A Polícia Federal deflagrou neste fim de semana uma operação ostensiva em Boa Vista (RR) que resultou na prisão em flagrante e no indiciamento de 22 pessoas envolvidas em um esquema estruturado de compra de votos na véspera do pleito eleitoral. Documentos da investigação revelam a dinâmica da engrenagem clandestina, na qual eleitores eram arregimentados em grupos de mensagens para receber R$ 400 em dinheiro vivo em troca do voto em dois candidatos: Daniel Trindade (PL), postulante à Câmara dos Deputados, e Márcio Agra Belota (PL), o “Marcinho Belota”, deputado estadual que concorria à reeleição.
A ação da Superintendência da PF em Roraima foi desencadeada a partir de uma denúncia anônima recebida pelo Disque-Denúncia Eleitoral. A mensagem indicava que um imóvel na área urbana da capital roraimense funcionava como centro de triagem e cadastramento de eleitores cooptados para a chamada prática de “B.U.” (boca de urna).
De acordo com os autos de prisão em flagrante, a operação cobriu dois endereços estratégicos no bairro Calungá, em Boa Vista. O primeiro imóvel, localizado na Rua David Cruz, nº 309, funcionava como ponto de recepção e verificação de dados. Após a confirmação dos cadastros organizados em listas de papel e planilhas virtuais, os eleitores eram encaminhados ao segundo endereço, na Rua Maria de Lourdes, nº 539, onde ocorria o pagamento efetivo das quantias em espécie.
Para blindar o esquema contra vazamentos e flagrantes, os organizadores adotavam um protocolo rígido de segurança: os celulares de todos os eleitores eram retidos na entrada do imóvel de pagamento para impedir filmagens, fotos ou gravações do momento da entrega do maço de notas.
O valor fixado por eleitor era de R$ 400,00, composto estrategicamente por quatro cédulas de R$ 100,00: duas notas destinadas a vincular o apoio ao candidato a deputado federal Daniel Trindade e duas ao candidato a deputado estadual Marcinho Belota.
Confissão e apreensão de dinheiro
Entre os detidos que atuavam na linha de frente do esquema está Thyago de Souza Franco, ligado à campanha de Daniel Trindade. Em depoimento à Polícia Federal, Franco confessou ter recebido cerca de R$ 19 mil em espécie diretamente no comitê eleitoral do candidato. Ele admitiu ter fracionado e repassado aproximadamente R$ 12 mil a pelo menos 30 eleitores no local monitorado pelos agentes.
Outro operador chave identificado no local foi Arthur Henrik Flessak Gomes, servidor público comissionado da Prefeitura de Boa Vista e vinculado ao gabinete de Marcinho Belota. Flessak Gomes atuava no transporte dos valores a bordo de um veículo FIAT Strada branco. A cooptação e a montagem das listas de presença ficavam a cargo de Vanessa da Silva Soares, responsável por administrar os grupos de WhatsApp e orientar o fluxo de eleitores entre as duas casas no bairro Calungá.
A autoridade policial arbitrou fiança de R$ 4.000,00 para Thyago de Souza Franco e Arthur Henrik Flessak Gomes. Já Vanessa da Silva Soares teve a fiança dispensada devido à comprovação de hipossuficiência financeira.
Diante do volume de provas colhidas no flagrante, a Justiça Eleitoral expediu mandados de busca e apreensão domiciliar e pessoal contra o deputado estadual Marcinho Belota em seu endereço residencial, no bairro Cidade Satélite, em Boa Vista.
A PF indiciou ao todo 22 pessoas por corrupção eleitoral (Artigo 299 do Código Eleitoral) e associação criminosa (Artigo 288 do Código Penal). Entre os indiciados estão os três operadores e 19 eleitores flagrados recebendo a vantagem indevida. Em razão do perfil socioeconômico dos eleitores autuados, a Justiça concedeu a liberdade provisória com dispensa de fiança para a totalidade dos beneficiários do esquema.
A investigação prossegue para identificar a origem exata dos recursos em espécie e averiguar se outros nomes da política local se beneficiaram da estrutura desmontada na capital roraimense.
Esta não foi a primeira ação policial a atingir o candidato a deputado federal Daniel Trindade na reta final da campanha. No dia 25 de setembro, Trindade já havia sido preso em flagrante pela Polícia Federal. Na ocasião, ele era alvo da Operação Cunhambebe — que apura a criação de uma milícia privada clandestina em terras indígenas —, mas acabou detido após os agentes encontrarem em seus endereços documentos e indícios de compra de votos.
Confira a lista dos presos:
Thyago de Souza Franco (Operador da campanha de Daniel Trindade)
Arthur Henrik Flessak Gomes (Servidor público comissionado e motorista do grupo)
Vanessa da Silva Soares (Responsável pela arregimentação e listas de WhatsApp)
Eleitores Autuados por Corrupção Eleitoral
Alcides Leocadio da Silva
Alcimar da Silva Pereira
Cesar Mafra Nascimento
Danielson Mafra Nascimento
Demerson Nascimento Campos
Ediely Silva Menezes
Edilamar da Silva Lima
Edineide Mafra da Silva
Eduardo Colares da Silva
Francielma da Silva
Jeferson da Costa Castro
Jose de Oliveira Filho
Juliano Bernardes
Khrisna Thielly Lima de Souza
Laerci Maria Pinheiro Barbosa
Rhian Lucio Leocadio Rodrigues
Rikelly Maria Santiago Camurca
Valdinei Nascimento Bezerra
Veronize Silva Menezes
O candidato a deputado estadual Márcio Agra Belota não foi preso. Ele foi o alvo principal do pedido de mandado de busca e apreensão domiciliar e apresentado pela Polícia Federal ao Juízo Eleitoral.
Operação da PF contra deputado em Roraima descobre esquema para compra de votos e prende 22 pessoas
