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‘Para que ela aconteça de forma diferente, mais pacífica’

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julho 22, 2025
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Denis Podalydès vive fictício filósofo no filme 'Uma bela vida', dirigido por Costa-Gavras e baseado em livro de Régis Debray — Foto: Divulgação

Cronista do totalitarismo que marcou a segunda metade do século XX, Costa-Gavras resolveu abandonar temporariamente os “ismos” de sua longa filmografia política para deter-se sobre um tema mais amplo, que nos iguala a todos, independentemente do espectro social e ideológico de cada um: a morte. Em “Uma bela vida”, elogiado longa (o Bonequinho aplaude de pé) que acaba de estrear nos cinemas brasileiros, o autor de “Z” (1969) e “Estado de sítio” (1972), entre outros títulos premiados, convida o espectador a refletir não sobre a morte em si, como uma ameaça aterradora, mas sobre a necessidade de nos organizarmos para nos despedirmos da vida de forma digna.

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Adaptação do livro do jornalista Régis Debray e do médico Claude Grange, o filme descreve as experiências de um filósofo que, confrontado com a própria mortalidade, passa a frequentar os corredores de uma instituição que oferece cuidados paliativos a doentes terminais, em busca de inspiração para um novo livro e conforto pessoal.

— É importante estar preparado para o fim, que é inevitável. Mais importante ainda: precisamos também desdramatizá-lo, tirar-lhe o peso da gravidade — disse o diretor grego (naturalizado francês) de 92 anos ao GLOBO durante o Festival de Roterdã, onde “Uma bela vida” foi exibido na mostra Harbour. — Passamos a vida inteira pensando na morte como algo distante no horizonte. Mas não devemos perdê-la de vista, porque fica mais fácil aceitá-la, de modo que ela aconteça de forma diferente, mais pacífica. É um jeito de sair de cena com dignidade para si e para aqueles que ficam.

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Costa-Gavras já estava chegando aos 90 anos quando o livro de Debray e Grange lhe chegou às mãos. Ele sabia da existência do tipo de especialidade terapêutica que lida com o tema, mas ficou comovido com os casos descritos pelos próprios médicos e seus pacientes. Confessa que também havia um interesse pessoal no assunto, afinal “era uma realidade cada vez mais próxima, e o melhor maneira de refletir sobre essa situação era se aproximando dela”. O diretor se deu conta que fazer um filme como “Uma bela vida” seria “a melhor forma de me relacionar com a ideia da morte”, mas era preciso vencer um outro obstáculo no mundo dos vivos: o mercado.

— A morte ainda é um tabu. Michelle (casada com Costa-Gavras e produtora do cineasta por quase 60 anos) enfrentou muitas dificuldades para levantar recursos porque ninguém queria se envolver num filme sobre a morte. “Quem vai querer ver isso?”, perguntavam. Felizmente, ela conseguiu encontrar parceiros interessados em difundir essa discussão — lembrou o realizador, ganhador do Oscar, da Palma de Ouro em Cannes e do Urso de Ouro em Berlim. — Foi preciso reforçar que não pretendia falar sobre a morte, uma palavra da qual temos muito medo desde crianças, mas da jornada de saída deste plano. Porque, sim, é uma jornada, para o paraíso, para o céu, para outra forma de vida, qualquer destino que uma pessoa tenha esperança de chegar.

Denis Podalydès vive fictício filósofo no filme ‘Uma bela vida’, dirigido por Costa-Gavras e baseado em livro de Régis Debray — Foto: Divulgação

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  • A partir de 30 casos reais
  • Reivindicação na França
      • ‘Para que ela aconteça de forma diferente, mais pacífica’

A partir de 30 casos reais

O filme se concentra em alguns dos 30 casos reais expostos no livro de Debray e Grange, que também colaboraram com Costa-Gavras na construção do roteiro. A ligação entre eles é estabelecida por um personagem fictício, Fabrice Toussaint (Denis Podalydès), filósofo famoso que descobre uma pequena lesão no abdômen durante uma viagem promocional a Boston. A descoberta acontece no momento em que seu romance mais famoso, sobre pessoas em seus anos finais de vida, está sendo transformado em programa de TV, para o qual começa a fazer pesquisas dentro de uma unidade que presta cuidados paliativos, administrada pelo médico Augustin Masset (Kad Merad).

— Era preciso criar personagens sem trair os fatos, comprometer os casos reais que escolhemos do livro. Daí nasceu a necessidade de imaginar Fabrice como um fio condutor, que estabelece uma relação de amizade com Augustin e o acompanha em seus atendimentos — esclareceu Costa-Gavras. — A presença de uma figura de ligação era necessária porque se trata de um espetáculo, feito para provocar sentimentos e assim conquistar a atenção do espectador, fazendo-o refletir sobre o que vê. Ou talvez nem provoque nada. Mas é disso que trata o cinema de ficção para mim. Caso contrário, teríamos feito um documentário, que tem outra função.

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Fabrice testemunha, em primeira mão, diferentes formas de encarar a despedida. Um jovem em seus 30 anos não reage bem à internação porque desejava fazer quimioterapia. Mais adiante, um homem afastado da mulher e dos filhos por causa do tratamento pede para passar seus últimos dias com eles. Um idoso implora para ver seu cãozinho antes de encerrar sua jornada. Motociclistas fazem uma pequena “motociata” diante do hospital, para homenagear um amigo moribundo. Uma senhora quer realizar o último desejo: comer ostras e beber vinho branco em casa, na companhia de seu filho. Há ainda a família de ciganos, que se despede da sua frágil matriarca cantando e dançando para ela.

Esta última personagem, interpretada pela atriz Angela Molina, é parte do único caso que não consta no livro original.

— Eu desejava ter um final parecido como uma boa tragédia grega, com um coral de mulheres cantando ao redor da personagem que se despede da vida terrena, indo para o céu ou para onde sua crença a leve — esclareceu o diretor, que escalou médicos, enfermeiros e assistentes de enfermagem reais para atuarem em torno dos atores protagonistas. — Eles conferiram autenticidade ao que estava sendo encenado. Ninguém pode descrever melhor uma situação do que alguém que a tenha vivido. O livro foi perfeito para entender isso. Quando mostramos o filme à equipe do hospital, todos ficaram contentes com o que viram, porque mostrava a paixão pelo trabalho que fazem.

Costa-Gavras dirige cena de'Uma bela vida': cineasta usou profissionais de saúde no filme para dar autenticidade — Foto: Divulgação
Costa-Gavras dirige cena de ‘Uma bela vida’: cineasta usou profissionais de saúde no filme para dar autenticidade — Foto: Divulgação

Reivindicação na França

Conhecido por seu comprometimento político dentro e também fora das telas, Costa-Gavras enfatiza a necessidade de ampliar este tipo de assistência a pacientes terminais, especialmente em sociedades que envelhecem rapidamente. Na França, o julgamento de um projeto de lei prometido pelo presidente Emmanuel Macron que legalizava o suicídio assistido e, em certos casos, a eutanásia, foi suspenso em 2023, com forte oposição de nomes da direita conservadora. Segundo o realizador, os governos, em geral, precisam oferecer uma resposta mais rápida para assunto tão sensível, porque “o estado deveria ter coragem de ir além dos cuidados paliativos”.

— Esse tipo de instituição, como a mostrada no filme, seria a solução perfeita para aqueles que decidem encurtar seu sofrimento. Mas, na França, há apenas 300 leitos desse tipo. Precisamos de pelo menos 2 mil. É um serviço público, sustentado pelo governo. Mas sua ampliação é um processo lento, que esbarra em falta de recursos e de vontade política, infelizmente — lamenta o diretor, que reconhece o caráter político de “Uma bela vida”. — Sim, todos os filmes são políticos. Mesmo os filmes mais estúpidos (risos). Não podemos escapar da política, porque todos nós temos o poder de alguém ou sobre alguém e, dependendo do uso que damos a esse poder, ele pode nos fazer mais felizes ou mais infelizes.

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