Quando o segundo filho de Ryan Kellermeyer estava a caminho, sua principal preocupação era: “O que vamos fazer com relação ao futebol americano este ano?”
Fãs dedicados do Philadelphia Eagles que vivem em Indiana, Kellermeyer e sua mulher assinam o pacote Sunday Ticket, da National Football League (NFL), que permite assistir a muitos, mas não a todos, os jogos do time. Quando uma determinada partida não estava disponível, o casal costumava levar o filho pequeno a um restaurante local que transmitisse o jogo. Essa estratégia, porém, seria menos prática com um bebê.
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“Você não pode levar um recém-nascido a um restaurante de asas de frango por quatro horas”, disse Kellermeyer.
Eles também não queriam pagar por todos os serviços adicionais de streaming necessários para assistir em casa aos jogos que não estavam incluídos. Com os direitos de transmissão da NFL cada vez mais espalhados entre Netflix, Prime Video, da Amazon.com, Peacock, da Comcast, e YouTube, da Alphabet, o preço acumulado chegaria a centenas de dólares por ano. Um fã de esportes já contabilizou gastos anuais de US$ 2 mil.
Tentar combinar períodos de teste gratuitos e logins emprestados deixava Kellermeyer irritado — muitas vezes, passava o primeiro quarto de um jogo tentando conseguir uma imagem na tela.
“Você fica tão frustrado até conseguir fazer o login que a experiência fica menos agradável”, disse Kellermeyer, de 48 anos, gerente-geral de uma empresa familiar de jardinagem e cuidados com árvores. “Você está tentando driblar o sistema.”
Com a temporada de pré-temporada do futebol americano já em andamento, muitos americanos compartilham dessa irritação.
Ryan Kellermeyer posa para um retrato no Wings Etc. Bar and Grill em Marion, Indiana
AJ Mast/Bloomberg
A ascensão dos serviços de streaming encerrou a era em que os fãs de esportes americanos podiam acompanhar facilmente seus times favoritos por meio de alguns poucos canais de TV aberta e a cabo, sem necessidade de assinaturas especiais. Em vez disso, as ligas profissionais fecharam acordos com múltiplos serviços, criando uma programação confusa e um custo elevado para assistir aos jogos em casa. Isso é especialmente verdadeiro para os fãs de futebol americano que vivem fora do mercado local de seus times, onde normalmente ainda há uma transmissão gratuita disponível para a maioria das partidas.
A irritação dos fãs cresceu a ponto de chamar a atenção das autoridades federais.
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O Departamento de Justiça dos EUA abriu uma investigação para apurar se a NFL e outras ligas estão violando as leis antitruste em suas negociações com plataformas de streaming. Em uma audiência no Congresso em junho, políticos dos dois partidos questionaram se os acordos violam uma lei de 1961 que permite que as principais ligas esportivas — beisebol, basquete, futebol americano e hóquei — negociem contratos de mídia em nome de todos os seus times, uma vez que a legislação foi criada para contemplar transmissões gratuitas.
“Os fãs de esportes americanos estão pagando mais, recebendo menos e tendo de navegar por um ambiente de streaming fragmentado”, disse o deputado democrata Jerrold Nadler, de Nova York, principal democrata da Câmara na área jurídica.
A Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês) pediu a opinião dos fãs e recebeu milhares de comentários críticos. O presidente Donald Trump chegou a dizer que a NFL poderia se dar ao luxo de ganhar menos dinheiro.
Mas não está claro se a atenção de Washington se transformará em medidas concretas. Na audiência de junho, por exemplo, parlamentares discutiram se o Sunday Ticket poderia oferecer pacotes mais enxutos e baratos vinculados a um único time. Até agora, porém, não apresentaram um projeto de lei para obrigar a liga a fazer essas mudanças. O Senado também avalia uma legislação que ampliaria a lei de 1961 para incluir esportes universitários — o que poderia impor ainda mais complexidade e custos aos espectadores.
Sistema ‘fora dos trilhos’
Se o Congresso e o governo Trump não agirem, fãs frustrados podem recorrer à Justiça, disse Kellie Lerner, sócia-gerente do escritório de advocacia antitruste Shinder Cantor Lerner. A NFL já enfrenta a possibilidade de uma condenação de US$ 14 bilhões em um processo antitruste — decisão anulada por um juiz federal, mas que agora está em recurso — movido por assinantes do Sunday Ticket que alegam que a liga e a DirecTV conspiraram para cobrar preços excessivos.
O processo relacionado ao Sunday Ticket, que se arrasta desde 2015, “foi uma espécie de indicador precoce de que o sistema estava saindo dos trilhos”, à medida que os fãs perceberam que estava ficando mais caro acompanhar seus times, disse Lerner, que não participa da ação. “Agora, estamos realmente chegando ao ponto em que a última gota d’água está prestes a fazer o copo transbordar.”
Os problemas dos fãs da NFL provavelmente são os mais evidentes porque a organização é a liga esportiva mais popular dos EUA. Mas as dificuldades se multiplicam quando um torcedor acompanha vários esportes.
‘Não é fácil’
Russell Cieslica, nova-iorquino que hoje dá aulas na Flórida, paga US$ 129,99 por ano pelo MLB.tv para assistir ao seu amado Boston Red Sox. Ele também assina o ESPN+ durante a temporada de hóquei para acompanhar alguns jogos do Buffalo Sabres. E paga outros cinco serviços de streaming para garantir que consiga assistir a todos os jogos de futebol americano do Buffalo Bills. No total, Cieslica gasta mais de US$ 2 mil por ano com streaming.
“Há tantas plataformas transmitindo jogos e tantos canais”, disse. “Não é fácil.”
A migração para o streaming tem sido lucrativa para as ligas.
Somente neste ano, os acordos da National Basketball Association (NBA) com ABC, NBCUniversal, ESPN e Amazon renderão cerca de US$ 7 bilhões, depois que a liga rompeu com sua antiga parceira de TV a cabo, a TNT, da Warner Bros. Discovery. A Women’s National Basketball Association (WNBA) fechou um acordo histórico de 11 anos para transmitir jogos pela ION, da EW Scripps, ABC, NBCUniversal e Amazon e, no início deste ano, acrescentou a CBS à lista. As duas ligas também exibem hoje mais jogos na TV aberta do que nunca.
A Major League Baseball (MLB), por sua vez, acaba de iniciar um contrato de três anos com ESPN, NBCUniversal e Netflix, que se soma aos acordos já existentes com Fox, TBS e Apple TV, gerando cerca de US$ 800 milhões por ano. A National Hockey League (NHL) está renegociando seus direitos de transmissão de US$ 625 milhões anuais, atualmente divididos entre Disney e Warner Bros. Discovery.
De longe, a maior arrecadação vem da NFL, que deve faturar US$ 12,5 bilhões por ano com seus contratos com as quatro emissoras, além de Amazon, YouTube e Netflix. A liga chegou a estudar a possibilidade de cobrar mais de suas parceiras, diante da enorme popularidade de seus jogos.
A Bloomberg informou na quinta-feira que a Paramount Skydance, dona da CBS, suspendeu as negociações com a NFL enquanto a empresa enfrenta desafios jurídicos relacionados à sua planejada fusão de US$ 110 bilhões com a Warner Bros. Discovery. Já o CEO da Fox, Lachlan Murdoch, disse que sua empresa não mudará seu contrato para transmitir jogos da NFL até depois da temporada de 2029.
A NFL afirma que 87% de seus jogos são exibidos “principalmente” em canais gratuitos de TV aberta. Isso significa, porém, que os jogos estão disponíveis gratuitamente em algum lugar dos EUA — não necessariamente em todos os lugares. E cada liga tem suas próprias regras de blackout, que determinam quais jogos podem ser exibidos em quais localidades.
“Estamos muito comprometidos com a TV aberta. Sempre estivemos e continuamos a estar”, disse Hans Schroeder, responsável pela distribuição de mídia da NFL, em um comunicado. “É uma excelente maneira de alcançar os fãs, e nosso foco é ampliar esse alcance.”
A liga afirma que seus acordos mais recentes transferiram, em sua maioria, jogos da TV a cabo para o streaming, o que ampliou o acesso dos fãs. Segundo a NFL, o percentual de partidas exibidas na TV aberta permaneceu praticamente o mesmo na última década.
“Se você quiser usar apenas a TV aberta, ainda terá muitos buracos na programação”, disse David Goodfriend, presidente do grupo de defesa Sports Fans Coalition. “É exatamente por isso que as pessoas sentem que são obrigadas a assinar vários serviços de streaming que não querem contratar.”
O fato de as ligas poderem negociar em conjunto é resultado de uma brecha legal criada pelo Congresso especificamente para elas.
Cada liga é formada por empresas concorrentes que, em circunstâncias normais, estariam proibidas de definir preços em conjunto. Mas o Sports Broadcasting Act, de 1961, estabeleceu uma isenção antitruste que permitiu que as principais ligas esportivas negociassem contratos de mídia em nome de seus integrantes, em vez de cada time fechar seus próprios acordos. Havia uma condição: elas só poderiam reunir direitos de transmissão para programas patrocinados por anunciantes e exibidos gratuitamente.
“O Congresso acreditava que acordos conjuntos de televisão ajudariam a tornar os jogos mais amplamente disponíveis ao público”, disse o deputado republicano Scott Fitzgerald, de Wisconsin, responsável pelas questões antitruste na Câmara, durante a audiência de junho. “Sessenta e cinco anos depois, é justo que este órgão pergunte se as ligas esportivas profissionais cumpriram sua parte do acordo. Na minha opinião, não cumpriram, e os fãs de esportes estão pagando o preço.”
Bad Bunny fez uma apresentação marcante no Super Bowl
Getty Images
Os esportes profissionais são extremamente importantes para as redes de TV aberta — e para sua própria sobrevivência. Entre as 100 maiores transmissões televisivas de 2025, 96 foram eventos esportivos, incluindo a World Series da MLB. O Super Bowl deste ano, em fevereiro, que contou com um show de intervalo do rapper porto-riquenho Bad Bunny, atraiu 125 milhões de espectadores.
“Todo o modelo de transmissão depende da NFL”, disse Richard Greenfield, analista da LightShed Partners, no podcast The Varsity. CBS, NBC e ABC “não existiriam da forma como existem se não tivessem os direitos da NFL”.
Apesar da exigência de TV gratuita prevista no Sports Broadcasting Act, a NFL fechou um acordo com a ESPN em 1987 para transmitir alguns jogos pelo canal a cabo. Alguns anos depois, a liga firmou uma parceria com a empresa de TV via satélite DirecTV para criar o programa Sunday Ticket, que em 2023 migrou para o YouTube. Com preço entre US$ 240 e US$ 480 por temporada, o serviço oferece acesso a todos os jogos que não são exibidos na TV aberta ou em outras plataformas de streaming.
Republicanos da Câmara agora avaliam como reformular a lei de 1961, segundo um assessor do comitê que realizou a audiência de junho. Ninguém propôs eliminar a capacidade das ligas de negociar acordos, mas parlamentares sugeriram impor restrições adicionais ou exigir que a lei fosse renovada a cada poucos anos.
Tentativa de inovação
Kellermeyer, o torcedor dos Eagles que vive em Indiana, decidiu tomar uma iniciativa por conta própria. Enquanto estava de licença-paternidade este ano, ele criou um serviço chamado HuddleMaxx, que ajuda os fãs a acompanhar os calendários de transmissão de seus times e administrar suas assinaturas para assistir aos jogos. Acompanhar um único time é gratuito, mas uma versão paga permite que os usuários acompanhem mais de um.
O serviço tem poucos usuários até agora e ainda não dá lucro. Idealmente, disse Kellermeyer, ele nem deveria precisar existir.
“Um passe simples e exclusivo para cada time seria excelente”, disse. “Deixem a gente assistir ao jogo na TV em tempo real por uma única tarifa, com um único login. Tornem simples acompanhar um time. Nós queremos acompanhar os times, e isso é muito complicado.”

