- Com 32 anos e 31 quilos: Homem mantido em cativeiro por pai e madrasta durante 20 anos ‘se educou sozinho’ e era proibido de tomar banho
- ‘Falo para retomar minha vida’: Homem mantido em cativeiro por pai e madrasta durante 20 anos quebrou silêncio em carta aberta
Após a comprovação da existência de pelo menos seis denúncias feitas por vizinhos, colegas e professores entre 1996 e 2005, o Departamento de Crianças e Famílias (DCF) do estado reforçou, em comunicado divulgado pela imprensa americana no mês de julho, que sua atuação no caso seguiu protocolos vigentes na época, embora todas as notificações tenham sido arquivadas por “falta de evidências”.
A posição do órgão foi detalhada após uma revisão interna realizada ao longo dos últimos meses. Agora, o DCF se prepara para acompanhar a audiência marcada para 19 de agosto, quando a madrasta do homem, Kimberly Sullivan, responderá às acusações.
Em comunicado, a atual comissária do DCF, Jodi Hill-Lilly, confirmou que o departamento recebeu notificações. Segundo a representante, todas as denúncias foram investigadas com visitas anunciadas e não anunciadas à residência da família, incluindo inspeções após o horário comercial para tentar envolver todos os membros.
Os relatos também apontam que as condições da casa e a disponibilidade de comida foram observadas e documentadas nas apurações. Além disso, quando possível, as crianças foram entrevistadas separadamente, sem revelar casos de abuso ou negligência.
A comunicação com o pediatra da criança e a enfermeira escolar também ocorreu, de acordo com o DCF, sem que fossem identificados motivos médicos para o quadro de baixa estatura e comportamento “anormal” relacionado à comida. Segundo o DCF, com base nas informações disponíveis e nas exigências legais da época, não houve evidências suficientes para comprovar as denúncias ou para remover a criança do lar.
O órgão também ressaltou que a legislação vigente em Connecticut até 2018 somente permitia entrevistas de crianças sem consentimento parental em casos de abuso, e não em casos de negligência, que era a natureza das denúncias feitas contra a família. Ou seja, o menino não chegou a ser interrogado sem autorização do pai e da madrasta.
Registros policiais indicam pelo menos duas chamadas para a casa após o menino ter sido retirado da escola. Uma, em 1º de abril de 2005, foi feita, segundo o relatório policial, por seus colegas de classe, que temiam “que ele tivesse morrido, porque estava fora da escola há muito tempo”. Kimberly Sullivan disse aos policiais que ele estava sendo educado em casa.
A comissária destacou que o campo da proteção infantil evoluiu significativamente desde então, com mudanças nas leis, melhores práticas e maior apoio a crianças e famílias, e afirmou que o DCF não fará mais comentários, por ora, para não interferir nas investigações criminais em curso.
A madrasta do homem, Kimberly Sullivan, enfrenta acusações que incluem agressão, sequestro, cárcere privado, crueldade e risco à integridade física do enteado. A defesa questiona as alegações e busca acesso irrestrito aos registros médicos da vítima, enquanto a acusação deseja preservar a identidade atual do homem, que mudou de nome para proteção. O juiz decidirá sobre essa questão antes da audiência de 19 de agosto, quando Kimberly deverá comparecer pessoalmente.
O homem foi resgatado em fevereiro deste ano em estado de extrema desnutrição, após provocar um incêndio propositalmente para que o Corpo de Bombeiros fosse acionado, em fevereiro. Ele não era visto publicamente desde 2005, e afirma ter passado a maior parte da vida trancado em um quarto de 2,4 m por 2,7 m, com alimentação insuficiente e sem contato social.
Uma imagem divulgada pelo jornal americano The New York Times em março mostra o interior do quarto. Por 20 anos, o local no último andar de uma casa degradada teria sido uma cela de prisão para um menino — agora um homem — visto pela última vez pelo mundo exterior quando ainda estava na quarta série.
Após o resgate, enquanto a ambulância corria para o hospital, os paramédicos administravam oxigênio; um deles comentou, instintivamente, sobre o cheiro avassalador. Imediatamente, como se quisesse se desculpar, o paciente falou. Fazia mais de um ano desde que lhe permitiram tomar banho pela última vez, disse ele.
Ele então disse seu nome e contou que tinha 32 anos e que passou a maior parte de sua vida mantido em cativeiro por seu pai e sua madrasta, que o trancavam em seu quarto por cerca de 23 horas por dia.
No hospital, ele continuou sua história. Ele ficou preso por duas décadas, forçado a defecar em jornais e a urinar pela janela do segundo andar. Não via um médico ou dentista há 20 anos. Às vezes, recebia um sanduíche como refeição. Seus dentes estavam tão deteriorados que frequentemente quebravam enquanto ele comia. Ele tinha 1,75 m de altura, mas pesava apenas 31 quilos.
A viagem de ambulância, disse ele, foi a primeira vez que saiu de casa desde os 12 anos.
Então, ele fez uma confissão. Ele foi quem provocou o incêndio do qual foi resgatado. Usou um isqueiro esquecido no bolso de um velho casaco que sua madrasta lhe dera. Se não morresse no fogo, raciocinou, talvez finalmente fosse libertado.
Sofrimento silencioso e tentativas de ajuda
Anos antes do desaparecimento do menino, seus professores, colegas, vizinhos e o diretor de sua escola primária acreditavam que ele sofria em silêncio. Eles chamaram repetidamente a Polícia de Waterbury e o Departamento de Crianças e Famílias de Connecticut para intervir por uma criança que, segundo eles, estava tão faminta que comia do lixo e roubava a comida dos colegas.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/E/B/kCzUBWRhyEb40YnGsEmg/conn-stepson-abuse-1.jpg)
Até o incêndio, a última visita policial registrada à casa do menino na Blake Street foi em 18 de abril de 2005, em resposta a uma denúncia feita pelo próprio pai. Ele chamou os oficiais para reclamar que estava sendo assediado por pessoas que verificavam constantemente o bem-estar de seu filho.
Naquele ano, o menino foi retirado da escola, supostamente para ser educado em casa. Em entrevistas com policiais no mês passado, o homem disse que, por um curto período, recebeu algumas atividades escolares, mas toda a educação formal cessou logo depois.
Ele conseguiu escapar uma vez. Em 2005, quando tinha 12 ou 13 anos, quebrou um pedaço do painel da porta, mas, em vez de fugir da casa, desceu até a cozinha para procurar comida. Quando sua fuga foi descoberta, contou à polícia, a porta de seu quarto foi reforçada com madeira compensada. Ameaças de privação de comida ou violência o impediram de tentar novamente.
Não se sabe em que condições as outras filhas dos Sullivans foram criadas ou que conhecimento tinham sobre o estado do meio-irmão. Nenhuma delas foi acusada de crime.
Por um tempo, o menino era autorizado a sair do quarto por cerca de uma hora por dia para fazer tarefas domésticas. Só saía ao ar livre para levar o cachorro da família ao quintal para fazer suas necessidades — saídas que duravam cerca de um minuto. Às vezes, quando sua madrasta estava fora, seu pai o deixava sair para assistirem televisão juntos. Após a morte do pai, contou ele à polícia, seu confinamento tornou-se quase total.