Embora sempre tenha gostado daqueles calhamaços de não ficção que são até desajeitados de ser ler no ônibus, a comunicadora Nana Soares, de 33 anos, decidiu tirar férias de livros grandes depois de passar sete meses se arrastando pelas quase 700 páginas de “O despertar de tudo: uma nova história da humanidade”, dos antropólogos David Graeber e David Wengrow. Por mais interessada que estivesse, era difícil se concentrar na argumentação dos autores depois de um dia cheio de trabalho. A leitura nem parecia mais um lazer.
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À procura de livros curtos, que pudesse enfrentar numa tarde livre ou antes de dormir, esbarrou em “O acontecimento”, de Annie Ernaux, de 80 páginas — em 2022, quando a francesa ganhou o Nobel de Literatura, a escritora americana Alexandra Kleeman disse no Twitter (hoje com o nome de X) que era “uma grande vitória para os livros finos”. Arrebatada pelo relato do aborto clandestino da autora, no início dos anos 1960, Nana seguiu lendo Ernaux e arriscou outros autores de livros diminutos, como Édouard Louis, Ailton Krenak e Conceição Evaristo. Percebeu que estava lendo cada vez mais e publicou um texto sobre a experiência de trocar os livrões pelos livrinhos em sua newsletter, “Textinhos e textões”.
— Muita gente se identificou, disse que a leitura tinha se tornado uma fonte de ansiedade e os livros curtos apareceram como uma espécie de remédio — conta a comunicadora. — Recebi várias dicas de livros curtos. Fiquei com a sensação de que a oferta está maior.
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Está mesmo. Autores célebres pela concisão, de Ernaux ao argentino César Aira, fazem a cabeça dos brasileiros, influenciadores recomendam títulos para ler em um dia e mais editoras investem no nicho “livros curtos”. Alguns selos, como Círculo de Poemas (da Fósforo) e Janela + Mapa Lab, vêm apostando em plaquetes, publicações artesanais que não chegam a 50 páginas.
A WordsRated, plataforma americana especializada no mercado editorial, observou que a participação de obras com mais de 400 páginas nas listas de mais vendidos publicadas semanalmente no New York Times caiu de 54% para 38% entre 2011 e 2021.
Não faltam razões para escolher os livros curtos. Mesmo que a leitura não esteja agradando, o leitor se consola sabendo que o fim está próximo. Se o tempo e a concentração são escassos, talvez seja mais negócio ler as 104 páginas de “Carta a D.”, de André Gorz, “numa sentada”, como se diz, do que passar semanas tentando memorizar os nomes de todos os personagens de “A montanha mágica” (856 páginas), de Thomas Mann. O editor Flavio Pinheiro lembra outra vantagem dos volumes menores:
— São mais anatômicos, mais fáceis de ler na cama, no avião, no trem — brinca ele, que passou 17 anos na ponte área Rio-São Paulo acompanhado de livros fininhos. — É muito bom ler um texto curto escrito com talento e sabedoria. Você sente que ganhou tempo e enriqueceu a vida.
Admirador das bem-cuidadas coleções de livros curtos de editoras estrangeiras, como a Cuadernos Anagrama (espanhola) e a Faber Stories (americana), Pinheiro edita o Poente, selo de ficção contemporânea da WMF Martins Fontes. Em agosto, estreia a coleção Cadernos Poente, dedicada sobretudo à prosa enxuta (menos de cem páginas) escrita por poetas. Os primeiros títulos confirmados são “Os pêssegos e o outros contos”, do galês Dylan Thomas, e “Minha mãe e a música”, da russa Marina Tsvetáeva.
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Em maio, veio à luz a Seja Breve, editora cuja missão é publicar somente obras curtas, dos mais diversos gêneros. O primeiro lote inclui o romance “Despaixão”, estreia de Paula Lopes Ferreira, a seleta de crônicas “Lugares para chorar no Recife”, de DJ Dolores e três títulos de não ficção: “Que não se repita”, em que Eugênio Bucci recorda a “quase morte da democracia brasileira” no governo Bolsonaro, “O príncipe do box”, retrato do pugilista Waldemar Zumbano escrito pelo neto dele, o jornalista Fabio Altman, e “Notícias de trânsito”, de Cadão Volpato (sócio da editora), que narra suas reações à transição de gênero da filha. A tiragem inicial foi modesta, apenas 500 exemplares de cada. Mas já esgotou.
— As livrarias estão sendo super receptivas. Nossos títulos acabam ocupando aquele espaço estratégico perto do caixa. Descobrimos um nicho, um jeito diferenciado de entrar no mercado — diz Bernardo Ajzenberg, escritor (que dificilmente publica mais de 200 páginas) e sócio da editora.
A Seja Breve também pretende garimpar pequenas joias de autores já em domínio público. Por ora, os editores estão abordando autores para perguntar se eles não têm nada publicável (e breve) escondido na gaveta ou uma ideia na cabeça capaz de inspirar um livrinho.
— Antes, você apresentava um livro às editoras e às vezes ouvia: “é muito curto”. Eu ficava puto! Ia fazer o quê, encher linguiça? Livro curto é um refresco não só para os leitores, mas também para escritores que às vezes têm uma ideia e não sabem onde colocá-la porque não vai render uma obra longa — afirma Cadão Volpato, que também é autor de livros enxutos. — Do meu ponto de vista, a’
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Ano passado, César Aira disse ao GLOBO que escreve livros tão magrinhos porque talvez seja “um poeta frustrado”.
Diretora editorial da Fósforo, Rita Mattar observa uma mudança no mercado: coisa de uma década atrás, catataus como “Os detetives selvagens” (624 páginas), de Roberto Bolaño, “Graça infinita” (1.144 páginas), de David Foster Wallace, faziam muito barulho, enquanto hoje, “é mais comum pedir para o autor encurtar o texto do que o contrário”, diz ela.
Embora a Fósforo publique livros de todos os tamanhos (da prosa enxuta de César Aira a títulos que ultrapassam 400 páginas), Rita admite que há incentivos econômicos para privilegiar os mais curtos. Obras extensas, explica a editora, demandam maior investimento inicial e por isso passam por um “escrutínio mais duro” para assegurar que o retorno virá. O preço do papel está nas alturas desde a pandemia. E as traduções são pagas por lauda: quanto maior o livro, mais caro é vertê-lo para o português, principalmente se for de uma língua que poucos profissionais dominam.
— Mas nem sempre as leis de mercado convergem com as da literatura. O que realmente importa é o casamento perfeito entre forma e conteúdo. Seria difícil, por exemplo, ler um livro de César Aira com mais de 200 páginas, porque é muita loucura concentrada. Também não faz sentido condensar a prosa de certos autores — afirma Rita.
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O influenciador Pedro Pacífico, o Bookster, conta que é recorrente seus seguidores (quase 700 mil só no Instagram) pedirem dicas de livros “que prendam a atenção até o final”.
— Como não leio muito suspense, recomendo livros curtos para ajudá-los a desenvolver o hábito da leitura. As telas afetam demais a nossa a concentração, não conseguimos mais lidar com a pausa, com o tédio. Assim fica difícil ler livros mais longos. O livro curto dá a sensação de que você está avançando: “Pô, já li 30, 40 páginas e não falta tanto para terminar”. Agora, se ainda faltam 550 páginas, é maior o risco de abandonar a leitura — diz ele, que com frequência indica “A mercadoria mais preciosa”, de Jean-Claude Grumberg, que tem só 80 páginas.
O influenciador percebe que há quem abrace obras menos extensas num espírito competitivo, só para inflar aquelas listas de livros lidos exibidas nas redes sociais no fim do ano.
Em sua newsletter, Nana Soares, a comunicadora que tirou férias de livros grandes se perguntou se a opção pelos pequenininhos não repetiria “a mesma lógica das redes sociais, dos vídeos curtos à la Tiktok”: “a lógica da recompensa instantânea”. “Vale pensar se não corro o risco de me transformar numa leitora-operária, consumindo palavras em um modelo fordista”, problematizou.
— Perceber eu estava procurando livros curtos porque me dava uma sensação de alívio foi um sinal de alerta. Estou tentando intercalar um livro curto e um maior, que leio quando estou mais disposta. Ou não, porque às vezes a disposição vem enquanto a gente lê — conta Nana. — Agora, leio com mais intencionalidade, sem tanta pressa de acabar. Descobri autores maravilhosos e que grandes livros nem sempre são livros grandes.
- “Futuro ancestral”, de Ailton Krenak
- “Carta a D.”, de André Gorz
- O acontecimento, de Annie Ernaux
- “Notícias de trânsito”, de Cadão Volpato
- “Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo
- “Lugares para chorar no Recife”, de DJ Dolores
- “Os pêssegos e o outros contos”, de Dylan Thomas
- “Lutas e metamorfoses de uma mulher”, de Édouard Louis
- “Que não se repita”, de Eugênio Bucci
- “O príncipe do box”, de Fabio Altman
- “A mercadoria mais preciosa”, de Jean-Claude Grumberg
- “Minha mãe e a música”, de Marina Tsvetáeva
- “Despaixão”, de Paula Lopes Ferreira