No Outubro Rosa, a conversa sobre câncer de mama costuma girar em torno do autoexame e da mamografia. A pele da região, porém, também merece atenção, primeiro como possível sinal de alerta e, depois do diagnóstico, como parte da recuperação. É o que explicam a dermatologista Juliana Piquet, da Clínica Piquet, no Leblon, e a cirurgiã plástica Maiéve Corralo. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar cerca de 78,6 mil novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028, o que mantém o câncer de mama como o mais frequente entre as brasileiras, sem contar os tumores de pele não melanoma.
Juliana lembra que nem toda irritação na pele das mamas é dermatite, embora na maioria das vezes a explicação seja mesmo simples. Um sabonete novo, o tecido do sutiã, um adesivo ou o suor acumulado na dobra abaixo do seio podem provocar vermelhidão, coceira e descamação, e dermatite de contato, eczema, psoríase, micoses e candidíase estão entre as causas mais comuns. “A maioria das alterações da pele nessa região tem causas benignas, mas o que chama especialmente a atenção é uma mudança nova, persistente, unilateral ou progressiva, principalmente quando não apresenta a evolução esperada com o tratamento dermatológico”, afirma a dermatologista. Por isso, no consultório, ela observa não só a aparência da lesão, mas quando surgiu, se afeta uma ou as duas mamas, se está evoluindo e como respondeu ao que já foi usado.
O exemplo mais clássico dessa confusão é a doença de Paget da mama, uma forma pouco frequente de câncer que pode começar como algo muito parecido com um eczema no mamilo e na aréola. Segundo o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI), ela corresponde a cerca de 1% a 3% dos casos de câncer de mama. “Uma lesão persistente, principalmente unilateral e localizada no mamilo, que não melhora como seria esperado com o tratamento, merece investigação específica”, explica Juliana.
Outro sinal que costuma passar despercebido é a pele com aspecto de casca de laranja, quando o inchaço deixa os poros mais marcados. A alteração pode ter causas benignas, mas também é típica do câncer de mama inflamatório, uma forma rara da doença que às vezes se manifesta sem um nódulo fácil de apalpar. Nesse caso, assim como diante de retrações recentes, inchaço importante ou aumento progressivo de uma das mamas, a investigação não deve ser adiada, segundo a dermatologista.
Diante de uma alteração recente na pele ou no mamilo, o dermatologista pode ser o primeiro a avaliar e ajudar a identificar causas benignas. Mas crostas ou descamações que não cedem, feridas que não fecham, sangramento, secreção ou mudanças em apenas um lado pedem uma investigação mais ampla, que pode incluir consulta com o mastologista, exames de imagem e biópsia. “Dermatologista e mastologista não são caminhos excludentes. Diante de uma alteração suspeita, o mais importante é não atribuí-la automaticamente a uma dermatite e simplesmente manter tratamentos tópicos indefinidamente”, diz Juliana. “Se a evolução não é a esperada, é preciso ampliar a investigação.”
Quando o diagnóstico se confirma e a mastectomia é indicada, a pele também pesa nas decisões seguintes. Segundo Maiéve, a quantidade e a qualidade da pele disponível e os efeitos da radioterapia estão entre os fatores que definem a técnica de reconstrução mamária. As opções incluem próteses de silicone, expansores de pele e, quando necessário, tecidos e músculos de outras partes do corpo. Sempre que as condições clínicas e oncológicas permitem, a cirurgia pode acontecer no mesmo momento da retirada da mama. Quando isso não é possível, a paciente pode conversar com a equipe médica sobre o melhor momento para fazê-la depois do tratamento.
A cirurgiã faz questão de separar a reconstrução de uma cirurgia estética. “O procedimento busca restaurar a anatomia e proporcionar maior simetria, respeitando as particularidades de cada caso”, explica Maiéve. Ela também chama atenção para as expectativas. “O resultado não reproduz necessariamente a mama original e o processo pode exigir etapas adicionais para melhorar o contorno, as cicatrizes e a qualidade da pele”.
Depois de enfrentar o câncer, muitas mulheres deixam a reconstrução em segundo plano. Para Maiéve, o tema deve ser discutido como parte do planejamento do tratamento, levando em conta o desejo, as condições clínicas e as expectativas de cada paciente. “Ouço muito das pacientes que reconstruir a mama seria vaidade diante de tudo o que passaram. Ninguém é obrigada a fazer, mas se olhar no espelho e se reconhecer também faz parte da recuperação”, conclui.
Outubro Rosa: Pele dos seios muda antes e depois do diagnóstico de câncer de mama; Entenda
