Uma operação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), deflagrada nesta quinta-feira, mira uma rede bilionária suspeita de explorar apostas ilegais e lavar dinheiro para o crime. Agentes da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado, do Departamento de Combate ao Crime Organizado (DRACO/DECOR), e das polícias civis de São Paulo, Goiás, Paraná, Ceará e Rio Grande do Norte saíram às ruas para cumprir dezenas de mandados de busca e apreensão e medidas de bloqueio patrimonial.
O esquema movimentou cerca de R$ 739 milhões, de acordo com informações financeiras obtidas pelos investigadores. Um fintech de São Paulo, duas empresas do mesmo grupo e seus dirigentes são os principais alvos das buscas e das ordens de bloqueio determinadas pela Justiça — os nomes deles não foram oficialmente divulgados.
O Juízo das Garantias de Sobradinho, no DF, determinou o bloqueio de contas e ativos financeiros de 64 pessoas físicas e 120 pessoas jurídicas até o limite global de R$ 3,483 bilhões, além da indisponibilidade de bens. A decisão também determinou a suspensão das inscrições no CNPJ e dos registros nas juntas comerciais de 100 empresas e empresários, a proibição de abertura de novas contas bancárias pelos investigados durante 90 dias e o afastamento dos sigilos bancário e fiscal de 82 pessoas físicas e 83 pessoas jurídicas.
Iniciadas há cinco meses, após comunicações da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF), as investigações apontaram a operação sem autorização federal de plataformas de apostas de quota fixa (as “bets”). Pagamentos realizados via Pix para as plataformas eram direcionados, segundo a PCDF, para empresas que declaravam atividades diversas, como uma clínica de assistência psicossocial e uma loja de tarô sediadas em Sobradinho, no DF.
Os investigadores descobriram outras empresas abertas entre fevereiro e julho deste ano, com o mesmo capital social e endereços em Sobradinho, Sobradinho II e Ceilândia. Nesses lugares, porém, havia imóveis vazios e outros estabelecimentos comerciais. A polícia passou a apurar o uso de dezenas de empresas de fachada para receber os valores e redistribuí-los entre pessoas, empresas e instituições de pagamento, inclusive com conversão em criptoativos.
Uma fintech de São Paulo, autorizada pelo Banco Central a funcionar como sociedade de crédito direto, também é suspeita. Simulações realizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas, do governo federal, apontaram que as cobranças por Pix dos sites investigados levavam a “inúmeras contas de empresas de fachada mantidas nessa instituição financeira”. Dados financeiros relativos à instituição e a empresas do mesmo grupo indicaram movimentação de cerca de R$ 1 bilhão. O Banco Central já havia divulgado a intenção de cancelar a autorização da fintech.
Ainda de acordo com a PCDF, a apuração também alcança três empresas que receberam autorizações das loterias dos estados da Paraíba e do Rio de Janeiro. Os avais estaduais deixaram de valer após o prazo de transição previsto na Medida Provisória, que proibiu a operação das bets em setembro. Segundo os investigadores, essas empresas foram incluídas na investigação por “vínculos societários e movimentações financeiras suspeitas”.
Operação em 5 estados e DF mira 'império' das bets, e Justiça ordena bloqueio de até R$ 3,4 bilhões
