O futebol talvez seja o único esporte que já sabe o que vai acontecer se alguma coisa mudar em suas regras. Se acabar a suspensão por cartões? A violência em campo vai aumentar. Se acabar a prorrogação? Os times mais fracos vão ter mais incentivo para jogar pelo empate. Assim, penduricalhos como esses vão se mantendo, mesmo já tendo deixado de fazer sentido há muito tempo. E a Fifa, em vez de ir direto ao ponto, vai experimentando mudanças ao redor, tornando o compêndio de 1863, famoso pela simplicidade de seus 17 itens, cada vez mais cheio de emendas e difícil de entender.
No pacote para a próxima Copa, há um exemplo bem claro. Além de serem cobrados para aplicar com mais rigor a contagem de oito segundos na reposição de jogo dos goleiros, os juízes também terão de exigir que os laterais sejam cobrados em no máximo cinco segundos. O objetivo é o mesmo, e louvável: mais tempo de bola rolando. Mas por que não atribuir essa responsabilidade a um cronometrista — que poderia até ser o quinto árbitro? E por que não dar logo a esse profissional a função de cronometrar o jogo todo, parando a cada interrupção? Assim, seria possível garantir que haja 60 minutos de ação, a meta que a Fifa não consegue atingir.
O futebol já tem as respostas. O jogo vai ficar mais travado, a duração das transmissões de TV vai ficar imprevisível, o momento de pausar o cronômetro vai virar mais uma fonte de reclamações. Mas, além das explicações técnicas, há uma mais poética: a cronometragem vai fazer o esporte mais popular do mundo perder sua essência. Eu mesmo já escrevi neste espaço que gosto do fato de que o futebol imita o ritmo da vida. Nela, como Cazuza percebeu, o tempo não para. E a sofisticação dos centésimos de segundo vai na contramão da simplicidade que é o tal segredo do sucesso.
Mas o argumento do tempo corrido foi perdendo validade na medida em que o futebol deixou de ser praticado prioritariamente para quem vai ao estádio. Quando a televisão assumiu esse protagonismo, não apenas aumentou a popularidade, mas transformou a forma de jogar — como aconteceu com outros esportes; na década de 1960, o futebol americano já estava em seu quarto pacote de mudanças na regra para se adaptar às exigências das transmissões pela TV e, com elas, ultrapassou o beisebol em audiência.
O futebol da bola redonda foi mais resistente, embora algumas coisas que parecem ter existido desde sempre tenham surgido com a evolução do jogo — o travessão e os cartões, por exemplo. As mudanças eram sempre cautelosas, e a que mais influenciou no jeito de jogar (a proibição de o goleiro receber com as mãos um passe de um companheiro) surpreendeu a própria Fifa, que só queria aumentar um pouco o tempo de bola rolando. Até que a televisão inventou o VAR. O avanço tecnológico das transmissões tornou obsoletos os olhos dos árbitros, e deu-se a revolução no jeito de apitar. Não foi simples, não é perfeito, mas não tem mais como ser de outro jeito.
Para parar o tempo de um jogo, basta usar uma tecnologia que começou a ser desenvolvida na década de 1860, a mesma em que o futebol publicou suas regras: o cronômetro, evolução do relógio de câmera de vácuo criado por Jeremy Thacker, também na Inglaterra, em 1714. E não precisa de uma sala cheia de gente, só de uma pessoa para apertar parar e continuar. Mas para que simplificar se a gente pode complicar?

