A Operação Contenção, deflagrada no Rio de Janeiro na terça-feira e que resultou em um número recorde e até aqui impreciso de mortos, está levando, no plano político, a uma união da direita que não acontecia pelo menos desde a condenação e prisão domiciliar de Jair Bolsonaro e os reveses que se seguiram.
Governadores pré-candidatos a presidente, até aqui patinando em pesquisas e no intento de obter aval de um hoje combalido Bolsonaro para seus projetos, se apressaram em parabenizar o governador Cláudio Castro e classificar a ação –cuja concepção ainda não é plenamente conhecida e cujos métodos e resultados dividem especialistas em segurança pública, autoridades e ativistas pelos direitos humanos– como exitosa e exemplar. Ronaldo Caiado e Romeu Zema fizeram vídeos enaltecendo a ação, classificada como histórica.
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Outro efeito discursivo da operação foi ligá-la diretamente à desastrosa fala do presidente Lula no fim de semana durante visita à Malásia, quando, para questionar a política dos Estados Unidos de investidas militares em países da América do Sul sob a justificativa de combater o narcotráfico, se referiu aos traficantes como “vítimas” dos usuários.
A frase foi rapidamente revista pela Secom da Presidência, mas já nas primeiras horas depois da operação nos complexos da Penha e do Alemão começou a aparecer massivamente em comentários de redes sociais por aqueles que apoiaram a ação das polícias do Rio e criticavam aqueles que faziam restrições aos métodos empregados e à alta letalidade.
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Castro e o governo do Rio apostaram todas as fichas no discurso triunfalista para referendar a operação e classificá-la como um sucesso de planejamento e inteligência. Enquanto ainda há uma enorme falta de informação precisa sobre o número de mortos, as circunstâncias dessas mortes, se há inocentes entre as vítimas e se não era possível, dado o emprego de grande contingente de policiais, promover mais prisões e menos mortes, o governador parabenizou os agentes e a Polícia Civil chegou a fazer um post prometendo “resposta rápida e à altura” à morte de 4 policiais.
Esse tom se espraiou para a reação da direita, que abraçou a operação como modelo que deveria ser adotado no enfrentamento ao crime organizado e faccionado. O contraponto com o discurso tradicional da esquerda e com a suposta omissão do governo federal no tema são o substrato dessa investida de narrativa que reuniu uma direita que vinha de derrotas seguidas graças à retomada de diálogo entre Lula e Donald Trump e do fracasso da campanha pela anistia a Bolsonaro e demais condenados por tentativa de golpe, entre outros reveses recentes.
.Não fica claro, dadas a fragmentação atual do campo da direita e a dificuldade de Bolsonaro de passar o bastão, quem vai faturar com esse discurso uníssono em defesa de uma “linha dura” na política de segurança pública, o tema prioritário da campanha de 2026, de acordo com várias pesquisas. Para Castro também não se vê por ora quais seriam os dividendos, porque o governador do PL enfrenta desgaste pessoal e falta de ascendência na própria sucessão
Do lado do governo federal, a frase de Lula acabou se sobrepondo aos esforços recentes para mudar o discurso da esquerda sobre segurança e buscar um papel maior de coordenação federal no assunto, que resultaram na PEC da Segurança, já em tramitação na Câmara, e no projeto antifacções, enviado Casa Civil para ser remetido depois ao Congresso.
