, que mostrou seu rosto ao parar em um posto de combustíveis para abastecer um dos veículos. Agora vamos tentar identificar os demais membros, assim como possíveis comparsas de dentro do prédio que passaram informações para o bando — diz o delegado.

