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setembro 29, 2026
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Os bastidores de ser rainha de bateria

Por · setembro 29, 2026
Os bastidores de ser rainha de bateria


Antes do samba-enredo começar, da bateria entrar e das câmeras se voltarem para ela, existe uma história que quase ninguém vê. O carnaval mostra apenas o fragmento mais luminoso da vida de uma rainha de bateria. Por trás dele, há mulheres para quem aquele posto não é vitrine, mas o reconhecimento de um laço construído com a escola, e a realização de um sonho. Tania Bisteka, Patricia Costa e Fabíola Andrade sabem bem o que é isso.
Tânia, por exemplo, soube exatamente o que queria desde o dia em que a Mangueira anunciou um concurso para escolher a rainha de bateria em 1999. Não tratou como brincadeira, encarou como se concorresse a um cargo político. Espalhou faixas com o próprio nome pela quadra, abordava os integrantes da bateria para contar sua trajetória com a escola e, a quem estivesse por perto, defendia com convicção que merecia sair vencedora.
Na época, o concurso reunia dez candidatas e um júri escolhido pela própria bateria, que avaliaria três entradas de cada uma. Durante o mês entre a inscrição e a disputa, Tânia lutou à sua maneira e sonhou com o que viria. Pôs em prática as ideias para viver o que define como uma festa: “Eu fiz blusas com a minha cara. Eu entrei, fiz uma roupa linda, fiz um biquíni lindo e ganhei. As pessoas desciam o morro para assistir! Só que você imagina, o morro todo lá embaixo gritando, berrando e falando.”
A emoção foi grande quando descobriu que o que tanto queria se realizou. E deixa claro que ser rainha não é fácil. Estava o ano todo presente em ensaios, na academia e no boxe. Cuidava da alimentação, mesmo que reconheça que ter nutricionista não era tão acessível quanto hoje. E estava sempre na quadra, sem desculpas, para sambar até o fôlego acabar. Tudo na intenção de melhorar a resistência. Esse era seu preparo.
Carnaval – Desfile da escola de samba Estação Primeira de Mangueira com o enredo “O século do samba” : rainha da bateria Tania Bisteka
Marizilda Cruppe / Agência O Globo – Negativo 99-04103
Mas além da preparação em relação a exercícios e alimentação, Tania também se preparou psicologicamente e com a sua fé. A partir da espiritualidade, tomou uma atitude totalmente inusitada antes do desfile para que entrasse na avenida com energia boa. Conta que a Mangueira estava na concentração em um local que existia um valão, onde tirou sua roupa: “Eu fiquei pelada. Convoquei a todos, e quando as pessoas passavam e me viam diziam “meu Deus, a rainha está pelada!” E foi muito louco. Eu estava só com uma canga, eu arranquei a canga e comecei meu ritual.”
Nascida no morro da Mangueira, foi muito bem recebida pela bateria. Algumas pessoas a chamam de rainha até hoje e, ao lembrar daquele ano, ela percebe que o processo é diferente para uma rainha cria. “É um trabalho árduo, mas que vale muito a pena. Principalmente quando você é da comunidade, uma rainha pé no chão. Quando eu digo pé no chão, quero dizer uma rainha do povo, né? Quando a rainha é cria da escola, ela é mais cobrada do que quando não é. Porque está ali para mostrar que realmente mereceu estar naquele lugar de rainha.”
Patrícia Costa, rainha de bateria da Viradouro de 1991 a 1998, também sentiu essa diferença. Ela conta que as pessoas famosas pareciam ter mais abertura para ocupar esse espaço. Quando foi chamada, já fazia balé, jazz e sapateado. O convite veio de forma surpreendente, quando foi prestigiar o mestre Maçal, com quem já havia feito um trabalho, e acabou sambando muito com os passistas. Foi um verdadeiro teste de fogo.
Naquele dia, o então presidente da escola viu o movimento e ficou interessado em conhecê-la. No fim, a chamou ao camarote e fez o convite, quando teve que assumir uma postura: “Eu precisei me colocar assim, com muita responsabilidade e auto valorização da minha posição como uma artista do samba, uma artista, uma sambista que sabia o que estava fazendo ali à frente da bateria. Não foi fácil. Assim, fui conquistando a comunidade com a minha presença e dedicação.”
Rio de Janeiro (RJ) – 23/02/1998 – Carnaval – Escola de Samba – Viradouro – Desfile – Patricia Santos (Rainha da bateria)
Ivo Gonzalez / Agência O Globo – Neg: 98-04405
Patrícia explica que a relação com os mestres de bateria e os ritmistas é essencial. Durante os ensaios, a sintonia vai sendo construída. A partir das frases musicais e dos sons da bateria, surge uma criatividade que forma combinações capazes de ajudar a rainha a se movimentar em harmonia com os ritmistas. Nem tudo, porém, são flores. Sobre os perrengues, ela lembra de um ano em que desfilou com o sapato fechado e arrasou na avenida, mas terminou o desfile carregada no colo pelo namorado.
Se sente neta da Águia da Portela, já que o avô foi um dos fundadores da escola. Cresceu ouvindo as histórias e foi ali que o amor pelo samba começou. Durante o desfile, essa paixão mantinha qualquer desconforto longe: “Nunca aconteceu de eu sentir alguma dor durante o desfile. O corpo fica quente, acontece uma troca de energia maravilhosa com o público, uma energia tão boa que não tem muito lugar para sentir dor. Para mim, naquele palco tem uma magia, o show acontece. Sem dor.”
Rio de Janeiro (RJ) 27/02/1995 – Desfile da escola de samba Unidos do Viradouro, com o enredo “O rei e os três espantos de Debret”: Patricia Costa, rainha da bateria
Julio Cesar Guimarães / Agência O Globo – Negativo 95-03632
Anos depois, em outra escola e com outra coroa, uma nova história começava a ser escrita. Fabíola Andrade foi rainha de bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel de 2024 a 2026 e hoje é rainha da escola. Desde criança, já se encantava com a festa, o ritmo e a energia das escolas de samba. Para ela, ser rainha de bateria é fazer parte da história viva do carnaval carioca, levar alegria e garra a uma comunidade inteira.
Pensando nas fantasias, diz que é um trabalho artesanal e demorado, feito em equipe com o carnavalesco e estilistas renomados do Carnaval. Segundo ela, os costeiros podem pesar de dez a vinte quilos e o salto alto exige estrutura. Então, garantir que nada saia do lugar é uma verdadeira engenharia. A rainha lembra que já precisou até de uma costura de última hora na fantasia, na concentração, com o coração aos pulos e frio na barriga.
RI Rio de Janeiro, RJ 04/03/2025 Carnaval 2025 – Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial – Mocidade Independente de Padre Miguel – Na foto a rainha de bateria Fabiola de Andrade.
Domingos Peixoto – Ag O Globo
Assim como Patrícia, acredita que a adrenalina é um anestésico natural inacreditável, fazendo com que a garra da comunidade e a troca de energia impulsionem toda a animação: “É uma relação de puro amor, cumplicidade e respeito. O mestre de bateria e os ritmistas são o coração da escola, e eu estou ali para ser a energia vibrante daquele ritmo. A gente combina olhares, paradinhas, paradões e a forma como vou responder na dança a cada desenho da bateria.”
Apesar disso, também tem seu próprio ritual para que tudo aconteça da maneira certa. Além da parte estética e concentração, também conta com orações, esparadrapo nos pés para evitar bolhas, sprays para fixar bem a maquiagem na suadeira da Sapucaí e um shot bem reforçado de energia e hidratação. Quatro ou cinco meses antes do grande dia, a intensidade de tudo vira de atleta.
Quem vê de longe, para Patrícia, não imagina a dedicação por trás. Mas tudo faz sentido quando coloca os pés onde eles deveriam estar: “O momento em que a bateria acerta a primeira batida na concentração, a comunidade canta o samba-enredo a uma só voz. Aquele rugido da Sapucai, a troca de olhares com as pessoas nas arquibancadas e ver o orgulho nos olhos da comunidade de Padre Miguel…Isso é inesquecível, fica gravado na alma para a vida toda!”

Os bastidores de ser rainha de bateria