Se, dentro do sistema penitenciário, Marcinho VP é tratado como o chefão do Comando Vermelho, fora das grades um dos principais nomes da facção é Edgar Alves de Andrade, o Doca. Integrante da cúpula da organização e apontado como o “01” do Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio, o criminoso é considerado pela polícia um dos traficantes mais perigosos e influentes do estado. Não à toa, é o único que ainda tem recompensa oferecida pelo Disque-Denúncia por informações que levem à sua prisão. Em uma investigação da Polícia Federal revelada pelo GLOBO, Doca aparece em uma conversa falando sobre o interesse em cooptar um deputado fluminense.
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A PF aponta que, em 16 de janeiro de 2025, o traficante Carlos Costa Neves, o Gardenal, encaminhou a Doca uma foto de outro deputado, Roosevelt Barreto Barcelos (PRD), conhecido como Val Ceasa, no Palácio Guanabara, a sede do governo do Rio. Na imagem, o parlamentar aparece após uma reunião sobre o programa Segurança Presente, ao lado do então governador Cláudio Castro e dois vereadores.
Investigação da Polícia Federal
Reprodução
Depois de enviar a foto, Gardenal escreveu: “Te falei, Val é o contato dele”, sem explicar a quem se referia o “dele”. Em seguida, Doca respondeu: “É, mano, esse cara tem que vir para nós”. A PF destaca que a troca de mensagens demonstra o “evidente” interesse da facção em aliciar agentes políticos para aumentar o poder do grupo, conquistar proteção institucional e exercer influência sobre decisões públicas. Segundo os investigadores, a aproximação com políticos também teria como objetivo usar esses aliados como porta-vozes indiretos, influenciando ações sociais e garantindo que iniciativas do Estado não interfiram em áreas dominadas pela facção.
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Apesar de não ficar claro de quem Val seria contato, uma fonte da PF confirmou que a conversa dos criminosos remete a uma suposta aliança do político com Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefe do Terceiro Comando Puro (TCP), facção rival do CV. A conexão entre os dois foi tema de uma reportagem do GLOBO publicada três meses após o diálogo. A matéria mostrou que a demolição de um resort de Peixão, na Cidade Alta, Zona Norte do Rio, foi adiada por 15 meses após uma suposta articulação política envolvendo Val Ceasa.
O caso é alvo de uma investigação da Procuradoria-Geral de Justiça que tramita sob sigilo. O deputado sempre refutou as acusações. Sobre as mensagens entre Doca e Gardenal, diz que a citação “não significa, em hipótese alguma, qualquer relação pessoal, aliança ou compromisso” e que repudia tentativas de ligação da imagem dele ao crime organizado. Castro também rechaçou “qualquer tentativa de associá-lo a organizações criminosas a partir de interpretações atribuídas a diálogos de terceiros” e disse que a foto retrata uma reunião institucional no Palácio Guanabara.
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Mais de 300 anotações
Protegido por uma fortaleza armada na favela, Doca, que acumula mais de 300 anotações criminais, tem poder para comandar invasões de comunidades, ordenar execuções de rivais e estabelecer alianças estratégicas dentro do crime organizado.
Foi sob a chefia de Doca que o Comando Vermelho tomou, segundo a polícia, mais de 40 favelas nos últimos três anos. Os grupos responsáveis pelas invasões são chamados de “Tropa do Urso”, em referência ao traficante. Na favela, é considerado símbolo de status estar próximo de Doca, ainda que na função de segurança.
A polícia conseguiu mensagens que mostram o planejamento para a guerra. Em uma conversa com Gadernal, Doca orienta: “Tem que entrar matando, não adianta só colocar para correr”. A mensagem fazia referência à invasão armada ao Morro do Juramento, na Zona Norte do Rio, ocorrida em fevereiro do ano passado.
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Segundo as investigações, Doca também teria ordenado a morte dos acusados de assassinar por engano três médicos na orla da Barra da Tijuca, em 2023. Um dia após os médicos serem executados por terem sido confundidos com milicianos, quatro traficantes foram encontrados mortos pela polícia dentro de dois carros. As investigações apontaram que a execução foi uma punição pelo erro cometido.
Ele é suspeito de envolvimento em mais de cem homicídios, incluindo execuções e desaparecimentos. Com mais de dez anos de atuação no crime, Doca foi preso apenas uma vez, em 2007. Deixou a cadeia em 2016, após decisão judicial, e nunca mais foi localizado.
No ano passado, ele era um dos principais alvos da megaoperação policial que terminou com 122 mortos em outubro. A ação se tornou a operação policial mais letal já registrada no país.
O que dizem os citados
Em nota, o deputado Val Ceasa informou que jamais teve qualquer relação com organizações criminosas ou praticou qualquer ato ilícito.
“Sou uma pessoa pública, com atuação política conhecida em todo o Estado do Rio de Janeiro, participando diariamente de agendas institucionais, eventos públicos, reuniões políticas e encontros com inúmeras pessoas e autoridades. Infelizmente, o fato de terceiros mencionarem meu nome ou desejarem proximidade política não significa, em hipótese alguma, qualquer relação pessoal, aliança ou compromisso da minha parte. Da mesma forma que criminosos muitas vezes tentam se aproximar ou citar nomes de autoridades, parlamentares, promotores, juízes, delegados e outras figuras públicas para buscar prestígio ou influência, isso jamais significará vínculo legítimo com pessoas de bem e comprometidas com a lei.
Repudio qualquer tentativa de associação indevida da minha imagem ao crime organizado. Minha trajetória pública sempre foi pautada pelo trabalho, pela transparência e pelo respeito às instituições. Quanto aos fatos mencionados em reportagens anteriores, reitero que nunca houve demonstração de qualquer conduta irregular da minha parte e permaneço à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos necessários.”
Em nota, o ex-governador Cláudio Castro afirmou que repudia qualquer tentativa de associá-lo a organizações criminosas “a partir de interpretações atribuídas a diálogos de terceiros investigados pela Polícia Federal.”
“A imagem mencionada retrata uma reunião institucional no Palácio Guanabara com um deputado da base do governo e dois vereadores da capital. Ao longo de dois mandatos, o então governador recebeu milhares de parlamentares, lideranças políticas, representantes da sociedade civil e setores econômicos do estado.
Não existe qualquer tipo de ligação do ex-governador com facções criminosas. Ao contrário: sua gestão teve como uma das principais marcas o enfrentamento firme ao Comando Vermelho e ao crime organizado, com operações integradas, investimentos recordes em Segurança Pública, fortalecimento das forças policiais, uso intensivo de inteligência e tecnologia e ações permanentes contra lideranças do tráfico.
Foi sob sua gestão, inclusive, que o Estado realizou a Operação Contenção, considerada uma das maiores ofensivas contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, além de uma atuação permanente em defesa do endurecimento das leis contra facções criminosas e da classificação desses grupos como organizações de narcoterrorismo. O ex-governador também lamenta o vazamento seletivo de investigações, prática que não contribui para o fortalecimento das instituições nem para a correta apuração dos fatos, sempre respeitando o direito à ampla defesa.”
O vereador Ulisses Marins disse que não tem qualquer ligação com pessoas envolvidas em organizações criminosas.
“Sobre a citação feita na reportagem do ano passado, nunca houve qualquer conclusão ou medida que apontasse irregularidade da minha parte. Meu trabalho sempre foi pautado pelo diálogo institucional e pela atuação pública transparente”.
Jair de Mendes afirmou, em nota, que a agenda no Palácio Guanabara foi articulada por ele em um contexto político e institucional.
“A existência de uma fotografia em ambiente público ou comentários feitos por terceiros investigados não podem ser usados para criar qualquer ilação sobre minha conduta. Não tenho qualquer envolvimento com organizações criminosas e repudio qualquer tentativa de associação da minha imagem a esse tipo de prática. Sou uma pessoa pública, conhecida no meio político e social, e naturalmente participo de reuniões, encontros e agendas com diversas autoridades, lideranças e pessoas da sociedade civil. Isso jamais pode ser confundido com vínculo ou relação com atividades ilícitas.”
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