É tempo de baleias nas águas do Rio. Para não perder esse espetáculo da natureza, é preciso fixar o olhar na imensidão do mar e, claro, contar com a sorte. As águas fluminenses estão no caminho destes mamíferos gigantes que, em sua viagem anual para reproduzir, deixam a Antártida e vão para o Banco dos Abrolhos, no sul da Bahia.
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Desde abril as baleias, a maiorias delas jubartes, são avistadas no Estado do Rio, com pico da temporada de junho a agosto — os pesquisadores estendem o tempo de monitoramento até novembro. Na maior parte das vezes em grupos, elas vêm sendo registradas nas praias da Zona Sul da capital e na Região dos Lagos, e, à vontade nas águas fluminenses, fazem a festa dos admiradores, que estão lotando os barcos das empresas de turismo de observação.
Miguel Mansour, sócio-fundador da Rio Boat Charter — que, desde 2020, leva pessoas para avistar baleias no litoral do Rio —, conta que a procura pelo passeio explodiu nos últimos dois anos. Esta semana já não tem mais como fazer agendamento numa das três lanchas da empresa, que partem da Marina da Glória e fazem dois programas por dia, às 8h e 13h, desde que haja condições de navegabilidade.
— A partir de meados de junho e até meados de agosto, é praticamente 100% certo de você encontrar baleias no litoral do Rio. A gente vai em direção à Ilha Redonda, que é atrás das Ilhas Cagarras, em frente às praias do Leblon e de Ipanema. E, ali, já começamos a encontrar baleias. E rumamos um pouco para alto-mar — diz. — Normalmente, os indivíduos andam muito próximos. Então, às vezes observamos uma família com duas, três, quatro baleias juntas. De repente, olhamos para o lado e, a 300 metros, já tem outro grupo.
Para fazer esses passeios, no entanto, há uma série de normas federais a seguir. As embarcações têm que se cadastrar e passam por constantes inspeções da Marinha, e as equipes que trabalham nas lanchas precisam fazer um curso de capacitação. Além disso, há “regras de etiqueta” para o encontro com as jubartes.
Mas também é possível avistá-las de terra firme. No Rio, o ponto fixo de observação é no Parque Bondinho Pão de Açúcar, na Urca, inaugurado no ano passado, em parceria com o Projeto Baleia Jubarte.
— Esse ponto funciona como um espaço de trabalho de pesquisa do projeto, monitorando as aparições, e de atendimento ao público, com informações e exibição de imagens, além ser possível ver as baleias lá de cima — afirma Enrico Marcovaldi, diretor do Projeto Baleia Jubarte, grupo de pesquisa criado em 1988 na Bahia.
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Já Arraial do Cabo se prepara para instalar 20 lunetas fixas para a observação em pontos estratégicos em terra, dos quais dez serão com acessibilidade — os aparelhos devem começar a ser instalados no próximo mês.
As baleias não ficam apenas entre os seus. Em algumas situações, se deixam acompanhar de outros animais, como na manhã da última terça-feira, quando alguns indivíduos nadavam na companhia de dezenas de golfinhos-nariz-de-garrafa na altura da Ilha do Farol, a cerca de 500 metros da costa, em Arraial do Cabo.
No dia seguinte, também na cidade da Região dos Lagos, o fotógrafo Jorge Porto captou um momento único: no comando de um dos drones usados no trabalho de monitoramento do projeto Mar de Baleias, que é atrelado à Fundação de Meio Ambiente e Tecnologia de Arraial do Cabo (Funtec), ele gravou um filhote aprendendo a nadar e a fazer manobras ao lado da mãe.
— Com o tempo, a gente fica com o olho muito apurado, conseguimos ver que é um grupo a três, quatro ou cinco quilômetros. Notamos o “farelinho” na água (rastro deixado momentaneamente a partir da respiração) — conta ele. — O filhote fica quase em cima da água e, por causa dele, a mãe não afunda muito para o acompanhar. No dia anterior eu também tinha feito um registro de outro filhote e sua mãe.
Ontem, uma mãe acompanhada de um filhote foram vistos, no início da manhã, na altura da Praia do Recreio, na Zona Oeste. Horas depois, já estavam nas proximidades de São Conrado, na Zona Sul.
Arraial do cabo é o ‘point’
Filhotes de baleia-jubarte são identificados pela cor (tons mais claros de cinza) e, claro, pelo tamanho, que varia entre dois e três metros de comprimento, pesando de três a quatro toneladas — os adultos podem ter a 16 metros e 40 toneladas. Para crescer bem, os filhotes mamam em média cem litros de leite por dia, o que os ajuda a ganhar até 30 quilos diariamente.
— É um animal de vida muito longa, mas com processo de reprodução lento. Um ciclo completo demora três anos. Tem a fecundação, que acontece em Abrolhos; a gestação, que dura 11 meses; o nascimento e o cuidado com o filhote por cerca de um ano. Só então, com ele independente, a mãe está pronta de novo — explica a oceanógrafa e Coordenadora do Projeto Mar de Baleias, Yaci Gallo Alvarez.
Segundo pesquisadores que monitoram baleias no litoral brasileiro, há um crescimento populacional gradual de jubartes, não um boom — embora registros do animal no Rio sejam praticamente diários. Do início de junho até a semana passada, o Mar de Baleias conseguiu avistar cerca de 350 jubartes. Esta semana, conseguiram, pela primeira vez, fazer a foto de um bebê.
— Não temos o registro do nascimento, mas podemos dizer que nasceu na região, no litoral fluminense. A mãe não consegue fazer grandes deslocamentos com o bebê novinho, ele está ganhando força. Antes de fazer uma grande natação, é ensinado a ele a nadar. Pelo tamanho e a cor, cinza clarinho, conseguimos saber a idade — explica Yaci.
Durante a temporada, jubartes podem ser vistas entre São Paulo e Rio Grande do Norte. De acordo com o projeto Baleia Jubarte, no início da década de 1990, eram estimados em torno de 1,5 mil e 2 mil indivíduos da espécie. No Rio, elas voltaram a ser vistas em 2014. Atualmente, estima-se que cerca de 35 mil jubartes passem pelo litoral brasileiro.
— Evidente que a população vem se acostumando. Uma memória genética pode ser que faça com que fiquem mais tranquilas e se aproximem mais da costa. Arraial do Cabo é espetacular, muito por uma questão geográfica, porque já fica mar afora e está no caminho delas em direção ao norte — afirma Enrico Marcovaldi.